Púrpuro no linho branco, vinho entornado no peito: não tenho do que me queixar...
Volto ao trabalho
Lapida-me
Ao amor que nunca tive
Espero em ti
o afeto que me falta,
em teus lábios procuro
o doce para meus amargos,
nas curvas de tua pele de cetim
busco deslizar minha aspereza
e no brilho calmo de teus olhos
mergulho a tristeza baça dos meus.
Sou teu contrário,
mas nos atalhos do caminho,
cedo ou tarde,
creio que nos encontraremos.
Música
Ela adivinhou,
talvez sem bola de cristal,
que este som metálico
iria me tocar tão forte
como vento litoral
em fim de tarde,
quando o mar já é revolto,
a maré alta
e, sobre as pedras,
a brisa forte
sopra meus cabelos curtos
como se longos fossem,
qual prolongamento
de fios que, após cortados,
joguei fora.
Então me acende,
sem proteção alguma,
lá no mais íntimo,
uma saudade aberta
cicatriz antiga
que o som metálico
faz arrepiar na alma
singular ferida,
resto de saudade
que dói profundamente!
Ainda que tarde
A noite é escura e triste
como a saudade de alguém:
olho pela janela
todo pretume do muro
e sinto-me prisioneiro
dos caprichos desse mundo.
Atenho-me aos ruídos
da cidade em movimento:
algum veículo em manobra
e a estridência sonora
dos latidos de cachorros
no quintal de algum vizinho.
Lanço-me inteiro na cama
aos sentidos me atenho
solvendo o frescor da brisa
que passa pela janela
e, num providencial alento,
traz-me de volta teu cheiro.
Fio perdido
Vinha vindo devagar
quando numa esquina,
num pequeno e simples bar,
vi, de relance,
e colhi sem hesitar,
um alegre e colorido
fio de teu olhar.
Hoje, já com saudades,
procurei-o em algum lugar,
mas já nem sei
se o deixei esquecido
sobre alguma mesa...
se por descuido o perdi
nas esquinas da cidade
por onde andei.
Desconfio
que naquele dia
bebi mais do que devia
e, embriagado,
já não sei
por onde ando
ou andei.
Bebericando
Já era manhã de sábado
quando beijei teus cachos
e deixei sobre a mesa a oitava.
Saí a cambalear Bahia abaixo,
virei uma esquina, que já nem sei qual,
dei meu casaco para uma mulher grávida,
que encontrei deitada
na porta de algum banco
O sol já era alto
e meu passo, ainda falso,
minha cabeça fraca
não conseguiam encontrar
o ponto de ônibus.
Muito fora do percurso
acabei chegando ao parque
onde deitei-me num banco,
dormi umas dez horas,
eu acho,
e só acordei porque alguns cães
retiravam de meu bolso
uns pedaços de torresmo
que guardei como lembrança
pensando ser o teu lenço.
Herança
Não tenho sorte nem sina:
guardo só o que sobrou
de velho e cansado corpo
que aos tropeços patina
amparado pelos muros
vagando por ruas e esquinas.
Herdo desta vida finda
os amores do passado,
pequenas paisagens, caminhos,
algumas flores pequeninas
e uma saudade imensa
do riso de uma menina.
Soneto besta
Minha menina linda
por que escondes as tuas taras?
por que nunca declaras
que gosta mesmo de mim?
Sabes que a vida não para:
se o tempo consome a gente
por que negar, de repente,
o amor que em nós aflora?
Estou à disposição
entrego meu coração
sem tributo, sem demora.
Mas ante sua recusa
minha alma segue muda
transbordante de paixão.
Sonhar por nós
Os sonhos que sonhei
eu os sonhei só
porque, apartado dos teus,
mesmo sonhando por nós,
os sonhos que tive
foram somente meus
e os que tivestes
foram unicamente teus.
Quando te falei de meus sonhos
jamais dissera
que também sonhara
sonhos semelhantes aos meus,
mas eu quisera
sonhar um sonho nosso,
um sonho não apartado
dos sonhos teus.
Não sei bem onde,
em algum lugar
muito distante do agora,
quando os sonhos não eram meus
nem somente teus:
sonhávamos por nós!
algo então aconteceu
e apartou, definitivamente,
os meus sonhos dos teus.
Desculpas
Preciso de um ombro
onde possa deitar sereno
todo desalento desse mundo.
Preciso de um coração gigante
onde caiba meu amor imenso
e todo despudor de vagabundos.
Preciso de um colo aconchegante
onde possa depositar por instantes
minha cabeça prata e atordoada.
Preciso terminar esse poema
antes que alguém mais desconfie
das coisas que aprecio ou que invento...
Sutilezas
Os olhos dela,
o desenho do rosto,
aquela profundidade de rio,
o queixo perfeito,
os lábios carnudos convidando ao beijo,
os seios arfantes,
a íntima condição de uma deusa...
E meus olhos buscando os dela,
que insistiam em evasivas,
sabendo-se olhada.
Não tive escolhas:
com toda discrição e cuidado
escrevi numa folha
de minha agenda
uma sincera declaração
e cuidadosamente
passei às suas mãos,
antes que ela descesse
na estação,
deixando meu olhar vazio e triste:
“Com todo pudor de um velho,
com todo respeito que te tenho,
posso fazer-te um elogio,
já fazendo?...
você é divinamente linda!”
Vi quando ela,
já do lado de fora,
olhou-me através da transparência
dos vidros temperados
e sorriu feliz...
Basta!
Basta uma estação
um trem que passa
um assobio, uma canção,
que ao vento valsa.
Basta um verão,
chuvas numa tarde baça,
raios de sol dourando o chão
uma menina, seu riso e graça.
Basta o espelhar de um avião
nos teus olhos cheios d´água
e essa amarga dor e solidão
a açoitar tua pobre alma.
Basta uma flor de estação,
um botão de rosa, efêmera flor,
para saber que, além do chão,
perdi o passo, a valsa e o teu amor.
Sobras
Nada me interessa agora
se no cômputo das horas
o meu crédito se esgotou:
sou devedor!
O que mais tenho de mim
se tudo que guardo aqui
e o resto que sobrou
de nosso estranho amor?
Desdém
De mansinho ela chegou
transbordante de carinho,
olhos úmidos de afetos,
corpo sedento e em cio.
Com um sorriso me acenou
numa vaga despedida
abriu a porta e saiu
e nunca mais voltou!
Meu olhar ainda insiste
olhando a porta fechada
fitando triste o caminho
crendo que ela ainda volte.
Pois ao fechar-me a porta,
num beijo e dedo em riste,
lançara-me sobre a cama
rubra peça de cetim.
Tudo pássaro
O meu olhar perdido
fugia por entre frestas
de um vitral entreaberto
num canto escuro da sala;
espiava sobre o muro,
para além do meu quintal,
algumas nuvens de algodão
que espalhadas sobre azul do céu,
em banho de sol, bordavam
minha doce solidão.
E então, desesperado,
meu coração implorou:
a liberdade de pássaro,
o olhar de certo alguém
que também na tarde morna,
da janela de alguma sala,
olhando triste o céu lá fora
sonhasse ser passarinho
sem limitação de asas
voando até minha casa.
Estrelas
Deitado num leito de rio ou de amor
olhava o céu macio de cobertor:
extenso véu que apaga o sol
quando é chegada a hora de dormir.
Assim, nesse quase abandono,
o menino brinca com seu sono
e busca, em si e no infinito,
o brilho cálido de alguma estrela.
E na sua inocência pueril,
como num brincar de faz-de-conta,
fecha macio, seus olhos infantis.
E então, num desdobrar, se descortina,
como fogo a lhe queimar por dentro,
o brilho ardente do olhar de uma menina.
Libido
A brisa dança macia
no balanço da cortina
e na cama ela é só sonho:
olhos a se perder distante
pensando talvez em algum amante
que nunca teve ou terá.
E suas mãos, seus dedos longos,
são quase línguas em chama
que no abandono da cama
exploram curvas delicadas:
pele radioativa em explosão,
desejo louco de amar.
E eu, aqui distante clamo:
¬ ah, se eu pudesse! ¬
estar no sonho que ela não sonhou
porque não dormiu,
ser essas mãos em chama
que na solidão da cama
passeiam em desvario
por sua pele de algodão,
pelas curvas de seu corpo em cio.
Rotina
Rabisco versos num papel
e no tropel do dia
tropeço numa calçada
minha apressada rotina.
O sol frio das manhãs,
as vans e os colegiais,
sanha de insetos em flores
risos, amores, meninas...
Quase sem querer me perco
disperso em verso e poesia:
memórias de velhos cadernos,
amores, dores e rimas.
Indagações
Com quantas luas
se faz uma poesia?
quantas manhãs
pra se tecer um dia?
Com quantas cores
se pinta a primavera?
quais são as flores
que colhi pra ela?
Com quanto amor
uma mulher se veste?
com quantos beijos
um beija-flor fenece?
Nada sei da lua
nem das manhãs!
desdenho insetos
e flores de estações!
Sobre o amor
sei que tem sabor
e quando efêmero
machuca e causa dor.
Espero em ti
Quiçá eu seja
uma imagem refletida
no espelho de teus olhos:
quando chorares,
quedar-me neles
em frágil gota;
quando rires,
rebrilhar estrelas
beijando tuas retinas...
Espero não ser
tão ignorado
por teus olhos lindos...
Amores que tive
Amei uma,
amei duas,
amei quatro
ou mais de seis...
Amei uma só menina
amei muitas de uma vez.
E de tanto amar me assombro
pensando até que, talvez,
das muitas escolhas que fiz
entre os amores que tive
nenhum deles foi capaz
de acalmar meu coração
e, ao som de uma canção,
num colo cheio de paz,
me fazer dormir feliz.
Eu, sonho
A menina passou
e foi como um sonho bom
que me acordou
no meio daquela noite.
Seu olhar quente,
qual lentes de Almodóvar,
imprimiu em minha alma
um perfume agridoce.
Senti vontade
de nunca mais acordar
daquele tão lindo sonho.
Mas que estranho:
o seu perfume de flores
fez de mim um ser sonâmbulo.
Acordes!
Meu coração bate:
tum, tum, tum!...
Às vezes esqueço
que tenho um...
Mas ao te ver:
tum, tum, tum!...
Tempestades
Um dia você chegou bem de mansinho,
como uma tarde morna de verão,
como uma sombra à beira do caminho,
onde quisera repousar meu coração.
Tão grande se tornou minha vontade
minha fome, minha sede e devoção,
que antes do final daquela tarde
um temporal inundou meu coração.
Na trovoada, chuva e enxurrada,
ao açoite de vendavais eu me perdi
da tão sonhada sombra da estrada.
E até hoje na brisa morna destas tardes,
quando a saudade me vem e penso em ti,
açoita-me a alma antigas tempestades.
Porta aberta
As folhas do outono ainda não caíram
e já me sinto, no pardo de inverno,
uma sombra seca e frágil,
um pássaro abatido
pelo tiro covarde do caçador.
Preciso cultivar uma flor
um jardim de muitas cores
para suportar, nesse inverno,
as feridas, as cicatrizes e a dor
da impossibilidade desse amor.
Desculpe esse tempo de nós dois,
mas às vezes me esqueço,
outras vezes deixo para depois,
¬ oh meu amor! ¬ e não fecho
as portas escancaradas de meu peito.
Meninas dos olhos
Quando teu olhar
esbarrou no meu
minhas retinas,
igual meninas,
vestiram-se de flores
e ficaram assim,
alegres, sonhadoras.
Antes de acordar daquele transe
virastes a esquina
e as meninas de meus olhos
se entristeceram:
nunca mais esqueceram
o calor e o espanto
daquele primeiro encontro.
Dança
Um olhar provoca outro olhar,
uma nota musical
em sonora harmonia
recria, ao infinito,
o universo das artes:
entre sons e olhares,
sonhos são possibilidades.
Poderíamos colher
daquele nosso olhar
toda musicalidade
que move o universo de nós dois,
mas você virou a esquina
e o meu olhar ficou sozinho
vagando pelas ruas da cidade.
Analista
Quisera ser seu analista:
não para desvelar
seus possíveis segredos,
não para dizer-lhe
o que fazer da vida,
não para reascender
suas feridas,
nem mesmo para ajudá-la
a melhor se conhecer.
Quisera ser seu analista
somente para saber
o que há em você:
que me desassossega,
que me tira do eixo,
que me põe no ar,
que reascende feridas
que me deixa sem saber
o que fazer da minha vida.
Jogos de amarelinha
Para Helena com saudades de um tempo...
À sombra das árvores de seu quintal
a menina, cantando sozinha,
brincava de amarelinha
e, fitando furtiva a casa vizinha,
espiava os movimentos
daquele que
em seus sonhos seria,
quem sabe um dia,
o grande amor de sua vida!
Mas da areia do terreiro,
mal sabia aquela menina,
apagariam todos os traços e os riscos
de seu brinquedo preferido
e, além disso,
em breve já não teria à vista
seu pretendido:
aquele que, da casa vizinha,
também furtivamente a espiava.
Então solitária e triste
a menina nunca mais cantou
nem riscou no chão de areia
seus jogos de amarelinha.
Teu olhar
Meus olhos mendigos já miraram tantos olhares,
já amassaram tantas piscadelas,
já atiraram ao lixo tantas insinuações.
Meus olhos vadios tantas vezes
já banharam em outros olhos rasos,
esses que, despudorados e nus,
doam-se nas praças públicas.
Meus olhos tristemente sonhadores
já foram chafariz de outros olhares igualmente tristes
e, vezes sem conta,
já se deitaram pelo chão imundo das calçadas.
Muitas vezes meus olhos acuados
se retiraram em silêncio
para as sombras dos viadutos.
Meus olhos esfomeados e ávidos
já miraram pássaros e com eles voaram,
já miraram muitos espelhos de rios e neles se banharam,
já namoraram outros olhares bonitos
nos quais quisera morar.
Porém,
de todos os olhos que os meus já viram,
nenhum se compara aos teus.
Para teus olhos nada mais precisa existir,
pois eles já contêm todos os olhares que já vi.
Neles se encontram meus desertos
e todos os rios onde nadei;
neles, tal como pássaro, muitos céus voei;
eles são o verde de minhas paisagens,
o azul denso de meus mares sonhados,
o serpentear de riachos
e a imensidão parda das chapadas.
Teus olhos são as cachoeiras de meus tempos de criança,
meus antigos brinquedos, minhas melhores lembranças;
são, enfim, os meus segredos, minha coragem e também meus medos.
Teus olhos são meu passado
deitado no presente a espelhar minha vida
num futuro de esperanças.
Teus olhos me dão segurança, mas também me deixam em desabrigo,
me deitam no doce aconchego de colo
e depois me abandonam num completo desapego.
Teus olhos me acolhem e me dão alento
enquanto me tratam como um mendigo
e me atiram na solidão fria das sarjetas.
Esses teus olhos, que tanto amo,
enquanto me protegem, me deixam em desamparo.
Assim, jogado pelas ruas e avenidas
mendigo em outros olhos
migalhas de teu olhar.
Soneto ao perdão
Amo-te tanto, óh meu amor!
com toda angústia e fé de um infante
que tem palácios e, no entanto,
sabe que nunca será rei.
E por te amar assim até sonhei
que fora deveras minha amante,
mas ao acordar daquele sonho,
com sofreguidão, beijava o cobertor.
Assim, tendo-a por santa de andor,
entre desejos, aparência e sonhos,
tudo eu vivo e faço em teu louvor.
Enfim, perdido de amor e de paixão,
em ti creio – óh meu divino amor! –
e ajoelhado a teus pés peço perdão.
Como da primeira vez
Hoje senti teu cheiro
como há muito não sentia;
revi em tua nudez
as curvas que já não via;
por longo tempo ouvi
bater em paz teu coração
e, na minha timidez,
segurei outra vez tua mão.
Percebi que nesse tempo,
em razão do prazer fácil,
tornamo-nos diletantes...
Pensei então naquele instante:
que bom seria esquecer
nossa competente mestria
e o amor reaprender,
a cada dia,
como da primeira vez!
Quase sem pudor
Que pensam essas mulheres
com seus olhares tristonhos,
fitando o nada?
Será que esperam ser
delicadamente amadas?
Será que pensam
em alguém que as amem?
Vai saber!...
Sonham talvez,
a cada olhar distante,
serem verdadeiramente amantes,
ou talvez esperem
por alguém que as amem.
E eu, interrogativo,
brincando com tais possíveis sonhos,
espero, quem sabe um dia,
caso a sorte me ajude,
ser esse sonhado amante.
Heresia
Que pretensão é essa?
pensar que os olhos lindos
dessas mulheres felizes
são tristes e inspiram sonhos
de amores e de amantes?
É o meu olhar que vive,
qual cão em total abandono,
mendigando o inacessível
apelo de algum olhar
e a tropeçar nos próprios sonhos.
Quase nunca desconfio
que meu impossível plano
já é quase uma loucura
e ao revés do que procuro
só consigo encontrar
uns versos pobres, sem rimas
¬ uma quase heresia! ¬
que, pela caridade de alguns,
ouso chamar de poesia.
Paisagem urbana
No silêncio
a tarde balança um pássaro
que passa leve
em voo sonolento.
O vento acaricia
as folhas das palmeiras,
num aconchego de colo.
Na calçada, do outro lado da rua,
o sol sonsamente rebrilha
nos vidros de um carro estacionado.
Nas janelas de um edifício
o céu espelha seu azul de tardes
e, aos poucos,
pequenas manchas de nuvens
salgam em meus olhos
saudade longa de paisagem
refletida em tuas curvas.
Tudo é calma,
até que pardais se assanham
no asfalto, frente a um café,
catando migalhas de não sei quê,
mas logo um carro passa devagar
e eles partem em revoada.
Meus olhos novamente se deitam
na monotonia da paisagem urbana
onde disfarçam tristezas
e inutilmente tentam
aplacar a fome que sente
de teu lindo olhar.
Acaso
Já era fim de tarde
e eu andava por aí
quando, numa esquina da vida,
meus olhos se depararam
com aqueles olhos lindos.
Paralisados pelo feitiço do espanto
meus olhos nunca mais esqueceram
a magia daquele primeiro encontro.
Após tanto tempo já passado
relembrando o acaso daquele dia
meu coração pulsa acelerado.
Ainda tento esquecer:
a esquina, a menina
e aqueles olhos lindos
que continuam pousados
em minhas tristes retinas.
Ao vento
À minha eterna Helena
Óh vento manso que entra
por esta janela aberta
e traz-me, no fio do tempo,
lembranças tantas!
ao acariciar meu corpo nu
faz-me lembrar que ela
também deve ter uma janela
pela qual sutilmente passas
a balançar, além de uma cortina,
os lindos cabelos dela.
E eu, embora tente,
não saberei jamais
o que ela pensa:
sobre o fio do tempo,
sobre o vento,
sobre mim...
Pouso de andorinha
Vida de andorinha
essa é a vida minha:
entre edifícios
na difícil ida,
nas voltas e vindas,
fios e ventos,
pousos e voos.
Ainda faço parte
das leves correntes,
das brisas, dos ventos
e dos furacões,
que sopram
e agitam
o meu coração.
Sou andorinha
e vivo a vagar
por entre os olhares
das meninas-moças.
Às vezes reclamo
um ninho pro pouso,
mas não corro riscos
por isso não ouso
num deles pousar.
Armadilhas
Ainda sou criança!
Sinto falta de um colo,
vivo a mendigar abraços
e de verso em verso,
de prosa em prosa,
chego a ser moleque
e armo laços por aí.
Nunca fico satisfeito
com o aconchego dos colos,
com os abraços que ganho,
alguns versos que escrevo
e, embora falho,
ainda espalho
armadilhas por aí.
Alma nua
Se queres saber por que vive
triste assim o meu olhar
procure-me nas sarjetas
nas esquinas, nas calçadas,
nas manhãs, nos fins de tardes,
no riso da juventude,
em alguma mesa de bar,
nos moradores das ruas,
noutras frias madrugadas.
Só peço que venhas armada
e pise bem devagar!
se preferir deixe as sandálias,
os brincos e os colares;
venha sem luxo e descalça
¬ não ligue em trazer presentes! ¬
mas se puder me traga paz
e a tua alma nua
para banhar no meu olhar.
Soneto ao menor amor
Ao grande poeta Vinícius de Moraes
Amo-te tanto – óh minha adorada flor! ¬
sempre, na eternidade e a cada instante,
que mesmo o amor de todos os amantes
não pode ser maior que o nosso amor.
Amo-te com um amor tão grande e intenso,
muito mais que as mariposas amam as luzes,
mais que as beatas amaram a cruz,
mais que um poeta pode amar em pensamento.
E de te amar tanto, com amor tão indizível,
chego a crer que meu coração segue enganado
e a duvidar que um amor assim seja possível.
Pois se a razão da morte é ter antes vivido
e da solidão é ter intensamente amado
como pude amar assim sem ter morrido?
Soneto à minha procura
Procurei por toda parte:
nas cores do céu e do mar,
nas montanhas, nas florestas,
noutros risos e olhares,
Já procurei nos insetos,
no pólen que os assanham;
procurei também nas flores
e em suas cores tantas.
Desconfio que a tal procura
¬ no céu, no mar, por todo lado! ¬
se não é obsessão, virou loucura.
Mesmo louco ainda me espanto
ao saber que a minha procura
somente em você encontro.
Soneto ao soldado ferido
Perdoe a minha falta de jeito:
pedistes para te ajudar na tempestade,
mas ela era tamanha que, ao fazê-lo,
ao invés de protegê-la, quase me mato!
Agora, já passado o temporal,
busco em desespero na enxurrada
algum fragmento, armas, pedaços
e os poucos cacos que de mim sobraram.
Doe-me saber não ter te abrigado
e agora a procuro em meu vazio
na ânsia de mantê-la em abrigo.
Assim sem direção, quase perdido,
na vã ilusão de ter vencido
sinto-me completamente derrotado!
Às mulheres
É a esperança de beijos que destila perfumes
e pinta as pétalas das flores.
Vistosas folhas se oferecem às lagartas
em banquetes:
sabem que ao se darem
garantem futuras crisálidas
e o voo de borboletas.
Existem razões para as sementes guardarem,
em delicadas caixinhas,
a essência de grandes árvores.
Quaresma
Aqueles dias eram de lua:
todos luz e quadros,
coloridos de moças
e de tecidos.
Nem bem amanhecidos
já prometiam beijos,
já ensejavam folias,
risos e alegrias.
Foi assim até o quarto:
meninas transparentes,
cores e desejos...
Mas veio a quarta
e com seu beijo frio
acinzentou os outros dias.
Sextilhas e umas saudades
Que coisa esquisita é a gente
e esse defeito da mente
de sempre querer recordar
buscando na mais tenra idade
alguns flocos de saudade
e motivos pra chorar.
Ainda que não existam mais
aqueles nossos quintais
e jogos de amarelinha
vejo-te saltitante,
sorridente, provocante
zombando as fraquezas minhas.
Sua pele de algodão,
que ao toque de minhas mãos
todo corpo arrepiava
e eu, ainda pequeno,
enchia-me de veneno
sabendo que me amavas.
De noite, ainda me lembro,
fazia-lhe versos, poemas,
dobrava em aviõezinhos
que voando sobre o muro
levava luz ao escuro
de nossos quartos vizinhos.
Vejo-te muito enciumada
brigando em nossa calçada
com a rival Durvalina,
enquanto eu me distraia
e poemas escrevia
às minhas duas meninas.
Do amor que te dediquei,
mil lembranças eu guardei
para enfeitar meus caminhos:
guardo o sabor de teus beijos
o brilho de teus olhos negros
gravados em minhas retinas.
Minha querida Helena,
onde estás neste momento?
Será que ainda és pequena
e brincas de amarelinha?
Será que já esqueceste
de nossos quartos vizinhos?
Helena...
minha eterna Helena:
o tempo passou por nós,
mas deixou tanta saudade!
Amor fugaz
Teu véu é leve
e frágil como penumbra
que ao amanhecer encobre o mundo,
mas ao sopro de brisa se desfaz
e dá lugar ao sol claro da manhã.
Teu véu é frágil
como a taça onde bebes mágoas
e que em tuas mãos se fragmenta:
mesmo em pedaços és fria e ainda trazes
os traços e a indiferença dos cristais.
Teu véu se rasga
e, ao fazê-lo, te expõe inteira
frente ao real que depõe a máscara
e desnuda teu amor falso e fugaz:
antes doce, hoje áspero e amargo!
Teu véu se vai
levado pela brisa da manhã:
com esmero recolho os pedaços
do frio cristal que te subjaz
e com eles refaço nosso amor.
Amor mendigo
Ela tinha a cor de chocolate
e seus olhos, doces como mel,
eram o brilho e a luz daquela praça:
só de fitá-los já se sonhava o céu
Seus cabelos em gostoso desalinho
sugeriam afagos, cama e cobertor
e, somados ao escarlate de seus lábios,
compunham sonhos de beleza e cor.
Certo moço, frágil e desarmado,
sob o banco em seu abrigo de papel
sonhava um dia ser por ela amado.
Muito sofria de paixão enciumado
quando ela saía de um pequeno hotel
abraçada a seu outro namorado.
De amor e pranto
O dia nem amanheceu
e já estou de pé.
visto-me apressado,
tomo um gole de café...
corro pro ponto.
Entro no ônibus cheio:
nem dá pra ficar sentado
ou ler algo para esquecer
que um dia no passado
amamos tanto!
No trabalho conto as horas,
impressas no monitor,
mas elas nunca têm pressa:
não entendem minha dor,
meus desencantos.
Às pressas volto pra casa
com vontade de rever-te
em alguma fotografia
ou na blusa que esqueceste
num canto.
O amor é com certeza
uma coisa muito boa:
vira a vida ao avesso,
deixa a gente rindo à-toa...
Aos prantos.
O jeito dela
Sentado num banco de praça
sem fazer nada, nada, nada!...
só reparando, de longe, o jeito dela:
o balanço que tem no andar,
a graça quando para pra olhar
uma vitrine cara...
Sozinho na mesa de um café:
uma xícara, outra xícara, xícaras!...
sorvendo, aos poucos, o jeito dela:
o balanço que tem no andar,
a graça quando para para olhar
e rir da minha cara...
Bebendo com amigos em um bar
só de conversa, verso, versos!...
rimando, aos tropeços, o jeito dela:
o balanço que tem no andar,
a graça quando para para falar
com alguém lá fora...
Mas é só um jeito que ela tem:
de olhar uma vitrine cara,
de, às vezes, rir da minha cara,
ou mesmo de ver alguém lá fora
disfarçando a vontade que lhe dá
de um dia gozar as minhas taras...
Num banco de praça
sem fazer nada, nada, nada!...
Pássaro encantado
Eu estava à toa
olhando distraidamente umas plantas no quintal
quando vi, pela primeira vez,
aquele pequeno pássaro.
Ele não tinha nome, só cor e canto.
pousou suavemente num ramo de parreira
e me olhou distraído como quem não entendia
a fria maldade do humano.
Depois de um tempo mínimo
saltou pro chão, catou um fragmento de capim
depois voou levemente para o abacateiro ao lado
onde, provavelmente, preparava um ninho.
Antes, porém, pousou no muro
depôs a prenda e me apresentou seu canto
que entendi ser de chegada e de partida
o que valeu mais que ter-se ido mudo.
Embora não me tenha dito o nome,
só seu encanto,
com esmero guardei no coração
seu belo canto.
O perfume
O perfume é um movimento
que entra pelas narinas,
invade os vasos sanguíneos,
passeia pelos neurônios
e se vai sem despedir.
Deixa só frágil registro
impresso em algum lugar
como uma nuvem que vaga
sem rumo na imensidão
ou uma luz que se apaga.
Suscita a marca de um quadro
longamente pendurado
na parede de uma sala
que faz lembrar com saudade
um grande amor do passado.
Desfaçatez
Na morna transparência
o pingo d´água escorre
e num átimo se esvai.
O calor é imenso:
engole ideias,
devora tudo!
até um pingo da chuva,
que cai desavisado
no vidro de minha janela.
Desculpe meu amor
mas esse calor
devorou também meus versos!
Amar o mar
Amo o mar
e tudo que nele me inspira,
mas não posso querer guardá-lo
só pra meu deleite.
O mar é vastidão e movimento
e é justamente isso
que me encanta e me faz amá-lo.
Assim,
o meu amor
só será duradouro, gostoso e terno,
quando meus mares internos
¬ aqueles que me movem ¬
respeitarem os movimentos dos oceanos
que pulsam no peito da mulher que amo.
Amar é...
Amar é mar:
é mais que só movimento!
é mergulho fundo,
é pesca,
é lançar de redes no abismo
à busca
do desconhecido.
Amar é mar:
é coral, corrente,
é praia,
é porto...
é abissal
de foz em fora,
é também foz,
encontro
entre rio e mar...
é dor e alívio,
é doce e sal.
Amar é mar:
é ressaca,
é maré alta,
é onda que vem e volta,
é crista,
é depressão,
é enfim, essa monção,
esse sopro,
esse balanço,
que leva e traz,
que enche e esvazia
meu inquieto coração.
Olhar
O olhar busca ao seu redor
toda realidade perceptível,
mas só o imponderável,
o indizível
¬ aquilo que comumente chamamos de alma ¬
é capaz de beber
a essência das coisas belas
que existem no mundo.
Rogo
Quisera dizer-lhe umas palavras,
mas elas escaparam:
voaram por aí
sem sequer se despedir!
Quisera escrever-lhe uma carta,
mas o meu papel
resistiu ao traço
e fugiu pra lixeira aos pedaços!
Quisera dirigir-lhe meu olhar,
mas os espelhos
de teus olhos lindos
disseram aos meus: não são bem vindos!
Quisera declarar-lhe meu amor,
rogar-lhe um beijo,
mas meu juízo
cavou entre nós imenso abismo!...
Tantas palavras não ditas,
tantas cartas não escritas,
tanto olhar rogado
deixaram o meu amor assim, despedaçado!
Refém
Sem palavras...
Esse carnaval de fantasias
¬ beijos, carne, pele e poesia ¬
reascende lembranças
de desejos insanos
guardados na memória de um menino
refém de antigo e loucos temporais.
Alegoria
É quarta-feira:
recolher os cacos,
varrer poeira
para debaixo do tapete,
atualizar o Face,
fingir trabalho
e, sem trabalhar,
contar os dias que faltam
para o próximo Carnaval.
Assim pulsa
o coração dessa gente:
as telas e as novelas
pintam de fantasia
os sonhos carnavalescos.
Já passada a Escola,
contados já nove meses,
toda essa alegoria
vai exigir afeto,
chorar e fazer xixi.
Música silente
Quem nunca reparou estrelas:
como vibram,
como tocam,
em silêncio e solidão,
notas de uma canção inaudível!
Fascina-me o fremir dos corpos,
o pulsar da vida
por entre as fibras delicadas de tecidos
qual cortina, ao soprar de brisa,
qual estrelas piscando no infinito,
qual coração que pulsa
no peito da mulher amada.
O silêncio da nota
É madrugada:
o balanço da cortina
acusa sopro de brisa
e traz, no silêncio,
o som daquela nota
quase esquecida,
que pensei ter ouvido,
quando nossos olhos
casualmente cruzaram
pela primeira vez.
Na fina transparência
vejo estrelas
e o céu é profundo
como as lentes de teus olhos:
e tem mistérios
e faz sonhar...
Na solidão da noite
tento esquecer a nota
e teu silêncio.
Arranca-me daqui
óh quietude morna!
Preciso dessa brisa
e, no infinito de estrelas,
dissolver-me no tecido.
Careço mergulhar, sem medo,
no brilho de tuas retinas
e sentir, em teu silêncio,
o vibrar daquela nota.
Depois
pode passar a brisa
e a arrogância do sol
apagar aquela estrela...
Posso perder-me em teu corpo
e no ruído do dia
nunca mais fazer poesia,
nem versar em teu silêncio
a música que vibra em ti.
O reverso do verso
Apanhei um fio de tristeza
e dele fiz um laço:
lacei, no estouro da rede,
e como bom laçador,
o primeiro poema que encontrei.
Eis a prenda,
que tocou profundamente
meus abismos.
Aflito, vejo-a fugir
deixando impresso em meus lábios
sabor de beijo roubado.
Sonhos
Quanta doçura trazes escondida
no tecido fino e delicado,
na roupagem leve com a qual te cobres,
em teus gestos plúmeos, em teu sorriso farto,
no adorno de teu colo de promessas tantas!
E eu, de paixão embriagado,
mergulho fundo em teus olhos lindos
e neles busco o sabor de mel,
a doçura que supõe teu beijo
e os segredos de teu colo em cio.
Quem me dera ser merecedor
de teu amor, de teu sorriso franco,
desse teu doce beijo, teu olhar, teus gestos
e de resto, para ser feliz para sempre,
morrer de amor no adorno de teu colo.
Pintando o mundo
Amo as cores do universo
o breu da noite
e o infinito de estrelas.
Amo a transparência dos pingos da chuva
na superfície cristalina dos rios.
Amo as árvores,
casas de passarinhos mil.
Não há arte sem se lambuzar de tintas...
sonho ser pincel!
Violão
Eis o avesso da árvore,
a intimidade das plantas
transformada em instrumento de gozo.
Sinto-me desfrutando o mais íntimo da árvore:
sua alma cantante.
Amigas
Para Amanda e Áurea, amigas muito especiais.
Amigas estudam,
almoçam juntas
e amam uma prosa e um bom café.
Muitas vezes leem
e se emocionam
com os mesmos livros.
De quando em quando
frequentam as mesmas salas de cinema
e choram por simples coisas.
As verdadeiras amigas
sofrem a angústia de escrever
e vibram juntas depois do texto pronto...
Compartilham entre si
as intimidades poéticas
e dão pena – ou lápis –
como presente
para rabiscar e escrever
as coisas belas da vida.
Às mesmas
Nunca tive muitas amigas,
mas as poucos que tenho
são de dar pena...
Pena para desenhar
as coisas belas que existem,
pena para rabiscar
esses meus tortos poemas...
Pena para valer a pena
viver sem pena
as amizades que tenho.
Engano
Tamanho engano esse nosso encontro:
quando te odeio, diz que me ama
quando a amo me ignoras
quando rio
choras
e se sorris
logo fico triste.
Quando me despeço
voltas e se aproxima
para outro abraço,
quando chego perto
vais embora...
Magia, feitiço,
sumiço tamanho:
tive-a por perto
hoje me sinto estranho:
incerto, distante.
Saudades, vazio
frio de inverno:
se te acolhi em meu calor
hoje me vejo só
nessa dor constante.
Vento de julho
arrulhos, cigarras
secura de estação:
ignoras esta minha alma
e coração errantes.
Assim, na dor
busco entender:
o que entre nós há de igual,
o que entre nós não pode ser,
o que entre nós é delícia e gozo,
o que entre nós é sangue e dor,
o que entre nós é de matar e de viver.
Pensei que fosse possível compreender,
mas me perdi no desarranjo desse nosso encontro.
Aconchego
A todos aqueles que,
não tendo um amor fiel,
precisam vestir segredos de armários,
sejam eles novos ou velhos...
o inverno pede aconchego!
Quando vens aqui
e me despe toda,
e te viras ao avesso,
confesso, fico desarmada...
Quando te conheci
cabias inteiro em meu corpo
viçoso, perfeito, macio...
Fiquei perdidamente apaixonada!
Os anos passaram:
outro inverno frio
rompe as estações e os dias:
eu, já miúda, e tu amarelado!
Mesmo assim ainda aqueces,
no teu conforto de algodão,
minhas noites frias,
óh, meu velho casaco desbotado!
Colcha de retalhos
Na minha eterna indecisão
tento equilibrar em fio de giz,
enquanto ela, esguia,
me diz onde é o chão
e, num abraço,
conduz meus passos.
Sem ela meu novelo seria emaranhado
e meu chão partido devoraria,
de meu corpo fragmentado,
os mil pedaços.
Risco no ar
branco círculo de giz,
jogos de amarelinha:
bela vida é a tua;
indecisa, a minha.
Novelo, fio,
ponta escondida de linha,
nós que não se desatam:
livre é tua dança;
quedo me disfarço.
Efêmero fio de giz
onde piso em falso
enquanto tu te lanças
na leveza do espaço
Sem precisar de chão.
Cordas, cordões,
laços que não desato:
só tu na tua leveza
podes coser de trapos
nossa colcha de retalhos.
Segredos
Entre duas pessoas que se amam
há sempre um bocado de segredos e de memórias
a acender o fogo das paixões.
Se não há segredos, se não há memórias,
como alimentar a alma de quem ama?
as estações se sucedem!
é preciso aquecer cada inverno
senão o amor esfria, definha, apaga.
Não sei o que passa
nessa tua cabeça!
Às vezes até duvido
daquilo que perturba a minha!
Somos uma imensa interrogação
irrespondível!
se penso em ti,
se pensas em mim
nenhum de nós irá saber.
Às vezes julgo entender
um pouco daquilo que pensas;
avalio que sabes também
em que ando a pensar...
Como saberei eu,
como saberás tu
sobre estes tantos segredos
guardados em nossos baús?
Se lhe falo sobre mim,
sinto-a desconfiada;
quando me falas de ti,
nessa pouca claridade,
esqueço até que o amor
é maior que seus detalhes:
Tem lá suas brincadeiras
seus joguinhos de memórias
que quando são reveladas
nem eu, nem você,
nem nós dois juntos,
assim amados,
temos o despudor de acreditar.
Puro verniz
Já não sei por onde começar:
cada início imaginado se confunde com o fim.
O presente e o passado
condensam os mesmos registros sem sentido:
pura aparência, puro verniz...
Hoje uma tristeza
varreu o chão de minha sala:
fiquei quieto, lavei meus pés
para não atrapalhar a faxina.
Sonho de amor ou de menina
pardo chão, puro verniz,
balde de água com sabão
e essa tristeza nunca finda.
Hoje uma poeira
sujou a minha sina
e uma menina, efêmero traço de giz,
apagou de vez minha alegria.
Eu sempre soube:
fui quase um chafariz sem água
esquecido numa praça, ou um palhaço,
que já perdeu o dom de fazer graça.
Mergulho
Chove em minha janela
e a água em cascata
corre por entre a mata
¬ barba rala por fazer! ¬
a procura de uma trilha
onde possa desaguar
toda angústia de viver:
essa vontade incontida
de mergulho e mar.
Hoje meu coração
amanheceu todo água:
quer dançar no serpenteio
das curvas de um riacho,
quer se perder-se entre flores
¬ perfume doce de mato ¬,
quer planície onde possa,
sob o afago de brisa,
por instantes repousar.
Busca o verde-azul de poço
para nele mergulhar
no mais profundo das águas
e cantar nas cachoeiras
sempre a caminho do mar.
Hoje eu preciso amar:
na delicadeza de fontes,
na doce paz de riachos,
nas correntezas de rios,
nas profundezas de mar.
Procura
Meu coração, maior que tudo,
retrata todo universo
e seu possível vazio.
Nele minha alma vaga
como um pássaro em cio
à busca de um ninho.
Se a essência doce do mel
faz o beija-flor voar ligeiro
é no riso de uma mulher
que, também eu,
ávido e preciso procuro
a beleza pura de flor.
Vazio
Óh morno e triste sábado
banho de luz e de brilho!
Nem tu na tua suficiência
consegue preencher o vazio
deste coração doente,
nem silenciar meu mudo grito.
Ando pelas ruas desertas
e sinto que a minha alma
escapa através dos olhos
já não cabendo em mim.
Em desespero imploro
a caridade de alguém...
Nada mais me acalma!
Uma voz me chama:
viro-me distraído
e vejo o feirante Amauri
voltando para sua casa
depois carpir seu dia...
Desvio o olhar ligeiro
e cumprimento o amigo.
Meus olhos ávidos e em cio
buscam um olhar ou o riso
das meninas que na fila
esperam ver “Bebette”
numa sala do Palácio,
mas o deserto do sábado
nem miragem me oferece.
Hoje o meu coração
precisa do riso de alguém
e, teimoso como eu,
aprender urgentemente
amar só quem lhe quer bem!
Desaforado
Porque não bate calado
óh coração desaforado!?
por que insiste em bater
assim tão descompassado?
Não sabes mais respeitar
o velho amor que te dei?
insiste em bater de novo
por outro amor do passado?
E que sanha é essa agora?
que vontade que te dá
de arranjar novo amor
e por ele festejar!
Esquecestes que estou velho
e já ando bem cansado,
sem forças pro recomeço,
sem atalho pro passado?
Óh coração desaforado!
vê se sossegas!
dê-me um tempo, por favor:
não invente outra paixão
nem me faça mal assim:
por acaso não percebes
que vives dentro de mim?
Sonho perdido
No meu sono sonso sonhei
que fora tua metade,
mas quando me despertei
descobri: era seu nada!
Hoje sei fui tão somente
grão de areia pequenino
que na sua pele quente
numa dobrinha fez ninho.
Mas enquanto ainda tentava
dela nunca desgarrar
descobri que mergulhava
nas profundezas do mar.
Estudo
O velho espelho
refletia, luzidio,
o rosto dela.
Mesmo que ainda revérbero
nele vejo,
baça e pálida,
sua face refletida:
espécie de oximel,
profusão entre o doce e o fel,
o insípido e o ácido,
o princípio e o fim.
Soneto ao impossível
Tentei num verso colher
o canto de um passarinho
para amaciar as pedras,
tapetes de meu caminho.
Já amei muitas mulheres
desde os tempos de menino
mas nenhum amor maior
que este que estou sentindo.
Tentei fingir que era apenas
um jeito de fazer poesia,
amores que o poeta inventa.
Mas o pranto e pesadelos
destas noites de insônia
se não for amor, tão pouco é zelo!
Sono bom
Com o assobio do vento
bordei um canto de pássaro
e dele fiz cobertor.
Dormi mais do que devia,
ainda que me faltasse
o aconchego de um colo.
Briga de casal
Saí cedo,
antes do café...
Demorei voltar!
Minha companheira
de mais de trinta
perguntou, desconfiada:
¬ Onde foi assim,
tão cedo?
Olhei-a, nos olhos:
fui sincero!
¬ Estou amando uma trilha.
Ela demorou pensativa
e quase sorrindo
dessa maneira falou:
¬- Não vamos brigar por isso
pois se amas uma trilha
eu também amo um caminho.
Como é bom envelhecer juntos!
Quando a noite cair
Amei tanto;
tanto fui amado,
que às vezes me preocupa
o cair da tarde.
Quando vier a noite
e o meu amor for embora
na solidão de meu quarto,
sei que não vou dormir sozinho.
Despedida
Por favor entenda:
precisamos dividir
as nossas coisas comuns
antes de ir.
Não posso levar a casa
nossa horta e o quintal,
não posso levar a dor
e todo ódio que sentes,
tão pouco os móveis da sala,
sequer levo um cobertor.
Minha bagagem é pequena
quase nada vou levar
a não ser todo o amor
que ainda tenho pra dar:
antes de fechar a porta
e jogar-lhe sobre o muro
as chaves de tua casa,
precisamos conversar
sobre aquilo que me cabe.
Levarei toda saudade
que um dia vou sentir
de teu gozo em explosões
¬ a minha deixo contigo! ¬
levarei minha tesão
para outro colo improvável
outra improvável paixão;
levarei meu corpo nu
que tanto te deu prazer
e que já te causa nojo;
creia, também levarei
pelos cantos e sarjetas
tua nudez em miragem.
E assim, também é certo,
na minha triste viagem
levarei teu despudor
que nas loucuras das noites
dispensava o cobertor;
levo mais nitidamente
gravadas em pensamento
lembranças de nossos filhos
quando ainda pequeninos
enchiam de alegria
a imensidão dessa casa;
casa que hoje, escassa e mínima,
encolheu para nós dois.
Levo bem clara as lembranças
¬ é só um capricho meu! ¬,
das vezes que, enciumada,
sentávamos na mesma cadeira
frente ao computador
e me provocavas querendo
saber para quem escrevia
apaixonados poemas.
Como pôde ignorar
que enquanto eu escrevia
aqueles versos mirrados
nosso fogo se acendia
e, entre ciúmes e beijos,
entre colo e aconchego,
os meus versos nos levavam
para o sofá ou pra cama?
Se quiser, deixo contigo
o pranto que derramei
nos momentos mais difíceis!...
pode ser que também queira
dividir minha carteira
e nossa conta conjunta
e, se acaso precisar,
se achar conveniente,
deixo os lenços de papel...
por favor feche a janela
antes que a tempestade caia.
Levo de nossas manhãs
o som do despertador
as caminhadas gostosas
sem pressa e sem dissabor
as conversas, nossos sonhos,
os meninos, os detalhes,
o trabalho, os projetos,
as festas de aniversário,
os amigos meus e teus
e outras coisas tantas...
E se amanhã eu acordar
¬ pois nem sei se vou dormir! ¬
das coisas que vou levar
tirarei, pode estar certa,
um cheirinho do café
¬ o gosto sei, não vou sentir! ¬
e, então, sobre uma mesa
numa sala imaginária
vou verter todo meu pranto
vou mergulhar no abismo
desse oceano de nada.
Feche a porta, apague a luz
se guarde na geladeira...
o lixo pode deixar
levarei quando sair.
Que faço?
Diz que nosso amor
foi um fracasso
mesmo assim, embora triste,
ainda acho,
que o meu coração
feito em pedaços
merece o teu carinho
e teu abraço.
Escrevi-lhe versos
que, aos milhões,
falavam de nós dois,
desta paixão,
do fogo que me queima
qual vulcão
e que em ti é frio,
vazio e vão.
Aqui dentro do peito
um coração
triste, em descompasso,
em solidão
quer encontrar um verso
ou um refrão
capaz de chamar
tua atenção.
Mas se você não quer
o que que eu faço?
a vida sem teu amor
é um fiasco:
só um sorriso teu
me põe no espaço
e ao desprezo teu
de dor me calo.
Sintomas
Faz alguns dias
uma canária linda
pousou em minha gaiola:
cantou um belo canto,
encheu-me de encantos
depois voou
zombando de minha pouca liberdade.
Preso como estou,
toda manhã e toda tarde
reparo as árvores
até onde o olhar alcança
alimentando a esperança
de vê-la por mais um feliz instante.
Minha estrela
Sobre um muro um gato anda
lento, lento, lento...
A chuva, em cortina, acaricia a cidade
leve, leve, leve...
Nuvens de algodão encobrem o céu
longe, longe, longe...
Saudades de minha estrela!
Acordo aos acordes de um canto,
que na palavra vibra
silêncio de estrelas de neon.
Eu temia que meu coração
sem rimas se partisse
em desatino, fora do tom.
Por isso só pedi à madrugada
um colo doce pra deitar
e nele adormecer meus sonhos bons...
Nada mais!
Segredos
Quando quiser conversar, venha!
agrada-me muito te ouvir
e poder falar-lhe
sobre coisas simples de nós dois...
rir aquele riso gratuito de antes.
Quando chegar perto,
por favor, pise com cuidado:
transito, neste momento,
por caminhos extremos, bem sabes!
Ao curar nossas feridas
¬ e a saudade tamanha! ¬
não quero sair ferido
nem ferir quem tanto amo...
E você sabe do que estou falando!
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