Dos desassossegos



Inaudível batuque de asas: borboletas azuis, em leve dança, no abismo das serras e uma incontrolável vontade de voar.


Alzheimer


Viu pela fresta
do que antes fora uma janela,
um passarinho em voo
e teve uma breve inveja
de sua incerta liberdade:
de não ter apego algum
ao ninho de onde veio
nem antecipar a dor
de tão breve fim.

Frente à parede irregular
quedara-se interrogativo
ante uma mancha de bolor
e, com certo esforço,
até tentara lembrar
de alguma fotografia
que em recôndito passado
ali fora pendurada.

Ao fundo de sombrio corredor,
sobre baça luz, quis distinguir
algumas roupas que julgara
dependuradas no varal
e teve a quase certeza
de as vê-las, fugazes,
lá no fundo da memória.

Mas ao reparar direito
percebeu que não passavam
de impressões metafísicas:
inextricáveis fragmentos,
descomedido embaraço
que, quase sem querer,
roubara-lhe a fotografia
e recolhera as roupas do varal.

Restou-lhe uma folha em branco,
lá no fundo da paisagem
e na parede da memória
fragmentos de quintal,
o vão de uma janela
e obscuro corredor...

Canto esquecido de sala
onde acreditou que jazia
marcas da fotografia
de alguém que tanto amou.

Recriar-se

 

Não vou te pedir desculpas
pois se não é minha,
nem sequer é tua a culpa:
simplesmente nós nascemos
para um mundo quase feito
com seus vícios e defeitos
os quais, na minha compreensão,
e creio que na tua também,
não há possibilidades nem jeito
de mudar o que está feito.

Mas espero e até creio
que, embora presa num eixo,
a roda de nossa existência,
ao girar sobre si mesma,
possibilite um invento.

Oscile em seu movimento
atalhos, sopros e ventos
capaz de desprender do eixo
partículas que dentro da gente
sejam centelhas de um devir
que, num espaço vazio,
lancem possibilidades
no alvo invisível do tempo.


Segredos


A lua,
amiga e companheira,
ilumina noite inteira
a obscuridade da vida.

Estrelas,
com todo brilho e encantos,
enfeitam o noturno manto
das tantas noites sem lua.

Riachos, em curvas de prata,
serpenteiam entre matas
e me convidam ao mergulho.

Qual crisálida em seu casulo
afogo fundo nas águas
os meus segredos e mágoas.


Subverto, invento!

 

Abro meu diário
em qualquer tempo
releio, faço alguns apontamentos
e depois rasgo a página.

Atiro ao lixo
tudo que me magoa
ou que me deixa triste.

Prefiro guardar somente
as coisas boas
para reler depois
e, mesmo com saudades,
rir ou chorar
quando não tiver motivos
e precisar
buscar alento
numa página qualquer desse diário
que eu mesmo invento.


Destino de poeta

 

Entre sombras desbotadas e indiferentes,
entre o vazio e transparência das janelas,
na penumbra solitária das salas de jantar,
entre a palidez de céu e suas brancas nuvens
que na vastidão do invisível vagam
e, qual sonho depois que se acorda,
no firmamento, refletidas, esvaem
deixando, num vazio primordial,
vagas lembranças.

Estanque,
faço versos,
construo caminhos
e das areias apago
meus efêmeros rastos.


Mais que só

 

Não sou homem de uma só palavra:
palavras exigem contextos.

Não sou andante de um só caminho:
caminhos têm pedras e atalhos.

Não me apego a uma só mulher:
mulheres também amam e sonham.

Não me prendo a um só destino:
as contingências costumam surpreender.

Não prezo um sono tranquilo:
a noite é melhor quando se ama e sonha.

Não sou sujeito de uma só história:
no meu afeto, em tese, o mundo gira.

Sou mortal, não me pretendo eterno:
esfria no vão das horas o fogo que me aquece.


Utopia

 

É triste ser só
diário esquecido
num canto qualquer,
páginas escritas
para ninguém ler.

É triste o poeta
nos seus desamores
fingindo sofrer
só para fazer versos
para ninguém ler.

Difícil entender
grafismos pescados
nas redes, na web
com toscos efeitos
mas que todos veem.

Preciso ser gente
não mercadoria
pois vivo num tempo
não nessa acronia*
e cega atopia**.

(*) acronia, do grego krónos, tempo, daí acronia = ausência de tempo;
(**) atopia, do grego tópos, lugar (perto, distante, alto, baixo, pequeno grande), daí atopia = ausência de espaço.


Temperos

 

Numa mesa de café
nessas manhãs nubladas
destempero o dia:
nostalgias tão antigas
misturadas com saudades,
um pouco de olhar distante,
lembranças do primeiro amor,
dois copos cheios de água
com sal e sabor de mar,
um coração apertado,
dor a desgosto...


In Lógico

 

O que pulsa aqui dentro
é pura vida,
o que pulsa lá fora
sei, também pode ser.

Mas o meu sentimento
num momento é claro
e noutro é confuso:
quando olho nos teus olhos
sei que estão fora de mim
mesmo assim, não sei porque,
meu coração fica aflito
transbordante de teu ser.

Eu, que quase nada sei,
distingo o que é fora
daquilo que pulsa aqui dentro,
mas quando a tenho por perto
me perco inteiro!...

Uma coisa não pode estar
em dois lugares ao mesmo tempo.

Será?


A solidão e eu

 

Tentei fechar a porta
para solidão não entrar,
mas de tanta chuva, tanto sol,
tanto temporal
já torta, escancarada
ela não mais fechava.

Então, por uma fresta
de minha porta aberta,
vi o meu amor se despedir
e sair para dançar.

Não tive escolha:
fiquei com a solidão a conversar
olhando tristemente a avenida
esperando ela voltar.

E só no fim da madrugada
quando vi que ela não voltava
deixei a solidão na sala
e fui dormir...

Sozinho.


Tempestade

 

Invento na distância um tempo:
remendos já puídos
desse tecido que em mim veste
memórias de um passado,
paisagens, retratos, paredes,
desdém de tudo que amei.

Atento a qualquer sorriso
colho apelos, busco alentos
para fingir que o paraíso
é a mesma angústia que aqui dentro
bate em descompasso
lembrando o coração que tenho.

E nos meus olhos rasos
deságuo meu mudo silêncio:
loucos moinhos de vento
e esse mar que aqui tenho,
mais que solidão, é abismo
onde meu coração vaga
à deriva.


Percepções

 

Minha pele reclama afetos:
quando olho da janela
à busca do azul do céu
e só vejo cinzas;
quando minhas atentas narinas
querem cheirar terra molhada
e do ar seco apenas sente
esse cheiro de queimadas;
quando me ponho a escutar
os ruídos da cidade
querendo ouvir sabiás;
quando estendo minhas mãos
sobre uma mesa de bar
à busca de outra mão
onde possa entrelaçar
minha morna solidão;
quando meus olhos de água
buscam, ávidos, outro olhar
como riacho que corre
com muita sede de mar;
quando destilo palavras
sem verbos, sem predicados,
sem sentido ou paladar.


Armistício

 

Arre, socorro!
imploram meus olhos inquietos.

Arre, socorro!
clama meu corpo sedento.

Arre, socorro!
gritam meus ouvidos atentos.

Arre, socorro!
estou que já não me aguento.

Arre, socorro!
pulsa meu coração aqui dentro.

Arre, socorro!
queima minha pele ardente.

Arre, socorro!
socorro...
só corro.


Factual

 

Andava por aí, descalço,
quando um vento, morno e falso,
no encalço de moinhos,
apanhou meus leves passos
e deles fez passarinho.

Andava solto no ar
quando o céu, azul de mar,
fez-se chumbo em meu caminho:
larguei num canto o olhar,
deixei de ser passarinho.


Balanço

 

Nunca busquei entender
porque existo:
jamais pensei que isso
fosse mesmo necessário
uma vez que o que fui,
sou e serei,
não faz a menor diferença
para esse universo imenso
de coisas tão grandes
e, em comparação,
tão pequenas.

Não sei se fui um milagre
ou um terrível acidente:
sei que às vezes me ignoro
e noutras me compreendo,
penso também ser evidente
que, vez em quando, escrevo.


Excomunhão

 

Não vejo mais as cores do sol poente:
tudo é cinza, tudo é frio.

Olho tristemente o céu
nessas tardes de inverno
e me visto inteiro de melancolias.

Numa esquina qualquer dessa cidade
perdi minha alegria:
piso meu alheamento de calçadas,
onde velhos, crianças e meninas
são representações insignificantes de qualquer coisa.

Ergo muros de pedras
para proteger minha abstração obtusa
e neles me escondo do outro:
fortifico minha própria indiferença.

Perdi a fé nos santos e nos deuses,
já não faço mais
aquelas antigas orações dos fins de tardes,
até o velho templo,
onde eu vivia cercado de anjos,
há muito desmoronou,
ficou o ceticismo puro
e uma cortina de cobre sob o céu
empalidecendo o azul de antes.

Não creio em nada!
e quem não crê não espera.
Por isso não peço piedade
nem me dobro à minha deusa
a implorar perdão!
descobri, tardiamente,
que ela era de cristal e se quebrou:
naquela noite catei seus divinos cacos
para erguer um templo,
mas um temporal os carregou
para as profundezas de meu próprio abismo,
fui atirado num deserto sem deuses,
sem templos, sem anjos e sem manjares.

Por tudo isso,
da minha boca maldita,
não espere uma palavra de consolo!
dela só se pode ouvir impropriedades.

Numa miragem de oásis,
cavo poços na areia
à minha insaciável sede,
bebo gotas de palavras e escrevo
para não matar e não morrer.


Divã

 

Todas as vezes que sonho
quebro-me todo em pedaços,
ultrapasso meus limites,
busco um asilo na noite
ou fico deveras triste.

Mas quando estou acordado
saio a catar meus pedaços
debaixo de algumas pedras,
nas cascas secas das árvores
ou nas sombras das cavernas.

Só de vez em quando,
sem tristeza e sem sonho,
escondo minhas metades
num divã ou num porão
e volto pra minha análise.


Mais, que nada!

 

Desculpem minha falta de estilo
e essa completa descrença,
desculpem a pouca vergonha
de escrever sem ser capaz,
desculpem a louca coragem
de não me desculpar de nada!

É que às vezes me excedo
sabendo que os excessos
não podem ser racionais:
o racional nunca excede
e quem nunca excede nunca faz
nada que se desculpar!

Muito mais que meus excessos
desculpem a pouca razão,
pois quem nunca se aventou
numa cética empreitada
seria muito mais que sou
seria, provavelmente, nada!


De heresibus!

 

Aleluia, senhor!
aleluia!

Ressuscitas os mortos
porque os fizestes mortais!
se os fizestes mortais
é porque,
como tudo que criastes,
os criou, cada um,
perecível num tempo.

Obrigado senhor!
obrigado!

Se me perdoas os pecados
é porque me fizestes pecador!
e se me faço pecador
é porque a carne é fraca:
afinal, não foi assim que me criastes,
nessa total fragilidade?

Irmão, irmão!
óh bendito irmão!

Pobre de ti e de mim,
pobre de nossas dores e penas:
morrem os rios e os mares,
as montanhas e os animais
somente tu e eu
penamos a morte e sua dor!

Salve a filosofia
que me faz pensar assim!

Qual foi mesmo o irmão
¬ e por que será? ¬
que, às sombras de uma caverna,
atado ao próprio destino
vendo sombras na parede
criara um deus maldoso assim?


Ficções

 

O sol do fim de tarde,
em pequenos raios,
banha o vitral de meu humilde escritório.

Rumino signos
e entre a fronteira de minha inércia,
invento verbos, recrio predicados,
busco adjetivar
personagens inacabados.

Tento escrever mais uma página
desse projeto que se arrasta por mais de oito anos
e que, na minha pretensão doentia,
seria o grande romance de minha vida.

Diluindo-me
na luminosidade do sol e seus reflexos
perco em meio a tantos signos:
fronteira do que sou e do que nunca fui.

Incorporo meu próprio personagem
a cada página escrita
e, à margem de nós dois,
qual unha que se corta e joga fora,
sinto-me outro fora de mim,
um estranho, um desconhecido,
um forasteiro
que busca se reconhecer através da palavra.

Pensava conhecer o encontro entre rio e mar,
entre os campos e as vertentes que separam propriedades,
entre os muros dos quintais,
entre chapadas e ribeirões,
entre terra e os oceanos,
entre mim e ti...

A gosma das substâncias que me compõem
e que, ao mesmo instante, sem formas,
já não me pertencem mais,
fazem de mim um personagem fictício,
cujos predicados se esbarram nesse lugar
de encontro e desencontro.

Espanta-me conjecturar
que minha maneira de amar se denuncie
no momento mesmo em que escrevo:
conhecer as fronteiras me causa desassossego,
alimento amores impossíveis que,
embora julgue verdadeiramente meus,
sei que não me pertencem mais
ou nunca me pertenceram.

Amo escrever,
mas me pego enojado com essa coisa sem forma
a impregnar a pele imunda
do que é fictício e do que é real.


Cicatrizes

 

Meninos, mulheres,
braços nus, ágeis mãos,
sacolas amarrada às costas
largos chapéus nas cabeças
e essa vontade besta
de encontrar sentido pra vida
na colheita do algodão.

Sangue púrpuro na pele,
mornas noites de aflição,
de ardor no corpo inteiro,
tantos cortes e arranhões:
e essa gente ainda crê
na justeza da nação.

Sempre tive a intenção
de nunca mais lembrar-me disto
mas ainda sinto nas mãos
a dor da pele sangrando
o corte seco do fruto
que, como unha de gato,
fere a alma e o coração.

Saber que tantos meninos
por estes vastos sertões
ainda trabalham nos eitos,
ainda sustentam patrões,
sonhando um dia ascenderem
às mais altas posições.

Apesar dessas feridas
ainda acredito que a vida,
para além das distinções,
é produzida, em grande parte,
não por galerias de artes,
mas por cicatrizes e calos
desses braços nus,
dessas ágeis mãos.


Perfumes

 

Cedo aprendi:
regar canteiros,
cuidar de hortas,
fazer temperos,
plantar perfumes de ervas,
renovar, nas eras,
os pardos de invernos
e as cores de primaveras.

Assim espero,
quando a porta do abismo
me convidar para sair
e se fechar atrás de mim,
ao aceno de meu derradeiro adeus:
que não me banhem
com cheiro do jasmim,
porque todos os canteiros
que cultivei dentro de mim
merecem cheiro de horta molhada,
liberdade de alegres sabiás
e o perfume de flor de laranjeiras.

É o que pretendo deixar
impresso num papel em branco:
uma carta sem palavras
que lhe enviarei
antes de me despedir...

Adeus!


Contraditas

 

O sol rebrilha lá fora
nas cores verde, amarelo,
branco e rosa de um vitral,
em instantes o vento balança
as folhas de uma trepadeira
que se enrosca na grade
tecendo um emaranhado
de cipós e garras.

Enquanto tento ler algo
a Anne cantarola,
no sossego do quintal,
uma linda canção
que faz lembrar com saudades
umas tardes de verão
sobre a sombra do juá
quando ávido buscava
estrelas que meus olhos sabiam:
estavam lá.

Uma taça sobre a mesa
é a incerteza besta
das coisas que aqui escrevo
só para fugir à realidade
que nunca nega
aquilo que sempre soube:
que a paz que tanto busco
só se encontra
na curva de uma trilha,
na dúvida de ir ao encontro
de minha própria perdição.


Lisonja

 

Um fio de nada
atravessou o todo
e, à margem do infinito,
lançou-se no abismo.

Foi tão alto o grito
que o universo inteiro,
depois daquele susto,
nunca mais dormiu.


Societer

 

Eu,
embora tente,
perco-me sempre
no emaranhado dos ventos
tentando apanhar
partículas de gente,
mas quase sempre
nem meus próprios cacos
encontro.


Reflexionada

 

Regar chão de areia,
não ter sangue na veia:
é essa a fria teia,
essa eterna peia,
que nos ata, ateus,
a um destino incerto
de fins e meios.


Desvario

 

Não tenho amigos poetas
nunca fui de festa
nunca morei na Floresta,
embora Renascença fique perto.

Nunca escrevi um livro
entrei atrasado na escola
fui mal alfabetizado,
sou frágil e desprovido
de cores e predicados.

E além de tudo isso
nasci pelas mãos de parteira
num simples casebre do campo
num lugar bastante ermo
e ali vivi meus primeiros anos:
no ir e vir das chapadas,
no abrir e fechar das porteiras.

Mas posso afirmar,
com toda segurança e certeza:
nunca tive medo de onça,
nunca me perdi na floresta
e nas corredeiras dos rios
nadei sem medo.

Não tenho amigos poetas,
não tenho medo de onça
não nasci em hospital
não sei escrever direito,
mas sempre tentei.


Migalhas

 

Não tenho sina!

Na divisão dos despojos
entre os muitos irmãos,
os cacos que consegui guardar
foram consumidos pelo destino
nos meus primeiros doze anos.
Pequenos pedaços perderam-se
nas bagaceiras, nos caminhos de fontes,
nas águas entornadas em ladeiras de pó.
Os redemoinhos de agosto
levaram as últimas migalhas.

Meus olhos ainda procuram,
pelas encostas de pedras,
alguma coisa esquecida,
mas que já não é sorte,
nem vida, nem morte,
mas apenas uma esperança besta
que esparramou pelas chapadas,
qual paina.

Arisca,
igual preá em moita de macambira,
a vista passeia nos areais
e se assusta com o voo dos curiangos,
quando é noite:
 procuras, procuras e mais procuras:
esse destino de sertões.

Um cavaleiro assobia suas tristes penas:
seu cavalo manco
é só uma sombra morna
num fim de tarde de verão.
Penso que os silêncios
escondem destinos de muitos;
as tristezas de outros assobios,
velhas e esquecidas cantigas;
o coração fica miúdo
para aturar o amor escasso,
a vista espicha na vastidão do breu
e os ouvidos deitam nos ventos
buscando um som ou um batuque
e nada!

A alma do menino se aquieta
conformada com as noites e os candeeiros
iluminando a terra vermelha, o chão batido:
vontade de avistar
pelo menos um cavalo manco
só para não esquecer
o assobio triste do vaqueiro.

Serras de ribeirões
que acendem vontades de não sei;
uma sofreguidão que aperta o peito
e faz a gente querer voar feito inhambu,
quando falha a mira do caçador.

Menino que chora em ribeirão
ama mais que rio e que mar:
ama o amor que não existe
nas curvas das chapadas
por onde o mar fugiu um dia
escorrendo pelos cantos,
desembestado nas serras de pedras;
ama um amor calado, silencioso, amoitado,
com medo de se mostrar.

Assim amei e amo:
esse amor louco de quem chora em ribeirões,
esse desvario de quem procura migalhas por todo canto, pensando que o asfalto é areal
e que os ruídos da cidade são
assobios de vaqueiros em cavalos mancos
nesses fins de tardes de verão.

A falta que me faz

 

Pintas em giz um quadro de memórias,
sombras e esperanças vãs;
ao sair, tudo se apaga
no espelho de cristal;
vens de manso deixando marcas,
depois se vai sagrando feridas
na frágil alma de quem fica:
ao poeta resta vagar
na neblina de pó
frio, triste e só.

As cores se dissolvem
na transparência de meus olhos rasos
e no céu, baço e cinza,
até as penas perdem
sua leveza de asas.

Os ventos que assobiavam
em minha escancarada janela
se calam ao silêncio de lábios de pluma
deixando apenas o barulho da rua
vibrando no ouvido:
essa tepidez de tarde chuvosa.

Nunca fui mais que lixo:
resto esquecido em canteiros de avenidas;
tenho essência nenhuma para vitrine
ou cabide de armário
e seus cheiros de alfazema.

Sou muito mais migalhas
esquecidas numa calçada
e que não servem sequer
ao banquete de pombos e pardais.

Sou menos que as pragas dos quintais;
menos que as samambaias
que enfeitam pobremente os velhos muros:
sem viço, sem pintura;
tenho apenas o apego pálido dos musgos.

Sou ouvido surdo,
voz calada,
pele sangrando;
sou desespero em desabrigo!...
Enquanto não tenho você comigo.


Descaso

 

Apesar do apelo
expresso no nome do blog
não sei se vale a pena ser poeta
e implorar alguma leitura
dessa gente importante
preocupada com a replicação instantânea
¬ quase automática! ¬,
de milhões de imagens
colhidas nas redes sociais.

Assim posso explicar,
embora um pouco machucado,
a óbvia razão de meus poucos seguidores
dos quais, só uma significante minoria,
tem, no olhar puro de criança,
a essência de nobres sonhadores.

Não vou postar imagens ou música
para não macular o desabafo!


Meus laços

 

Quanto já busquei:
silenciar cachoeiras
para fazer valer
o sono dos bichos.

Calejei meus pés
correndo chapadas
para que não fugissem
aos olhos meninos.

De tanto assobio
minha voz perdi
sem sequer calar
pedras do caminho.

Armei tanto laço
para a felicidade,
mas numa ladeira
ela me escapou.

Agora parado
à beira da estrada
deito-me calado, calado:
já não creio nada!


Cuidado!

 

Tinha algo pra dizer,
mas esqueci.

Meu peito quase explodia
e, de repente,
sem avisar,
ficou vazio.

Há pouco o vento lá fora
anunciava tempestades,
mas já parou.

Tenho medo da calmaria:
ela quase sempre
antecede os temporais.

Hoje estou calmo!


Sentidos

 

Difuso,
translúcido
inquieto:
esse chão
é teto
esse teto
é chão

E eu
entre os dois
me desequilibro,
vazio,
vão.


 Filhos de Gaia

 

No princípio era o verbo
carregado de energias,
vermelho,
incandescente!...

Com o passar das eras
ele foi ficando calmo:
maquiou-se com outros tons,
vestiu-se de roupagem azul,
pintou sua cabeleira de verde
e a enfeitou com milhões de flores.

Um dia se batizou
com o nome de Gaia,
depois, já adolescente,
olhando no espelho do infinito
se enamorou, tal qual narciso,
e, feliz, engravidou de si.

Gostou tanto do amor
que acabou por gerar
grande e variada prole
e a seus filhos
também ensinou amar.

Mais tarde, já na meia idade,
¬ quase em menopausa ¬
talvez até por descuido,
gerou seu último filho:
nascia, então, o bicho homem.

Parecia um filho bom
¬ amável até! ¬
mas que decepção!
esse caçula nem bem crescera
e já se revelava destemperado.

Abusou daquele amor:
matou seus outros irmãos,
feriu de morte a mãe,
arrancou-lhe das entranhas
seus segredos, suas veias,
sugou-lhe a seiva e o sangue.

Cravou-lhe na epiderme
grandes e horríveis feridas,
cortou seus longos cabelos,
lançou drogas e venenos
em seus fartos pulmões,
borrou suas cores lindas.

Mas mãe que é mãe!
sempre perdoa:
com certeza um dia
ela o perdoará
crendo-o bom
como os outros filhos.

Não teria sido maldade
se, por cuidado,
gaia tivesse enjeitado
esse seu filho caçula
ou abortado a gravidez tardia
na clínica celestial das eras.


Claro e escuro


Ouço uma música antiga,
pérola para meus ouvidos;
estudantes distraídos
andam pelas calçadas
e, quase sem pudor,
riem, brincam, namoram.

Nesse fim de inverno
- prenúncio de primavera -,
nuvens cinza riscam o céu
fingindo-se passageiras:
aos poucos vão se juntar
e promover tempestades.

Da varanda, ao som da música,
reparo um sabiá saltitando
entre as plantas do jardim;
no muro vaga uma aranha
e na sanha de insetos
ipês vestem-se de flores.

Não posso responder por isso:
esse som me levou daqui:
já não me encontro em mim!...


À juventude de agora

 

Reparo em mim e nada encontro:
sou mesmo um poeta sonso
que se perdeu de si;
um coitado que garimpa
seus cacos nas esquinas
enquanto mendiga
seu ser fugidio.

Espera, quem sabe um dia,
acaso favoreça a sorte,
encontrar o ser perdido
ou talvez, quem saberá,
a própria morte.

Por enquanto
somente as madrugadas,
as bares e as calçadas
podem trazer-lhe algum alento.

Aos amigos suplica, implora:
se alguém o vir dormindo na sarjeta
por caridade não se aquiete:
telefone, escreva, avise
onde se encontra
o menino perdido do poeta.


Inspiração

 

O inverno é imensidão de nada,
é frio cortante,
pálido céu distante.

Nele o calor é pouco
escasso:
até as matas se despem
em atenção,
querendo o afago de flor de primavera.

O poeta é assim:
precisa se despir de afetos
para chorar o amor que sempre teve.

Bastante


Ladeiras, quantas ladeiras!
labor de uma vida inteira:
descer, subir bagaceiras
a buscar vida na fonte
a se doar às criações
nos bebedouros.

Caminhar, quanto caminhar!
à espera de encontrar
no mundo melhor lugar
e no macio do horizonte
um sentido pra viver
ou quem sabe descansar.

Deponho meus pés no chão
¬ já cansei de tanto andar! ¬
divago nesta quietude
que o caminho quer tirar
sem o menor medo da morte
sem sentido procurar.

Basta-me escrever sobre isto
e não sei talvez um cisco
faz meus olhos marejar:
saudade da fonte da vida
vontade de me doar
à sede dos animais.

Ainda busco escrever
e ao fazê-lo não sei
se estou a procurar
um sentido para viver
ou preparando um lugar
onde adormecer em paz.

Indecisões

 

Hoje fui apanhado por uma grande dor,
como se um alfinete cutucasse
indecisões entre as escolhas que tanto preciso fazer:
seguir um novo caminho
– o velho já não satisfaz –
ou voltar para meu cantinho
e por lá adormecer em paz.

Desaprumo


Água, roda, moinho,
vento, redemoinho,
encanto de movimento.

Arco, giro,
roda, vida,
ventre de rio,
fundo chão de dentro.

Aves, sons, cachoeiras:
esta beira exime
besta vontade de rio,
brando sopro de vento.

Alguém já disse isto:
sumiço de calmaria,
vez esquecida, verso,
vírgula, nada...

Tudo pronto:
cada ponto final.

Aos sonhos de Elena


Que dizer agora
dessa coisa estranha,
que na cabeça da gente
é quase uma obsessão?
que dizer dos grandes sonhos
se os pequenos já não bastam?

Rogo para que meus sonhos
sejam bem pequenos
para caberem dentro de mim:
de que me valerá um sonho
que seja grande demais
e cujo peso esmague os meus sentidos?

Talvez eu não tenha razão
porque nunca sonhei
sonho maior que meu pequeno corpo.
pode ser que por esse motivo
não saiba mesmo o que é sonhar grande
tendo que aturar coisas miúdas.

Assim, acabo por viver migalhas
como pombos que nas calçadas
catam os descuidos do lanche.
Podia voar longe, além de minhas asas,
mas prefiro ignorar os horizontes
contemplando-os aqui do chão.

Prédicas


Um canto sem cor
sem sonoridade
sem instrumentos
sem voz
sem prumo...

Num canto
em solidão
canto meu canto mudo.

Arranjos


Arranjo de arranha-céu,
aranha tecendo, em nuvens:
brancas plumas,
previsões pluviais
de outono-inverno
plágio de inferno
impressão de céu
confusa estação...

Prendam-me!
já estou ficando pouco

O caco, o vaso,
o vazio vão;
signos, palavras,
pontos e vírgulas...

Um fio de tédio,
outro prédio frio
um pedacinho de chuva
nuvens cobrindo o sol
só de mania:
manha de tecer manhãs
e roubar de vez
a veia, o véu, o verso
a rima da poesia.

Chão de estrias
estrelas, que nada!
é só divagação
de pés sem chão
de plumas sem céu
de arrasta-pés
valsas, samba
ventos e folhas
ausência de aranha
pra tecer no verso
a sanha da rima
a camisa rota
a força e a forca
o início e o fim.

Pecado


Cantar a aldeia de meu próprio corpo,
o que ele dita em sentimentos ocultos,
em desejos sólidos e vontades líquidas:
essa angústia que queima as veias,
dilata os vasos sanguíneos
e ameaça explodir em desespero
¬ Etna insaciável! ¬
meu vulcão interior.

Se ao inferno cabe quem são sabe amar,
o amor deve não ser pecado!

Soneto triste


Apanha-me um fio de tristeza,
um corte seco na carne
que faz sangrar, ferida exposta,
todos os sentidos de viver.

Meus olhos transbordantes
desfocam o texto no monitor:
pergunto se há no mundo
maior dor que desfocar a vida.

Meus medos, meu despenhadeiro,
minha ponte já caída,
e embaixo dela meu próprio abismo.

É na ausência de equilíbrio,
neste trôpego trapézio,
que espero a tempestade em desabrigo.

Reverso


Tentei escrever-lhe um verso
no reverso da palavra,
no contraponto da rima,
no movediço da areia,
mas a palavra aquietou-se
na encosta do caminho:
descolou de seu papel,
subverteu seus sentidos,
depôs na trilha seus signos
e no deserto da escrita
caducou meu dicionário
jogando na sarjeta o sujeito
sem cuia, sem predicados
a mendigar verbos.

Depus então a caneta
rasguei de vez meu papel
e na ausência da rima
em voz rouca declamei
umas palavras vazias.
então percebi que jazia,
sobre a plana superfície,
um traço qualquer de tinta
denunciando que um dia
tentei escrever-lhe um verso,
mas a palavra...

Do que me queixo?


Entre as muitas coisas
que meus sentidos colheram
ao longo do caminhar,
quase nada se perdeu;
muito consegui guardar.

Umas eu trago escondidas
no obscuro da alma
para não ferir a quem
por um acaso qualquer
possa querer e amar.

A outras dedico o cuidado
daqueles que cultivam flores
ou que enfeitam salões
onde disponho espelhos
e busco me projetar...

Mas é na ausência do riso
ou no olhar a perder-se
num ponto fixo do nada,
que busco inutilmente esconder
tantas e indisfarçáveis dores...


Minha tez veneno

 

No espelho d´água,
banhada de encantos me espiava:
a beleza mansa, a pele morna,
a tez morena brilhando como as pedras
em ribeirões deitadas,
que de tanto ensaboadas
em seu brilho refletiam
meu sorriso brando, meu amor veneno
que ninguém ousara provar.

Um desejo louco,
minha sede, meu grito e meu apelo
que no tecido colado ao corpo
deixava transpirar insano amor;
meus desejos mansos,
meus cabelos soltos,
meus lábios carmim
a implorar o mel de insano beijo
que alguém haveria de provar.

E ao cair da tarde
humana fera, louca, insana
de minhas entranhas vi nascer:
naquele instante de lucidez ausente
apanhei de tocaia a cobiçada presa
e a fiz provar os meus venenos,
beber meu mel, morder meus lábios
no fremir de enlouquecidos beijos.

Depois, já saciada, no mundo me atirei:

nunca mais lavei roupas
nas pedras dos ribeirões
nem reparei
no cristal das águas
minha tez morena,
minha pele morna.

Ninguém mais tocou meus cabelos soltos,
nem provou meus venenos, meu mel,
mas sempre retorno àquelas pedras
pensando que entre elas ainda brinca,
desarmado,
o grande amor de minha vida.

Todas Estrelas do céu

 

Às vítimas da boate Kiss

Que estrada é essa?
que caminho é feito?
de onde advimos nós?
por que tanto tropeço,
tanto cambalear?...
onde pulsam agora
os corações dos que se foram?

E eram tantos!

Falas e risos,
balanços e danças,
olhos e brilhos,
projetos e sonhos...

Mas a noite surgiu
encobrindo tudo:
Santa Maria, Rio Grande,
Brasil...
até o universo,
de horror se escondeu!

Olhei o céu à busca de estrelas:
queria contá-las para aliviar
o oceano de meus olhos,
mas a noite as encobriu
com seu negro luto.

Quem sou?


Sou physis, volátil, passageiro;
sou corpo que envelhece,
apelo, oração, prece;
sou rogo, súplica.

Sou essa massa corpórea,
retesa, explosiva, tensa,
que ao toque se arrebenta
em incontrolável desespero.

Sou frágil, fútil, inconsequente.
sou vulcão incandescente
a provocar tremores ao redor.

Sou nada, tudo, ou melhor,
sou gozo, mas também sou dor,
sou mar, açude e rio perene.

Malabarista


O circo,
esse da vida,
onde representamos
nossas angústias e dores,
nossas fraquezas e medos
para o deleite da plateia.
Um dia
de tanto sofrer
nos tornaremos fortes;
de tanto chorar
ficaremos imunes à dor,
de tanto fazer rir aos outros
criaremos nosso próprio espetáculo
e repousaremos serenos na plateia.

A vida toda ele sonhou
um sonho leve de menino:
queria voar no céu da lona
e, para maior gozo em seu propósito,
deixar escapar das mãos
a corda bamba do trapézio.

No embalo de seus sonhos
conheceu trilhas e mundos
e, entre as penas e o ofício,
ingressou no circo, esse da vida:
conheceu a dor e até dizem por aí
que também conheceu o amor.

Casou-se, teve filhos e netos,
mas um dia, enquanto todos dormiam
e pensavam que ele não sonhava mais
organizou, na calada da noite,
seu mais formidável salto,
seu último e derradeiro espetáculo.

Da janela do terceiro andar
na fria madrugada se jogou
e numa íntima e silenciosa gargalhada
das penas desse mundo ele zombou:
saiu do picadeiro, onde vivia,
e no conforto da plateia repousou.

Ensaio ou qualquer coisa


Tendo à frente a indiferença de vidros temperados
vi ao longe, entre as muitas torres de concreto,
um minúsculo pedacinho de serra
e, depois dela, muito além de densas nuvens,
tive a impressão de que o mundo
fosse apenas abstração de um segundo,
durante o qual a gente credita às coisas
o valor e a dimensão que elas não têm.

Embebido nessa vã cognição
colhi todo sentido real de uma cidade
e carregado de pesar e de paixão
meus olhos perscrutaram ao meu redor:
a simetria das lajotas de um quintal,
a fria indiferença dos vidros temperados,
a retilínea imposição de certo muro.

Foi então que implorei por ter um chão,
um pedacinho natural do mundo,
onde, descalço, pudesse então depositar
¬ quão absurdo! ¬
a forma conformada de meus pés.

Doente quietude


Eram infinitas portas
todas muito bem fechadas
e por trás delas
imensidão de janelas

Estavam munidas de chaves
nas fendas e fechaduras
guardando ao certo
alguma flor de deserto

Firmes mãos nas maçanetas
sem coragem para abri-las
contidas de tanto medo
de revelar segredos

Eram portas
e muitas chaves:
ausência de atitudes
a se afogar em açudes.

Princípio de minha incerteza


Gosto salgado na boca
falta de água nos olhos
pés na areia molhada:
a mão firme em maçanetas
de portas que não se abrem.

Jeito esquecido de mar,
seca ausência de rio
e essa falta de aprumo
que faz de portas fechadas
completa falta de rumo.

Será que um dia me encontro
se alguma porta se abrir?

Quero ser despenhadeiro


Cansei de ser humano
de ter sentimentos
de derreter-me de emoção
por motivo qualquer.

Quero ser duro e frio
como pedras largadas no meio do rio
e que não se importam com a pressa das águas
nem com o sobe-e-desce dos peixes.

Quero ser indiferente
qual despenhadeiro
que não estende as mãos
ao filhote de passarinho
quando ele despenca de suas encostas mais altas
e se arrebenta a seus pés,
mas também não se importa
que fique
até estar pronto para voar
nem reclama o incômodo de seu ninho.

Estou farto de ser essa coisa horrível
que domina, escraviza, mutila e mata:
prefiro a absoluta solidão
e a indiferença das pedras
que ser adorador da tal razão
essa que tanto se venera
nos templos modernos.

Não quero pertencer a essa espécie
cujos pais podem matar a cria
e se justificar dizendo
que ela exigia afetos.
A ser assim
prefiro ser mesmo uma pedra
que não exige,
mas também não mata
e nem pergunta nada.

Estou mais desidratado
porque li a carta escrita por certa criança
antes de ser assassinada pelos pais.
Depois dela considero
que me tornei mais despenhadeiro.

Quem sabe, daqui a pouco,
eu não me torne seco e frio como as pedras!
Então, não lerei jornais
não amarei ninguém
não afetarei nem serei afetado.

Pode ser que o mundo não melhore,
mas tal qual uma pedra no meio do rio,
não vou perguntar nada!

Vergonha!

 

A poesia é sonho:
nela tudo floresce!

Antes do pé
existia a fé:
juntos ensaiaram
o primeiro passo.
Desse movimento
nasceu a música
e fez dançar
todo universo.

O dia raiou primavera
e nela
o amor, a flor
e a mulher.

Uma noite de inverno
envolveu os homens
que, despidos de afetos,
violentaram toda criação.

Depois de alguma conversa


Hoje,
depois de um café e alguma conversa,
já a caminho do trabalho,
fui apanhado por um fio de tristeza
como uma linha do tecido
que se estende até o infinito
e que nem sei se foi isso mesmo
ou outra coisa qualquer:
algo que não consigo decifrar.

Sei que não deu prazer
mas não foi totalmente ruim!
foi como se alguma coisa
dentro de mim
desfiasse um tecido sem cor.

Fiquei triste como o sol poente
visto do barranco de açude vazio.

Crepuscular


Penso na vida:
essa que vivemos a cada instante,
que colhemos nota a nota,
passo a passo
na esperança de,
ao fim do dia,
ir dormir sossegado
e sonhar com tudo aquilo que amamos
na eternidade de um dia.

Aparências


Amo a solidão e o vazio:
nele mergulho
como um suicida
que a cada dia ensaia
seu fim inevitável.

Porém, nesse ensaio
de completo desassossego,
escrevo
e pela escrita busco decifrar
a falta de sentido,
as dores da alma,
o doce amargo da vida.
Assim encerro,
através da escrita,
meu imaginado e doloroso fim.

Amo a prosa e a poesia:
nelas me mato noite e dia
e busco, a cada momento,
sucumbir-me num abismo
embaraçado na difícil tarefa de escrever:
tão difícil
que até esqueço
o sabor amargo de viver.

Com frequência
vejo-me testemunho
de minha própria morte,
essa que tanto anuncio.
ainda bem que existem,
fora dos dicionários,
o encanto das palavras:
por meio delas
verbalizo meus tormentos,
faço-me testemunho ocular
de minha vontade voraz de escrever.

Pelo texto
deponho deuses,
degolo a humanidade inteira
e depois me mato para,
para, a seguir,
ressuscitar-me ileso
e trazer,
num sopro verbal,
a vida àquele mundo assassinado.

Só então
volto a ser sereno:
perdoou minhas mágoas,
adocico meus venenos
e volto a ser,
simplesmente menino.

Quero paz


Vá depressa!
vá correndo!
Vai sem muito demorar
vai meu pensamento vai
por onde quiser andar!
e nessas idas e vindas
vê se encontra, ainda,
no mundo, em qualquer lugar,
e se encontrar,
por caridade, vê se me traz,
embrulhado num papel,
um pedacinho de paz.


Predicativos...


Raso, pequeno, imperfeito
são esses meus predicados:
nunca aprendi falar direito,
escrever, às vezes tento!...
Jamais frequentei boa escola
– quem quererá saber agora
de uma tal Cremilda Passos?

Não faço ideia do mundo,
só sei dos caminhos que traço!
Às vezes fico calado
muito poucas vezes falo
de coisas tão sem sentido
pensando até que são belas.

Num dia desses passados
descobri que fui tachado
de semianalfabeto,
mas disso há muito eu sabia
¬ dispensável o comentário! ¬
pois quem sabe de onde veio
sabe o quanto são ignorados
esses seres transparentes.

A essa gente tão nobre
deixo aqui o meu apelo:
se quiser falar comigo
procure-me numa fenda
ou no escuro de um beco,
porque nas praças formosas,
nos cafés iluminados,
áh, lá nunca hão de me ver
forçando o riso num selfie!

Carnaval I


Sinto-me quase canário
aprisionado em gaiola
olhando a liberdade lá fora
onde pássaros em revoada
pintam as cores da cidade.


Carnaval II


Sentado a dois
na longa mesa de jantar
mastigo lentamente umas torradas
enquanto folheio livros infantis
querendo recordar um personagem
divertido, inteligente e fugaz
capaz de me fazer esquecer
que estou usando antibióticos.

Só um ser literário
para quebrar o tédio
dessa morna tarde de sábado.


Arranjos


Um gato mia no telhado.

Ao longe ladra um cão
no abandono da rua
ou de algum quintal.

O vento morno sopra a cortina;
ouço um ruído e tenho dúvida:
não sei se é a chuva
ou o ventilador de teto.

Tateio no escuro
à procura de mim mesmo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário