sábado, 9 de dezembro de 2017

Epígrafe

Vagueio nas frias calçadas
a cata de algum olhar
acaso entornado, qual descuido:
migalhas que alimentam pombos
e minha fome de gente.

Entorno nas praças
a herança das muitas vezes
que catava lenha nas chapadas
para acender fogueiras
e aquecer o frio de meninos nus.

Colhi, nas muitas curvas
de meus justificados caminhos,
apêndices secos de árvores
para acordar sonhos dormidos
e fazer germinar minha história única.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Para você

Para você

Ah, como é difícil ser!
Tento construir um sentido:
Regar canteiros,
Trocar a lâmpada da varanda
Lubrificar a fechadura do portão
Que a chuva emperrou.

Tento sonhar o impossível
Saber de uma pesquisa
De pós-graduação
Que faço,
Nem sei porquê!

É tão difícil,
Diii fíííí cilllll... (...) (...)
Édi fício!
Edifício....
A engenharia da vida,
A construção de sentidos!

O amargo me invade a boca:
É sal que falta
O sal que excede
Esse sal
É sede
Onde reside
Meus desassossegos.

Não me falta o instante:
Esse momento é nosso!
É amargo,
É doce
- É de “ocê”
Na fala bamba
De uma menina pobre
Cujo casebre
Desconhecestes.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Só!

Tentei resistir,
não consegui!

Inventei muitos atalhos
em outros tantos caminhos:
Itália, Espanha,
França, Portugal
Argentina, Chile,
México, Haiti...
Neguei os saxões
porque deles desconfio
muito mais do que de mim.

Tentei fugir por aí,
perder-me em vastas chapadas
dormindo nos ribeirões
ou mesmo em algumas ilhas
no meio do São Francisco...

Por fim,
já quase sem rumo,
acuei-me neste blog
resolvido a me seguir.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Prefácio

Uma vez rascunhada a obra é preciso apresenta-la aos improváveis leitores o que seria mais elegante e comercialmente eficaz convidando algumas sumidades da literatura: uma escritora renomada para escrever a orelha do livro, uma grande poeta para fazer a introdução ao texto. Dessa maneira a apresentação ficaria pomposa: o primeiro livro do desconhecido poeta Salô de Souza tem orelha da renomada escritora Fulana de Tal e prefácio da igualmente consagrada poetisa Beltrana.

Pensei nessa possibilidade como um publicitário que busca nos postites coloridos e cheios de rabiscos sobre suas gastas mesas, uma palavra que expresse o maior desejo de seu cliente, ou seja, o de vender um produto que para nada ou quase nada serve.

 Vender poesia num país de tão poucos leitores e escassas livrarias exige garimpo, essa busca da apresentação ideal, da palavra mágica, aquela dita por pessoas de suas relações. Relações essas garantidoras de prováveis e necessários reflexos nos salões daqueles que já conseguem viver das letras ou que nunca precisou delas para isso, seja porque são funcionários da burocracia, seja porque herdaram a distinção de outras relações e parentescos.

Assim, por dever de ofício, proponho aqui o maior empenho no sentido de apresentar este meu primeiro projeto literário. Trabalho solitário como penso ser quase todas as produções artísticas, ainda mais eu que vivo desconfiado de meu poder criativo.

Seguindo o conselho de Roland Barthes, mas ao mesmo tempo crendo na impossibilidade de ser diferente, o que escrevo tem muito de meus próprios sentimentos, aqueles que me desassossegam quando em solidão, mergulho no poço sem fundo de minha subjetividade: as memórias boas e ruins, os amores que tive ou que apenas sonhei, os incômodos de minha timidez, a escassa vida social, resquícios da vida difícil escavada sobre as areias e as pedras dos tabuleiros do Norte de Minas Gerais onde nasci e me criei.

Tentei por ordem à escrita como algo que não chega a ser uma proposta de temas, mesmo porque a poesia não se presta a versar sobre temas ou sobre linhas de ideias.

O que apresento nestas supostas divisões são estados de espírito ou algo que não sei ainda o que é, mas que se parece com rios, lagos, açudes e cachoeiras onde a gente se banha ou mergulha quando está sozinho com nossos líquidos mais íntimos.

No fundo, até para não parecer nu, faço uso de alguns lençóis, esses que balançam na memória, qual  lavadeiras distantes lavando roupas no tempo e, de propósito, deixando se molharem.

O meu corpo, mesmo porque miúdo, é menos que meu avesso. O que aquele tem de insignificância esse tem de abismal, de indizível: porões escancarados desvelando a intimidade e os sentimentos mais íntimos do autor.

Espero que compreendam os motivos para dispor os poemas e as poucas prosas no deserto vasto e denso do livro, mas fiquem à vontade para escolher o caminho que melhor convenha a cada um de meus prováveis leitores.

Salomão Fevereiro de Souza,
 inverno, 2017