A velha e o mundo
Adjutório é uma palavra antiga, dessas que a gente esquece no embaralho das páginas de dicionários. É tão antiga quanto a mais antiga das manias: essas que têm os ricos de nunca ajudarem ninguém sem ter por certo que já foram ou serão bem recompensados. Acho que é por isso que essa palavra coça nas minhas ideias. Até mais que meu corpo, depois de buscar os cavalos na manga de capim vermelho nas tardes mornas de verão: capim vistoso, folhas compridas e urticantes a roçar braços e pernas desnudos.
Mas não queria falar sobre o estranhamento da palavra ou dos costumes. Queria falar de outra idade, bem mais afeta que as palavras. Queria falar dela, daquela outra, alheia, longamente esquecida: ela mesma, velhos descuidos...
Vivia ali. Não tinha outro lugar de morada. A gente ia e vinha, levando defuntos, rezando missas, falando sobre a vida dos outros. Os meninos passavam a caminho da escola, brincavam... Eu reparava: tinha o olhar miúdo como quem já cansara de ver, o rosto enrugado feito chão de açude seco, a mesma roupa que nunca tirava para lavar, o mesmo gesto de mão estendida, pedindo esmola, que quase nunca se tinha para dar...
Chovia e ela estava ali; fazia sol ou frio e ela não redava pé daquele lugar. Parecia o único pedacinho de mundo que lhe sobrara: justamente aquele, na praça do cemitério, à porta de entrada da pequena capela. Naquela praça a meninada brincava nos fins de tardes: polícia e ladrão, cantigas de roda, bola de gude, amarelinha... Gamão. E ela sempre a pedir: “uma esmola, pelo amor de Deus”.
Muitos davam a volta na praça para evita-la. Eu, tão menino, ficava com pena dos sonhos miúdos daquela pobre mulher. Todas as vezes que conseguia vender algumas verduras das hortas das primas ricas, depois de comprar alguma utilidade para casa ou para os estudos, guardava algum trocado para a esmola. Transbordava de paz quando ela dizia: Deus te ajude e guarde meu filho!
Passavam-se os anos, vinham férias, vinham aulas e ela ali, firme no seu pequeno mundo, sempre a rogar uma esmola ou, quem sabe, a caridade do olhar de alguém...
Era já final de outubro quando notei que ela estava triste como a paisagem sem chuva: parda de torrão, longo alheamento de estrada de areia. Reparei que os olhos dela, já sumidos, fugiam longe, na cavidade de seu rosto miúdo e rugoso.
Naquele dia, enquanto vendia as verduras das primas, uma senhora bem distinta, após comprar cebolas e pimentões, perguntou se seria possível arranjar-lhe alguma lenha. Acostumado a essa lida nas chapadas respondi: “É fácil dona... Quer dizer, não é tão fácil assim!... A gente tem que andar muito e corre o risco de ser perseguido pelos vaqueiros e pelos donos das fazendas. Tem muita gente ruim. Gente que não tem dó de criança pobre, sabe!”
Acho que os argumentos foram úteis, bem conformes com a intenção. A senhora distinta, em seus caprichos de zelo fingido, foi logo falando: “Não quero que se arrisque não menino, mas pago bem se a lenha for de boa qualidade”. Falei pra ela que tinha escola à tarde e que só de manhã poderia conseguir alguma. Ficamos combinados dessa mesma forma e maneira dita.
No fim da tarde daquele dia, depois da aula, com a desculpa de ir brincar na praça, fui até a velha, sentei-me num degrau da escada e disse, com orgulho: “Arranjei um serviço! Vou ganhar muito dinheiro, eu acho. Começo amanhã cedo. Vou juntar algum pra senhora”.
Mesmo desconfiado de que ela não tinha com quem nem para quem contar, surti a importância daquela conversa, recomendando: “não conte pra ninguém! O dinheiro é pra comprar um vestido novo, tá!”
No dia seguinte levantei-me cedo. Saí sozinho pra a chapada. Tive sorte: fazia um sol morno e nenhum vaqueiro ou dono de terra me incomodou. Apanhei um grande feixe de boa lenha e levei para a dona distinta. Depois de examinar e guardar a mercadoria, ela me deu dez cruzeiros e falou: “é adiantamento para você trazer outro amanhã cedo”. Dobrei cuidadosamente a nota e guardei no bolso do calção. Fui correndo para casa com medo de perder a hora da escola. Almocei com o apetite de rei, embora sentindo que a fava com arroz não tinham um sabor tão bom assim. Acho que é a fome que tempera os de-comer da gente.
Naquela semana e na seguinte tive que fazer os deveres de casa e estudar à noite para, a cada manhã, cumprir o prometido àquela senhora distinta. Até as primas ricas ficaram sem vendedor para seus doces e verduras. Foram oito coletas, oito bons feixes de lenha apanhados nas distâncias da chapada. Minha irmã mais velha, já de autoridades, especulava aquelas ausências, os almoços avexados e os serões noturnos no calado da sala, entre deveres, cadernos e livros.
Terminado o trabalho e com a economia de quarenta cruzeiros, cuidadosamente guardados no buraco da parede do quarto, fui pra escola pensando naquela promessa feita e nas necessidades da casa, que já reclamavam algum recurso. Subia lentamente a rua, rumo à escola, quando achei, no chão vermelho da calçada, frente à loja de Juca Seleiro, três tampinhas de Jurubeba Leão do Norte que, para os meninos, era uma preciosidade. Na hora do recreio daquela mesma tarde, quando jogávamos bola de gude no pátio, meu colega Edmundo exibiu, todo prosa, uma goma-elástico que havia encontrado perto da entrada da secretaria. Ao ver aquele elástico pensei que ele combinaria com o dinheiro: já vira, espantado, maços de notas amarrados com aquele tipo borracha. Chamei-o de lado e ofereci as três tapinhas de Jurubeba por seu achado. Foi negócio fácil. Guardei o elástico no bolso e, finda a aula, voltei pra casa já firme na justeza da divisão de minha preciosa economia.
Entrei pro quarto sozinho, fechei a porta e virei a taramela para que ninguém pudesse interromper aquela importante contabilidade. Peguei os quarenta cruzeiros no buraco da parede, contei e recontei, nota a nota, separando duas de dez e quatro de cinco cruzeiros. Enrolei aquelas primeiras, embrulhei-as com uma folha de caderno e prendi com o elástico. Guardei o precioso embrulho no fundo do bornal da escola. Com as outras notas na mão, fui até a cozinha e entreguei à minha irmã para as compras. Disse a ela sobre a lenha e justifiquei minhas ausências constantes. Só não falei daquela outra promessa. Considerei desnecessário. Minha irmã era de poucas humanidades. Tive medo que ela raiasse comigo e me tomasse aqueles vinte cruzeiros.
Aquela tarde era mesmo de muito calor. Tempo abafado. Um ar de torrão e de braseiros. Quando a barra da noite veio, junto com ela explodiu uma trovoada de dar medo na gente. O temporal foi de nunca visto antes. Choveu a noite toda! Na manhã seguinte não foi possível brincar na rua, tamanha a enxurrada e tão forte a chuva que caía sem parar. Fiquei preocupado com a velhinha do cemitério e tive pressa de cumprir aquela promessa feita, mas a chuva não dava mesmo trégua. Ia e voltava da escola dividindo, com meu irmão mais novo, o mesmo plástico que nos protegia da chuva. Este fato comprometia o segredo daquela promessa. No desassossego do segundo dia de chuva, pensei numa desculpa qualquer para ir até a praça cumprir o prometido.
Porém, só no terceiro dia de chuva, sobre a desculpa de oferecer os meus serviços às primas ricas, consegui sair de casa sozinho. Era ainda cedo. A chuva jazia fina. Quase neblina. Desci a Rua do Olho d´Água, onde a gente morava, cruzei a Padre Vieira e adentrei a Padre Calado, já chegando ao largo da praça do cemitério. Quase não me aguentava de sufocos e ansiedades. Vontade de ver nos olhos da velha uma alegria que fosse maior que os sonhos dela. Uma alegria capaz de arrancar algum sorriso, mesmo que murcho e pardo, da face enrugada daquela pobre senhora.
De longe, embora e apesar do ar embaçado e da neblina, estranhei não avistar o vulto escurecido a se destacar na porta da capela. Sem acreditar, atravessei a praça e fui até o lugar vazio, onde apenas um círculo, uma espécie de lua, marcava no mármore polido os limites territoriais daquele pequeno mundo. Sobre o abrigo do portal da capela, fiquei alguns instantes parado, pensando que ela poderia voltar, mas ela não voltou.
Enfiei a mão no bolso. Apalpei o dinheiro já umedecido. Depois de um longo tempo, ainda sem compreender direito, voltei para casa contando os passos, sem me importar com a chuva.
Nesse percurso resolvi andar à beira da cerca de arame que separava a Rua do Olho D´Água da fazenda dos Totôs. Foi aí que percebi: o grande açude que havia ali era já cheio, transbordante da enxurrada que corria pela rua de terra. Água parda, lisa, opaca. Embora água, corrente, fugidia...
Apanhei uma pedra, retirei o precioso pacote do bolso e o prendi a ela, esticando bem o elástico. Mirei o centro do açude e, com a leveza de menino em pés de goiaba, atirei-a bem no meio do lago.
Fina e gélida, a chuva ainda caia sobre meu corpo, mas eu não tinha pressa. Fiquei parado, olhando longamente as ondas que enrugavam a superfície do açude num sorriso pardo.
Cobardia!
Quem primeiro deu a notícia foi Cesário, o pai. O grande herói José, o filho. Voltava em seu cavalo da venda dos Rosenos. A fera atravessara o caminho. Longo! Num salto só. Alto da chapada, lá pras bandas dos ribeirinhos...
Contava e tamborilava com os dedos da mão direita, sobre o tampo seco da mesa. Falava com mais propriedade que quando falara do avistamento do disco-voador. Afinal, quem vira a onça fora o filho, José da Silva Ribeiro. O mais velho. Carreiro de mão cheia. Aquele mesmo moleque que aprendera a arte de carrear sendo candeeiro do pai. Com muito orgulho.
Aquela conversa se arrastava noite adentro. Os meninos, ouvidos atentos, imaginavam: a onça, enorme, pintada. O Zé esporando seu cavalo, correndo como raio. A onça atrás, cortando atalhos. Conhecendo as trilhas, as curvas da estrada. Chegando atrasada, até cansar. O cavalo banhado de suor e o Zé ainda com o facão na mão. Desembainhado. Pronto para se defender da onça, caso ela resolvesse saltar-se na garupa do cavalo.
Naquela tarde-noite os meninos não se banharam no poção de areia, como era o costume. A história da onça, imperdível, valia mais que refrescar-se antes de ir para cama. Já tarde, quando o Cesário resolveu ir embora e o sono rondava os olhos curiosos dos moleques, esses recolheram, um a um, com o suor do dia. Sequer lavaram os pés antes de dormir. Sonolentos...
Dia seguinte. Manhã cedo. Hortas pra regar. Catar gabiroba. Não! Foram todos se banhar na Cachoeira dos Caixões. Deviam o banho da noite de antes. A beira da cerca, o brejo, as taboas... O rasto da onça no barro molhado. Enormes! Seguindo na direção do córrego. A cerca rota. O salto...
A gente pequena não tinha medo de onça. Sabia que ela é movida a sentimentos: só ataca quando tem fome ou quando acuada. É diferente dos homens, porque esses atacam exatamente porque não tem sentimento algum. A mãe, índia, sempre falava pros pequenos: não tenham medo dos bichos, mas tome cuidado com os homens!...
Depois daquele dia a notícia se espalhou. Cesário era como a Hora do Brasil: toda tarde, depois da janta, tamborilava na mesa e contava: os bezerros... Bezerros nada! Touros e bois carreiros. A rês sangrada. Comida pela metade, o resto escondido na moita. Outro boi, outra fazenda... Os meninos ouviam curiosos.
O espanto foi maior quando passou pelo curral aquela fila de homens. Desfilando montarias, carregando lustrosas armas de fogo, exibindo força e coragem. Abrão à frente, no seu alazão.
A Winchester. Enorme! Brilhando ao sol da manhã... Maior que a coragem daqueles homens. O índio Joaquim já não trabalhava. Medo de onça, bicho feroz de tocaia na trilha. A lapa escura, na cabeceira do Ribeirão. A onça ali, amoitada. Carcaças de reses por todo lado. Havia quem vira arrastando o boi. Inteiro.
No estreito da bebida do gado, ladeira acima, a grande jaula armada. Um cabrito amarrado nos fundos da armadilha... E nada. A onça, sabida, não entrava. Até que um dia...
Dizem que foi o Abraão e o Joaquim, da família dos Rocha, quem viu primeiro. Foram armados. Os dois. Chegaram cedo. A fera estava lá, fechada dentro da jaula. Feroz. A pick up longe. Medo de aproximar e a onça quebrar as grades de ferro. Atacar. Foram nove tiros, segundo contam por essas bandas de cá e de lá. Um acertou a fera no dorso, dois acertaram o pobre cabrito, a isca. Os outros, ninguém sabe onde foram dar. Mas os cartuchos, asseguram, eram mesmo nove.
Os restos mortais da fera exibidos em praça pública. O Joaquim e o Abraão, com as armas em punho, pisando sobre a fera morta. Fotos. Jornais. A rádio local dando a notícia dos corajosos caçadores. Diziam até que eles deviam ir para os livros de história. Igual certo comandante da Guerra do Paraguai. Igualmente corajosos. Igualmente heróis...
E o menino com vergonha da pouca coragem: de ter medo dos homens, mais do que das onças; de não poder contar vantagem, a não ser da valentia dos outros.
Sentado na vastidão desértica de nossa sala em solidão reparo: a harmonia dos móveis; nossa mesa vasta com suas oito cadeiras, eternamente postas, à espera de visitas que nunca chegam; os sofás bem arranjados no espaço à espera de casais em abandono, entregues ao amor e seus pudores; ao fundo, banhado pela luz colorida de um vitral, meu escritório é quase um grito – pede socorro! -, no seu desprezo de livros e de impressos, onde espera por leitura um Manoel de Barros, coberto de folhas rabiscadas e, ao lado dele, uma gramática sustentando um romance popular e um Hannah em sua condição humana... Todos entregues à incerteza de leituras, à inutilidade de papéis.
É desse ponto, espécie de mirante, que observo as pequenas coisas que deixamos largadas ao longo do caminho por onde, demasiadamente apressados, buscávamos um futuro concreto. Esquecestes, no seu pragmatismo doentio, que sempre fui poeta – me conhecestes assim! – e que em minhas mãos o sólido se fragmenta... Lamento as coisas mínimas que escaparam ao nosso olhar desatento e que, bem sei, eram essenciais à luz de nossa vida de sombras. Mirávamos uma paz que, na sua certeza, encontraríamos no fim do caminho. Mal sabíamos que nem eu, nem você, nem ninguém jamais soube para onde os caminhos conduzem. Sempre preocupados com as grandes coisas: os filhos; os imóveis; as contas bancárias e suas aplicações; o futuro... Futuro há?... Olhamos para frente, sempre! Esquecemos o essencial dos atalhos e, na ânsia de chegar, não tivemos tempo para reparar a vida...
Depois de tantos anos, já cansados, rastejamos por esse deserto de salas, curvados ao peso de inutilidades, não suportando mais a bagagem. Desse peso e dor, o que mais aborrece é perceber, que mesmo as coisas grandes pelas quais nos curvamos, ao peso da carga insuportável, hoje se fragmentam, viram pó. Até minha poesia deixou passar o abandono das palavras.
Choro sozinho ao perceber, na concretude das coisas, que já não sou mais passarinho: perdi minhas asas e meu canto. Enfim, sinto-me uma pedra atirada ao abismo de nós dois. Lamento amor! Na minha dor petrificada perdi a capacidade de voar.
Natal
Quisera ter a melhor palavra para dizer agora, mas fico mudo como um velho dicionário esquecido entre os livros de uma biblioteca qualquer; quisera beijar e abraçar todas as pessoas que amo, mas há distâncias que separam minha pouca luz do brilho de outros salões e das estrelas do céu; quisera ter a paz daquele menino, mas me assombro ante o rugido dos canhões; quisera celebrar alegremente esta noite tão especial, mas ao brindar nossa ceia farta, sinto a falta de algum convidado; quisera desejar ao mundo um Feliz Natal, mas o velho bate à minha porta com a fatura do cartão de crédito e a mudez dos excluídos.
Natal
Quisera ter a melhor palavra para dizer agora, mas fico mudo como um velho dicionário esquecido entre os livros de uma biblioteca qualquer; quisera beijar e abraçar todas as pessoas que amo, mas há distâncias que separam minha pouca luz do brilho de outros salões e das estrelas do céu; quisera ter a paz daquele menino, mas me assombro ante o rugido dos canhões; quisera celebrar alegremente esta noite tão especial, mas ao brindar nossa ceia farta, sinto a falta de algum convidado; quisera desejar ao mundo um Feliz Natal, mas o velho bate à minha porta com a fatura do cartão de crédito e a mudez dos excluídos.
Assim, finjo ser feliz nesta noite para suportar as desventuras de todas as outras.
Bras(ilha)
Há quem chegue de Mercedes, dê uma volta pelo deserto do estacionamento e vá embora sem dizer a que veio.
As vastas extensões das quadras favorecem o aspecto de cemitério abandonado no meio de um deserto, como se já não houvessem mais mortos. Há pouca vida nessa cidade.
Gostando tanto de viver, entendo porque meu coração briga com minhas razões que insistem em encontrar motivos para viver nesse lugar. Enche-me de tristeza ver um metrô vazio cortar a paisagem rumo a lugares inabitados. Aqui não se encontra um café, não existem calçadas onde o olhar possa flagrar outro olhar e colher, furtivo, o riso de uma menina. Não tem esquinas onde, de repente, pode-se esbarrar na surpresa de um encontro com pessoa amiga e, sem jeito de escapar, se entregar aos abraços, beijos e prosas demoradas.
Esta cidade não tem gente. Tem apenas carros e individualismo. Talvez por isso as ruas sejam largas, os lugares distantes, as pessoas também.
Doe-me saber que o País inteiro trabalha para sustentar tanto deserto e seus poderes arrogantes... Mesmo assim aqui estou, por conta de minhas razões, para fazer um concurso, procurar novo trabalho e contrariar meu coração...
Eu e meus pequenos cacos
A sirene da escola soou como a imensa e calosa mão de meu pai desferindo, sem piedade, um bruto tapa em meus ouvidos. Lentamente acabo de escrever na última folha do caderno algumas anotações vagas. Palavras calmas sobre uma menina linda: único afeto de minha pobre vida. Olho sonso os colegas da classe que juntam seus cadernos e saem apressados, à frente da professora. Fico quieto na carteira até a sala ficar totalmente vazia. Tenho especial apego à solidão.
Levanto-me sem pressa. Sei que ninguém me espera do lado de fora, nem naquele imundo galpão onde a caridade de uma tia avarenta me jogou há mais de três anos. Lentamente me levanto pensando no que tenho para o almoço. Saio contando os passos na certeza de que aquela sexta-feira será longa como as trilhas das chapadas. Preguiçosamente subo as ruas de pedras rumo ao meu pobre abrigo. O sol queima minha face magra e miúda. Passo pela biblioteca pública para devolver um velho romance que acabara de ler. A bibliotecária interroga sobre meu alheamento. Desconhece as razões de minhas dores e minha fome de alimento, abraços e afetos... Fome de gente. Hoje não estou nem para mim, nem para ninguém. Rumino a eternidade que separa a curta distância entre a biblioteca e a Rua do Olho D´Água.
Chego em casa e vou direto ao galpão onde só tenho um pedaço de beiju e um pouco de banha embrulhada num papel, já todo impregnado pela gordura. Ajeito as trempes, tiro um pouco das cinzas acumuladas no entorno das pedras, pego alguns gravetos colhidos na chapada na tarde da quinta e, cuidadosamente, os arranjo em formato de cruz entre as pedras-de-fogo. Com o último palito de fósforo ascendo o candeeiro, depois pego duas palhas de milho e as levo à chama da lamparina até que o fogo assanhe na palha. Introduzo-as entre os gravetos e espero até a fumaça dissipar e ouvir o crepitar da lenha, retorcendo em chamas. Coloco a frigideira sobre as pedras, unto o pedaço de beiju com aquele resto de banha e ponho a assar sobre a quentura do ferro fundido daquele grotesco utensílio.
Deixo o fogo consumindo o resto dos gravetos e aquecendo inutilmente a frigideira e sento-me no batente da porta do galpão, olhando o movimento lento das folhas das bananeiras. Mastigo, como um mendigo, cada pedacinho daquela pobre refeição, remoendo meu destino de tão estreitos caminhos.
Termino o almoço. Saio ao terreiro e, olhando as sombras, calculo ser uma hora da tarde. Levanto decidido, jogo uma caneca de água no fogo e o ferro chia soltando uma nuvem de fumaça. Arrumo meus cadernos sobre o catre, protegendo-os com o fino colchão de palha. Enrolo o papel ainda untado de banha e, sem pensar em nada, atiro-o lá fora. Bebo uma caneca de água, fecho a porta e saio decido a buscar algum recurso na fazenda. Os trinta e seis quilômetros que nos separam não haveria de ser maior obstáculo do que a certeza de não ter o que comer nos dias seguintes. O sol implacável daquela tarde não queima mais do que as ideias já haviam me queimado em angústias e tristezas. Subo o areão da rua até deixar a cidade atrás de mim. Pego os rumos da chapada e arrasto-me em pensamentos e desgostos pela sequidão solitária daquele mundo de ninguém.
As horas se arrastaram, palmo a palmo, diante de meus pés. Olho à minha frente e vejo o longo caminho que se estende até onde a vista alcança. Meus pés descalços sentem o chão árido e quente, tal qual respiração quando o ar entra e sai em ritmo ofegante.
Aos poucos vou anestesiando meus sentidos: já não sinto dores. Estou cansado demais e apenas consigo alimentar uma leve e saudosa sensação, que não se parece com dor nem exaustão. Tenho vontade de chegar ligeiro ao ribeirão e me deitar nas pedras, debaixo de alguma cachoeira. O vermelho distante é só uma impressão metafísica. É o que falta para rever minha casa e meus irmãos. Deles e de meus pais tenho saudades, mas me aborrece chegar e ter de lidar com a fome e a sede insaciável dos animais. Buscar água na fonte é um trabalho que me cansa, muito mais que as distâncias, mesmo quando só penso num ou noutro. Prefiro ficar sentado no cocho do curral olhando a sonsa displicência de caburés pousados em galhos de tamburis. Eles não se preocupam comigo nem eu com eles. Também não têm a sede nem a fome dos porcos de engorda. Sentados ali, olham lentos a minha sonsa observação. Acho que por isso gosto dos caburés mais que dos porcos e dos bezerros, quando ficam com suas cabeças baixas num canto do curral.
Tenho sensações que se parecem com pensar, embora seja apenas uma espécie de brisa, nuvens brancas a vaguear no céu das ideias... Um balanço de tecido leve, quando se sonha um sonho bom. Aí me vejo dono de um sítio cheio de tamburis, onde muitos caburés podem pousar. Um curral e um longo chocho de madeira lisa e seca, com restos de sal e baba de bois, onde me sento, olhando aquelas pequenas corujas em sábia mansidão. Sonho com um sítio sem fontes nem ladeiras. Sem chiqueiros para a sede dos porcos. Sem bezerros tontos, com suas cabeças baixas e sua fome de berros e reclames de mães. Um sítio com uma escola perto, sem chão de areia nem ladeiras de ribeirões, onde as distâncias estão sempre ao alcance dos olhos e também de minhas pernas fracas e anêmicas.
Já deixara para trás a fazenda dos Felícios. O desalento é tamanho que já nem sonho mais com sítios. Sinto apenas uma vertigem, um espasmo de cansaço e ausência de mim. Parece que um último sopro foge de meu corpo e, aos poucos, como um tecido frágil, vou desfiando o chão de areia. Busco uma sombra de juazeiro onde possa jogar o que sobrara de mim e, quem sabe, nela dormir para sempre. Tenho muita sede, mais que os porcos, quando o sol quente frita suas obesidades sobre as pedras dos chiqueiros. Olho à frente e só vejo areias, macambiras e tinguis. Nenhuma sombra providencial. No céu azul e transparente, busco uma nuvenzinha à toa que possa cobrir o sol por um instante. Penso no frescor das cachoeiras e tento dar mais um passo...
Sem sentir nem pensar, me deixo jogar sobre o capim barba-de-bode, quase todo coberto pela areia do caminho. Estendo meu corpo pequeno sobre a magreza de pasto e folhas secas. Ali, abandonado à solidão daquele deserto de chapadas e de caminhos, permaneço até o sol avermelhar o pardo horizonte. Só então me levanto devagar.
Quase sem vontade de caminhar, vou contando os passos para enganar os meus sentidos. Já não penso em nada nem sonho com sítios. Apenas espero o frescor da noite, que vem chegando de mansinho como os caburés: sem pressas e sem ruídos. Nela eu me embrenho e vou tateando a escuridão do caminho sem o vermelho de areias e sem as distâncias: só eu e a noite, além dos latidos de um cachorro numa casa de fazenda ou de agregado. Longe, muito longe, ouço vez em quando o canto triste da mãe-da-lua que se confunde com os gritos de Martinha doida. Sei onde estou, mas não penso em nada, porque pensar pode causar medo quando é noite e os curiangos se deitam nas areias dos caminhos.
Finjo não estar cansado para não ter vontade de cachoeiras. Tudo que quero é um catre e um teto, mesmo que na manhã seguinte tenha que me levantar cedo para debulhar milho, sentado na palha urticante do paiol; mesmo sabendo das ladeiras, das fontes e da física das latas d´água equilibradas na cabeça. Tudo que quero é estender-me num catre e adormecer ouvindo a respiração tranquila de meus irmãos.
A noite é muito escura. Chego tateando as pedras do curral e tangendo o gado que, escornados pelo chão, obstruem meu caminho. Abro a porteira e os cachorros chegam fazendo festas. Mal sabem da minha pouca disposição para brincadeiras caninas. Entro devagar para não acordar a casa. Chamo na janela do quarto e meus irmãos não me atendem. Com medo de acordar meus pais e receber uma bronca, caminho para o paiol, na firme intenção de dormir por lá. É quando escuto o pigarrear de meu pai que vem abrir a porta. Volto apressado antes que ele pense ser apenas uma coruja ou a brincadeira dos cachorros, em correria pelos terreiros.
Peço a bênção e não reclamo. Reclamar é não respeitar os mais velhos. É ser fraco. E um menino-homem nunca deve fraquejar, pois só as penas são provas de força, mesmo quando elas caem sobre um corpo pequeno, frágil e doente como o meu. Vou até a cozinha onde, cuidadosamente, retiro o prato esmaltado da boca do pote e pego duas canecas d´água, que coloco numa pequena bacia e nela mergulho meus pés doloridos antes de ir dormir. Meu pai não pergunta nada: nem das horas altas, nem dos estudos, nem sobre meus pés cansados que, sozinho, faço refrescar dentro da bacia, iluminado pela luz pálida de um candeeiro.
Em silêncio meu pai volta para o quarto e novamente me vejo só, qual um habitante de certa ilha deserta ou um revolucionário em suas andanças andinas. Penso nos livros e seus personagens esquecidos no lusco-fusco das bibliotecas: solitários como eu. Com as pontas dos pés piso o chão batido da casa até o quarto de dormir. Entro devagar e, à meia luz, tateio uma cama vazia para me deitar.
Não consigo dormir direito: o corpo dói e um sentimento de abandono me desassossega. Conjecturo se não seria melhor sair pelo mundo e dormir em qualquer canto. De lugares e abandonos o mundo deve estar cheio. Nesse devaneio noturno, penso em meus irmãos e minha mãe. Uma angústia, maior que a própria dor de morrer, me aperta o peito magro e espreme meus olhos. Aos poucos, gotas vão embaçando a vista e escorrendo pela face cansada. Sinto o gosto salgado do que antes era eu e agora não passa de algo fora de mim, como uma unha que se perde ao tropeçar ou esse aperto líquido que desaparece no tecido da fronha. Tristemente afago o travesseiro e silencio os soluços.
Não sei por que lembrei-me do Euzébio, o ceguinho da Rua do Olho d´Água. Por um momento quis ser igual a ele: não ver as coisas ao meu redor, não perceber os vermelhos das distâncias e não ter olhos para chorar. Naquela solidão de cego, talvez fosse mais fácil suportar a cegueira dos outros, sentir as coisas só pelo tato e bendizer a esmola sem ver a cuia.
Lembrei-me das aventuras de um marinheiro que navegava pelos sete mares do mundo e que tivera um amor em cada porto. Tive medo de minhas tempestades metafísicas, porque elas pareciam menores e menos reais que aqueles mares bravios. Eu, que não conhecia o mar, pensei nas cheias dos ribeirões multiplicadas ao infinito. Desisti de ser igual ao marinheiro daquele livro antigo. Resolvi naquele instante que seria melhor contentar-me com as poucas águas dos ribeirões e meu único amor de olhar profundo, onde tantas vezes mergulhei mais fundo que qualquer mar imaginado.
Espero o cantar dos galos e o reboliço de pássaros anunciando o amanhecer. Em meio à inquietação escuto o chiado do rádio de pilhas em fraca sintonia, até ouvir a macia sonoridade de uma viola caipira, intercalada pelos gritos estridentes do locutor. Só então percebo que o dia já amanhecera e que os bichos me aguardavam com suas fomes e sedes.
Levanto-me devagar e vou até o alpendre onde, sentado num banco, espero as providências para o labor de novo dia. No curral os bezerros esfomeados já anunciam as primeiras lidas. Ouço alguém chamar o nome de uma vaca e a sombra, na porteira da casa de curral, lembra alguém. Caminho até a cerca. Os cachorros, com toda disponibilidade e ócio dos cães, vêm correndo em brincadeiras. Ao chegar vejo que aquela sombra era o vaqueiro Matias. Dou um bom dia cansado e aceito uma caneca de leite, ainda morno, que bebo como um bezerro enjeitado. Depois lambo a espuma dos lábios sentindo uma leve sensação, um instante de abandono e dúvida sentida e não pensada.
No instante seguinte penso com medo de meus sentidos e lembro que a minha mãe deve estar preparando o café no deserto amanhecido da cozinha. Dou a volta pelos fundos da casa e vou até lá. Peço a bênção e minha mãe responde com aquele ar triste de quem já sofreu muito e já perdera a capacidade de se afetar. A fumaça do fogo recém-acendido embaça a vista e deixa mais escuro o espaço da cozinha, com suas telhas enegrecidas pelo pacumã. Tenho saudades de um abraço, de um beijo carinhoso que nunca tive. Penso que minha mãe podia ser igual àquelas mães dos livros: de tantas salas de jantar, de muitos filhos reunidos, das conversas sobre coisas banais e relógios nas paredes. Queria uma mãe assim, banal como as mães dos livros. Penso na felicidade de alguns amigos de escola e suas mães tão presentes e carinhosas. Tenho vontade de ser como eles, da mesma maneira que um bezerro enjeitado deve querer ser igual aos outros: ter para quem berrar.
Ando devagar até o paiol e, sem pressa, apanho uma bacia e escolho espigas de milho para debulhar. As pernas ainda cansadas, os olhos pesados pela noite insone e um ar de triste destino. Rumino paióis, chiqueiros e caminhos de fontes, enquanto descasco espiga por espiga, cuidadosamente amontadas ao lado da bacia. Reparo um cachorro sonso, deitado no terreiro, se aquecendo ao sol da manhã. Galinhas espiam algum descuido de grãos ou a caridade de um menino triste. Vivo minhas manhãs como se fossem eternas e igualmente sem cor. Atenho-me à rotina para esquecer as dores de não pertencer, de não ser, sequer, nas anotações dos cadernos de meu pai, um simples número de cria...
Transito
Vago, o pensamento corrói as noites e a insônia martela, qual relógio a delatar o tempo que passa, devorando sonhos e flores. Os dias são frios como pedras de cachoeira quando o dia já é quase amanhecido e o sereno finge chuva nas folhas das árvores. Tento sustentar o meu olhar frente ao espelho, mas falta coragem para aceitar, nas marcas de minha face côncava: claros sinais de beleza ou a luz de providencial farol, indicativo de porto onde possa encerrar minhas novas tempestades, bêbadas utopias e antigas revoluções.
Devo conformar com o sol que já brilha lá fora, embora o vento frio, somado às batidas do relógio e a esse fogo que me queima por dentro invoquem, neste final de inverno, insetos, cores e perfumes de flores enfeitando a primavera, marcando a roda do tempo numa longa contagem regressiva. São apenas estações que, se por um lado me propiciam tão fingida alegria, por outro me provoca oculta tristeza de expressão tão difícil que, mesmo faltando palavras, só o meu olhar inquieto e minha insônia conseguem anunciar.
Velejo minha baça tristeza, qual frágil barco de papel na superfície líquida que, em meus olhos se transmutam em promessas de açudes. Pertencer já não me importa! Sei que não faço diferença no encoberto das coisas, mas quando me vejo no espelho tenho vontade de não pertencer a meus próprios reflexos, de não ser mais que só imagem, além dessa completa falta de essência.
Sinto-me abatido no largo campo de batalha onde joguei meu jogo e fiz valer minhas armas. Fugir a mim mesmo é um modo de negar as muitas cicatrizes acumuladas nesse longo tempo. Cansado, deito-me no berço de minhas eternas insônias e tento aplacar meus pesadelos, enquanto nuvens cobrem minhas ideias e transmutam sonhos em terríveis tempestades.
Detalhes
Detalhes
Tinha seus vinte e cinco anos e usava um vestido curto de tecido preto e leve. Saiu do toalete e passeou pelo bar; foi até uma mesa e deixou alguma coisa sobre ela reservando um lugar; trocou duas palavras com o garçom e depois foi servir-se nas gôndolas.
Quando escolhia lentamente suas preferências percebeu que seu vestido curto e leve havia se prendido na calcinha. Elegantemente o soltou, conferiu se estava no lugar e continuou escolhendo o prato. Escondeu boa parte de sua beleza debaixo daquele vestido.
Não sei se ela não reparou ou fingiu não perceber que todos os homens estavam paralisados, de olhos colados nela, enquanto, na televisão, o time do lugar fazia um gol que ninguém notou.
Terminei o almoço, tomei algumas notas num guardanapo e voltei para o jornal pensando: o mundo seria muito melhor sem futebol! Assim talvez os homens reparassem melhor as coisas belas que a vida oferece aos gozo do olhar.
Faço vistas à paisagem noturna; ouço sons e bebo as horas como um boêmio que vaga pelas sarjetas à busca de sentido, afeto ou abrigo.
O tempo e a memória, qual lençol branco estendido no horizonte longínquo, pode ser, no vão dos sentidos, a completa ausência de história, mas, felizmente, aos menos distraídos, pode compor, em versos ou em prosas, o mais lindo livro da vida de qualquer pessoa.
Marcel Proust é prova disso! Em Busca do Tempo Perdido, a maior obra literária de todos os tempos é puro resgate de suas memórias, desde as mais remotas até aquelas últimas, quando já velho, cansado e doente, aguardava o seu último suspiro.
Essa preciosidade que a memória pode resgatar para o deleite de futuros leitores é a certeza de que a vida pode valer a pena ser vivida e que a morte não apaga os traços de uma boa escrita, seja em prosa, seja em versos ou no traço dos pincéis, numa tela de cinema ou num gesto carregado de humanidade e de afetos.
Espero ser compreendido um dia, mesmo que já não esteja mais aqui para manifestar minhas capengas impressões sobre a vida e seus sentidos.
Às vezes penso que tudo que buscamos, e mesmo nossa crença na eternidade, só faz sentido nos rastos impressos na memória daqueles que ficam ou dos que ainda não chegaram ao mundo.
É reconfortante acreditar que alguém, depois que já não estivermos mais nesse mundo, possa pegar um velho livro numa biblioteca qualquer e reascender nossos sentimentos expressos numa prosa ou num poema.
É nisso que acredito, embora não tenha muita certeza de nada.
Enigma
Pelas ruas do que seria, talvez, uma cidade histórica, um jovem desconhecido me seguia. Notei que procurava o auxílio de meus olhos para melhor explorar as atrações daquele lugar.
Entrei numa imensa catedral com a firme intenção de acessar os adros de seus três pavimentos e deles contemplar melhor aquela misteriosa cidade. Subi longas escadas, adentrei amplas naves, mas não encontrei janela, porta ou qualquer fresta, nas paredes ou nos vitrais, de onde o olhar pudesse desvelar a paisagem.
Já no vão da escada do terceiro andar, enquanto o desconhecido contemplava as cores dos vitrais e, de forma dissimulada, buscava acompanhar meus próximos passos, infiltrei-me num grupo de freiras que ali passava, com seus trajes brancos e esvoaçantes e, sem ser notado, desci por uma escada estreita até uma nave menor, à altura do segundo andar.
Foi então que me deparei com um grupo de seis ou oito mulheres cegas, sentadas em semicírculo. Ao reter o passo já me encontrava além do que seria o centro do círculo. Recuei um pouco e, confuso, balbuciei um boa tarde antes de me corrigir para bom dia, o que seria mais correto, posto que ainda manhã.
As mulheres responderam em uníssono e, estendendo suas mãos, ansiosas, buscaram a minha mão direita. Ofereci-a sem resistência. Delicadamente recolhida entre aquelas mãos ávidas, minha mão foi tateada por cada uma delas que, só depois de satisfeita, dispunham-na à curiosidade da companheira sentada à sua esquerda.
Porém, ao chegar à última ¬ aquela que me pareceu a mais velha entre todas ¬ além do ritual das demais, essa puxou meu braço em sua direção, curvou levemente o corpo para frente e beijou as costas de minha mão. Foi então que, olhando na direção de meu rosto com olhos de um azul vitrificado, exclamou num riso quase jovial: vens lá de cima!
Acordei pensando como ela soubera: da madrugada úmida e do calor sufocante que invadia meu quarto de dormir.
Coisas banais
Naquele tempo, além dos muitos irmãos, quase nada tínhamos: às vezes tínhamos olhos e horizontes; as pernas, os caminhos, as hortas e as fontes; os caburés, as gameleiras e suas sombras; vez por outra ganhávamos as extensões das chapadas e as estradas arenosas que nos levavam à venda dos Ribeiros; tínhamos braços – e quantos braços! – pra regar hortas nas manhãs de inverno; tínhamos paciência para depurar a garapa da cana até o melaço ficar pronto; tínhamos ouvidos pras conversas nas oficinas de farinha, de tantas mulheres espalhadas pelo chão preparando macaxeira desde a chegada, nos carros-de-bois, até a torrefação; tínhamos os silêncios e os muros invisíveis daqueles sertões, erguidos pela nossa condição; tínhamos a liberdade que nos oferecia os ribeirões, suas misteriosas cavernas, suas cachoeiras e as lavadeiras nos seus banhos.
Hoje somos quase todos urbanos, lapidados pela civilização! Mesmo assim às vezes fico pensando nas coisas que perdemos ou ganhamos ao longo desse caminho: recalculo infinitamente as equações e os resultados nunca me convencem.
É por causa das lembranças e de minhas poucas certezas que vivo nesse desassossego.
Escrevo para voltar ao passado e suportar as marcas que ele imprimiu em mim, mas no mesmo instante sinto que elas rabiscam, no lençol de minha memória, milhões de coisas banais.
O filme
Ver um filme é sempre bom: a sala escura, as sombras dos casais à nossa frente, o olho da câmera e os sons projetando signos nos espaços da sala. Depois, o café, a conversa e aquela impressão de que acabamos de chegar de uma viagem de férias. A rotina do dia seguinte apaga aos poucos, como num retorno ao trabalho, as viagens imaginárias do filme.
Porém, em alguns casos o filme consegue imprimir, no mais íntimo da gente, as férias dos tempos de criança: como o primeiro fim de semana na fazenda do vovô ou o espanto dos olhos ao ver, pela primeira vez, a imensidão do mar.
Depois desses filmes não há café que seja suficiente para esgotar as sensações deixadas e, como menino, não há retorno ao trabalho...
Ontem, depois de ver Elena, fiquei com essa sensação de criança que observa a dança de borboletas azuis no abismo das serras e sente vontade de voar.
Escrevo sempre que me convém o instante, qualquer que seja ele, qualquer que seja o sentimento, mesmo que efêmero, mesmo que propriamente vulgar. Basta-me um fugaz momento, um teclado ou uma pena e lá vou eu ensaiar voo de passarinho, como se não bastassem aquelas outras não tão leves e tão pouco plumas, que me desassossegam e que trago lá bem dentro de metafísicos baús: esse recôndito dos medos de todos nós.
Assim, nessa pouca claridade, deixo que o vento desoriente minha leveza de pluma e arraste por todos os cantos ou para algum pântano sem saída, toda complexidade dessa história não escrita e tão mal contada, que faz dos medos um motivo para me encontrar ou me perder de vez no emaranhado de um lugar qualquer ou nos meandros das cidades e dos salões iluminados, esses que refletem em espelhos congruentes, a imagem narcísica de toda essa gente distraída.
Entrego minhas sonsas direções a cada sopro e, não muito raras vezes, vejo-me sentado à beira de uma cerca qualquer, dessas que separam os currais (de el rey e outros mais), de onde observo caburés imaginários pousados em improváveis tamburis. É que, bem dentro de mim, existe um passarinho miúdo que se cala a observar o mundo sem pensar nele, como se alguma coisa houvesse que, de tamanho espanto, deixasse-no (não totalmente depenado, diria), entregue à completa nudez, tão cheio de pavores e interrogações, como quem espia pela fresta de olhos recolhidos dentro de si, paralisado e mudo.
Cato sentidos pequenos nos quais garimpo a esperança de brilho e luz de mínimas pepitas nunca encontradas, mas teimoso como sou, sigo a ruminar. Num movimento massante e rotineiro, embaralho os signos e destilo, das mesmas palavras, minhas ferramentas, minhas bateias a escavar fundo de rio e peneirar areias e pedras que se lavam (e se lavram), em eternas lavras, à busca de incertos prazeres.
É nessa completa falta de rumo que, quase sempre, me vejo relendo coisas antigas, projetos, rascunhos e me emociono pela coragem de revelar indizíveis sentimentos, coisas tão íntimas e tão lá dentro, que mais parecem aquela joia escondida no fundo do rio e que nunca será encontrada porque já pertence à arqueologia de outros territórios, antigos mares, grotões em vazantes e suas desvairadas corredeiras.
Comungo toda existência de livres meninos ao cultivar sonhos impossíveis e amores outros. Sucumbo-me nas memórias de um tempo, onde finco raízes qual gameleira velha sobre as pedreiras, nas quais as raízes se confundem com as rochas e se entranham numa só identidade: igualmente presas entre as pedras, o calcário e as sombras obscuras das profundezas, esconderijo de bichos peçonhentos: lagartos e outros répteis frios, calmos e, também, perspicazes e traiçoeiros.
É assim que bordo ideias frouxas numa manhã chuvosa de novembro, quando a saudade de terra molhada me impõe o asfalto cinza e triste sobre o qual as águas correm apressadas à busca de rio e de mar. Sustento meus dilemas e algumas saudades de menino, crendo que o mundo é isso mesmo: deixa-se para trás as nascentes, as cascatas, belas cachoeiras, serpenteantes rios, mas também lagos, pântanos e mangues pelo simples prazer de sonhar com o mar, seus segredos, seus temporais e derivas. Os caminhos... Quem de nós pode saber onde levam as derivas do mar?
Sustento meu barco na incerteza de rumos, mas a vida me cobra remo e, obediente como sou, vou margeando e não me arrisco em mar profundo ou em corredeiras de rios. Pura covardia, imensurável medo de sucumbir-me numa maré alta ou numa cachoeira qualquer. Um porto, embora seguro, subtrai-nos a possibilidade de navegar. Se, às vezes (ou quase sempre), escorrego nas palavras que escrevo em quase completa falta de sentido. Busco um ponto qualquer no horizonte e para lá tento seguir, mesmo que seja apenas uma miragem de porto. Assim vou sorvendo a calmaria esperando que um temporal se anuncie e traga medo e sentido para outras palavras soprarem rumos diversos, acordando outra prosa (ou poesia), numa direção ainda mais incerta, embora mais rica de promessa e possibilidades.
Assim, qual destino de menino em chapadas e sertões, olho o horizonte e, mesmo com medo do nevoeiro, sigo em frente catando cacos, enfeixando gravetos na esperança de construir uma história, mesmo que mínima, mesmo que vazia de sentido para o ouvinte que nunca se assustou com voo de curiango e jamais imaginou-se sentado à beira de uma velha cerca, sobre cavacos de madeira talhada, reparando uma casa de joão-de-barro, ao lado da qual um caburé pousou manso, absorto, reflexivo, como mansa é a manhã de um dia qualquer de novembro: nublado, úmido, chuvoso… Pura reminiscência!
Politikós
Politikós
Sentido o desconforto de minha vil militância, ao ser citado por uma amiga em sua indignada (e bem justificada) posição política frente à arbitrariedade e truculência da polícia (essa covardia e vergonha instituída pela dinastia de Avis), comentei: uma vez citado nesse post, talvez num tom de cobrança, me vejo no direito de esclarecer alguns pontos. Antes mesmo de fazê-lo, preciso deixar claro que tenho plena consciência de meu distanciamento e ceticismo político nesse campo. Pode parecer – e não vou negar tais evidências – que estou mesmo longe dos movimentos sociais; que sou devedor ao abandonar @s companheir@s nesta empreitada, e, finalmente, que deixo evidenciar certa intenção defensiva, com a qual me visto para fugir às obrigações políticas e engajamento. Vejo possibilidades de alguma ruptura nas revoluções sociais a partir da greve geral, quando ela se articula contra o poder instituído para o qual e a serviço do qual se cria os exércitos e a polícia, necessários à sua manutenção. Não existe justiça sem força! E a polícia, força da justiça e da lei, cria, ela mesma, a sua justiça e lei, já dizia Derrida. O mito ocidental, platônico e aristotélico, ao colocar o estado acima de qualquer interesse particular, convictos de que a justiça pressupõe a força (uma justiça sem força é falha), atribui ao Estado (na pessoa do tiranós ou do dêmos, nos governos totalitários ou democráticos, respectivamente), a responsabilidade de criar as leis e de fazer a justiça. Para tanto, criam-se a polícia que, no primeiro caso é plenamente justificada posto que, ao criar suas próprias leis e sua própria justiça, justifica o estado tirânico no qual está inserida. No caso da democracia, esse sistema é perverso (para não dizer mentiroso, falso e dissimulado), por pressupor, na sua estrutura e nas justificativas das leis que as institui, a defesa do interesse público, quando sabemos que, na totalidade das vezes, ela serve à força e se justifica na força que exerce para criar, ela mesma, o seu estado provisório de leis e seu próprio conceito de justiça, sempre a favor do mais forte, ou seja, a favor da própria força e dos interesses que a instituiu. Montaigne dizia: “as leis se mantém em crédito não porque elas são justas, mas porque são leis. É o fundamento místico de sua autoridade, elas não têm outro [...] Quem a elas obedece porque são justas não lhes obedece justamente pelo que deve”. (MONTAGNE, Os Ensaios III: da experiência. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 1.203). Sei, por convicção e pela longa vivência nesse campo dos embates, que uma revolução bem sucedida (e aqui me apoio em Benjamin), produzirá aquilo que ela estava destinada a produzir: outros modelos interpretativos para serem lidos retroativamente, para dar sentido, necessidade e, sobretudo, legitimidade à violência que produziu, ou seja, um modelo interpretativo de seu discurso auto legitimador. Nesse sentido, meu ceticismo quanto a certos movimentos (e aqui não estou dizendo da política, posto que sempre me posicionei publicamente, não em defesa de partidos, mas de meus próprios ideais, daquilo que considero relativamente universal, já que creio, com Benjamin, Derrida e Montagne, que o justo é o forte e não o melhor), reside naquela declarada indisposição para herói num país que, historicamente, produz apenas mentiras: o descobrimento do que já fora descoberto a milênios, o Fico (bem conveniente), a inconfidência (circo armado para pegar leões e que pegou apenas passarinho), a independência (liberdade conquistada pelo próprio opressor), a abolição dos escravos (que não aconteceu até hoje), a proclamação da república (que nunca passou de uma monarquia disfarçada), os golpes militares transformados em regime (coisa inexistente nos dicionários). Essas são algumas de nossas “revoluções”. Todas as tentativas verdadeiras foram abortadas pelo uso “legítimo” da força. Nossa justiça, como toda justiça, requer a força e, convenhamos, a força não é justa e nem se enquadra adequadamente nas leis que, por justiça, legitimam a justeza da força. Eis, pois, os motivos de minha crença e da minha descrença.
Pensar é sentir?
Pensar é sentir?
Pensar seria o mesmo que sentir? Quando julgo pensar em você sinto-a por perto, sinto-a em mim. Talvez isso seja apenas uma pequena parte, um quase nada invisível de nós dois, que atravessa as energias, os corpos e com eles vibram. Não sei o que é pensar. Ainda sou pequeno demais para distinguir pensar de sentir. Por isso, às vezes penso o que sinto; às vezes sinto o que penso.
Quando não tenho afazeres fico a pensar nas coisas que julgo entender: sobre o mundo, sobre os outros e sobre mim. Assim, pensativo, às vezes conjecturo sobre essa propriedade que só o humano tem - pelo menos no julgamento do humano ¬ e que o diferencia dos outros animais...
Quando não tenho afazeres e não consigo me aquietar, penso que pensar é uma maneira falsa de se projetar, de fingir que o pensamento é algo raro, astuciosamente criado com a desculpa de melhorar o mundo. Com ele, destruímos todas as floretas; poluímos lagos, rios e oceanos; matamos, parcial ou totalmente, todas as espécies animais existentes, inclusive a nós mesmos; extraímos os excessos de gases e carbonos guardados pela natureza e os trouxemos de novo à superfície e ao ar; mineramos os materiais radioativos que, por capricho, foram pulverizados nas rochas sólidas do planeta e os reunimos, purificamos e com eles fabricamos fatais artefatos atômicos...
Quando não tenho afazeres e também não penso em nada, olho as estrelas ou as coisas naturais que ainda restam ao meu redor e, dessa maneira, percebo o quanto desconheço sobre mim mesmo e sobre as coisas.
Uma estrela frágil e delicada que no escuro da noite parece tão perto, ao engano do olhar é na verdade imensa: muito maior que o sol e se encontra tão distante que minha vã inteligência é incapaz de calcular. Seu fogo ¬ Ah! Como queima!... A seu redor quantos planetas giram? Toda minha forma de pensar não sabe responder pois a mesma ilusão que me faz pensa-la pequena, também me convence, pelas combinações matemáticas e complicadas equações, que ela pode ser assim, ou assado; ter um, dois ou muitos planetas ao redor; interagir com outra estrela próxima e com ela trocar energias ou afagos. Como posso eu saber sobre tudo isso se os pensadores criaram tantas e tantas ilusões e as sobrepuseram, a tal ponto, que não se sabe mais até que ponto a lógica é uma coisa natural ou um artifício de vendedor, que mente sobre o produto vendido.
Quando me olho direito ou quando paro a reparar as coisas a meu redor, pergunto: que sei eu sobre mim e sobre elas? Percebo, acaso, uma partícula que brinca de esconde-esconde entre a matéria de meu corpo e a lua? Gostaria de reter por um instante um dos milhões de neutrinos que passam por mim e por todas as rochas do planeta ignorando nossa existência!
Minha tão festejada inteligência será capaz de perceber uma ameba, que na folha de alface luta contra a acidez do vinagre maldosamente espalhado na salada? Coitada da invisível ameba! Nem sabe o quanto é mau esse seu parente distante! Não pensa e, talvez por isso, nem lamente o quanto teve que lutar com outros ácidos; contra vulcões e fermentos oceânicos, para fazer vingar essa coisa que agora se diz pensante e se dá o direito de destruí-la com vinagre só porque, arrogante, nega o contato com as coisas que julga inferiores...
Oh! Pobre do homem que pensa!
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