Dos medos

Assombra-me uma saudade de não ser mais...

Divã (I)

 

Quando o dia amanheceu
com todo seu frescor de luz
pássaros em cantos e danças
encheram o infinito de cores.

O sol bronzeou a pele morna,
iluminou vastos caminhos,
aqueceu a terra em cio
e fez de cada flor um fruto.

Mas de manso a noite veio
e fechou todas as portas
dos asilos sem janelas.

E os olhos atrás das pálpebras
fixaram-se na luz da lâmpada
e riram de si esquecidos.


Sexto empírico

 

Divago, em vão no vão das horas
pensando que o amanhã
não é ontem, não é hoje:
o amanhã é agora!

Então reescrevo, reviso
os rabiscos da memória;
anoto à margem
minha dúvida atroz:
onde é mesmo que esqueci
rastos, caminhos e areias
dos lugares onde andei?

Se a memória se perde
no burburinho do agora,
se efêmera é a história
que conta e faz perceber
o outro que há em nós,
então não vale rabiscar, revisar, reler
o que acabo de escrever...

Assim, pirrônico,
não é preciso temer o temporal
nem se apressar a recolher
as roupas estendidas no varal.


Opostos

 

Sempre tive alguns apegos,
muitas manias e medos
até um porão de segredos
que às vezes me assusta.

Nas digitais de meus dedos
uma sombra de juá,
talvez um pé de vassourinha,
touceira de macambiras
bem perto do bambual;
trilha que adentra a chapada,
no desvio de Felisberto,
passando pela tapera
do finado Anacleto
onde só restam mangueiras
e paredes desbotadas

Assim, apesar das marcas,
nas poucas particularidades
traço minha identidade
bem diferente daquela
que na tua retina reflete
o quão diferente somos.


Memoriar

 

Nunca fui de festas!
comungo essa solidão de pedras
e alheamento de areais,
que nestas minas desertas
estendem-se por vastas curvas
e encosta de ribeirões...
vidas regradas,
completa ausência de afetos.

Quando nasci
era somente um susto
espécie de pesadelo abismal,
qual cova rasa que se abre
lá no fundo do quintal
para encerrar, em calma,
uma sementinha não vingada.

Após doze,
num embate solitário,
declaro guerra nuclear
aos vermes e às pragas.
É então que surge
daquele quase nada
esse tecido em frangalhos,
roto lençol de memórias
lembrando semente mal cuidada
com pretensão de ser
projeto de alguma coisa.

Um dia é somente um dia
na vida dos outros
e não há história que conte
todos os caminhos e passos
que tecem e enlaçam
o tecido da vida,
mesmo que efêmero,
mesmo que mínimo...
mesmo que frágil.


Acuo

 

Óh vida solta no mato!
és como um eco assombroso,
bicho fugindo aos cachorros,
grito, xingo, impropriedades!

Um dia ainda te pego
num atalho ou emboscada,
quem sabe numa curva de estrada
numa arapuca ou num laço.

Mas antes que isto aconteça
sigo a tatear no escuro
equilibrando meus muros,
delimitando os quintais.


Perdas e ganhos

 

Cambiante estreito
ligava o nada
ao infinito de tudo,
deixando para trás,
à beira do impossível,
fagulhas errantes em caudas
atrás de audaciosos cometas.

Promessas à parte,
o que ficou no esquecimento
é menor ou igual
ao produto equacionado
que assegura, incondicionado,
que dessa vida errante, em tese,
perde-se menos do que se ganha.

Porém, raivoso desdenho
do total de minhas perdas
claramente maiores que os ganhos,
após subtraído o produto
e toda incompetência dos sentidos
cujo alheamento furtou-me
o brilho essencial de teu olhar.


Essência

 

Desse pequeno mundo
sou apenas substrato:
um pouco imagem de espelhos,
um pouco cor de retratos.

Os meus estreitos caminhos
não são de supermercados:
sou eu mesmo que os faço
na incerteza de meu passo.

As sandálias que me firmam ao chão,
e com as quais passeio,
são fios de cordões que traço
corto e depois enlaço.

Tenho horror às aparências
porque é melhor, eu acho,
ser um pequeno frasco da essência
que eu mesmo faço.


Haicais

 

Um fio de nada
costurou
todo meu destino.

Acordei
tão pequeno
para esse mundo!

Pisava distraído
numa calçada
pensando que era o chão.

Andava solto
quando, à minha frente,
o olhar dela me prendeu para sempre.

Na neblina
só se viam sombras
e meu vulto totalmente ignorado.

Um vento passou
feito louco
e não quis ficar mais um pouco.

O tempo despediu-se e foi embora:
sequer aceitou
uma xícara de café.

Equilibrando-me num fio
vesti o frio da noite
adormeci.

Vinho amargo

 

Como eu gostaria de não estar aqui
deliciando, gota a gota,
o amargo púrpuro desse vinho.

Mas as pedras, apesar do esmero
nas escolhas que faço,
insistem em tombar no leito áspero
de meu estreito caminho.


Subterfúgios

 

Se tivesse que escolher entre a comicidade e o trágico,
ao certo ficaria com o último:
sempre fugitivo, escorregadio,
tão ninguém e tão sem evasivas
diante daqueles que divertem minha curiosidade
a quem exponho feridas escancaradas...

Tão indizivelmente comovido
prevejo a intensidade da dor do outro
e da minha.
Faço teatro
e, nos meus cadernos de notas
rabisco melancolias:
máscaras que traduzem tragicidade
no cômico teatro desta vida.

Sem dúvida, sou mesmo trágico,
mas quando a alegria do mundo acabar
farei sozinho o espetáculo que sempre desenhei...
festejarei minha máscara de papel.


Nada mais que sonho

 

Eu quero uma casa no campo
onde possa fazer meus canteiros
e neles cultivar as sementes
de nossas melhores lembranças;
onde eu possa levar as crianças
e seus amigos de escola
para nadar, correr e jogar bola
nas festas de aniversário.

Eu quero uma casa bem grande
numa rua serena e sem saída
para nela tecer nossas vidas
entre as flores da varanda;
que seja perto de uma praça
com muitos canteiros floridos
onde, enquanto caminharmos,
brinquem livres nossos filhos;
que tenha uma pequena capela
onde, aos domingos ou todo dia,
em nossa oração a Maria
peçamos paz para nosso tempo;
que tenha bancos bem antigos
onde mais tarde, já velhos,
possamos acolher no colo
nossos filhos, nossos netos.

Mas, por favor, eu não quero
¬ nem gosto de imaginar! ¬
ter uma linda cobertura,
mesmo que de frente pro mar:
não quero, num desespero
de solidão sem medida,
sozinho o horizonte fitar
sem ter nosso amor vivido.

Tenho medo que aconteça
de minha solidão virar mar
e, na madruga fria,
no abismo me jogar,
não antes de escrever-lhe um poema,
amargo, ácido e tristonho,
dizendo do amor que almejei
e que nunca passou de sonho.


Eu, frágil

 

Sou cristal:
me quebro fácil
só de ver
só de olhar.

E, se me quebro,
o que resta?

Pedacinhos
de cristais,
fragmentos,
nada mais!


Tempestade

 

O
i           n          f          i          n          i          t          o
é apenas
           f
              ra
                gme
                        ntos
                             das eras
partícula
           invisível
do eu
                          lamento
   p         e                            r     d        i   d            o
sombras
                                p.o.r.o.s
pelos,
l      q              o
  í       u      d         s
            i
                                 s a i s

T           m      e         t         d
      e         p          s         a             e
                                              q
                                          u
                                       e
                                    c
                               a
                         i
na
          n e
    a              l
j                       a
do olhar


Vida de poeta

 

Essa vida desregrada de poeta,
essa quase epidemia,
esse vírus contagiante que afeta
a alma dos loucos...

Escrever sobre coisas insignificantes:
sentimentos, mentiras, plágios,
colagens e divagações sem medida.

O poeta é isso e, pior,
é um profeta
com armas de rimas e versos
crendo que, acaso lhe favoreça a sorte,
um dia vencerá a morte.


Soneto efêmero


Uma flor é só uma flor,
nada mais!
uma vida é só uma vida.
que mais poderia ser?

A eternidade, o efêmero?
a simples vontade de viver?
quem entre vós
poderá me responder?

Ninguém!
nem hoje, nem amanhã
nem aqui, nem além.

A flor é vã
a vida também:
resta-nos o verso, eterno divã.


Coisa estranha

 

Confusão do eu
desse outono-inverno
dessa chuva-e-sol
desse vento-e-brisa
dessa tempestade-e-calmaria
desse verde-e-pardo
desse amor-e-ódio
dessa guerra-e-paz
desse gozo-e-dor.



Sê bem vindo, menino!


À Daniel, meu neto

 

Que sabes tu do mundo, menino?
acaso pensas que ele é mesmo grande?
então me diga em relação a quê!
por ventura crês que ele vai acabar?
explique como e quando!

Não sabes tu que passaremos nós
os mais fracos?
o próprio mundo não se importa
com nossa insignificância!
somos passageiros de um breve tempo
e quando ele abrir a porta
saltaremos no abismo do nada.

Que sabes tu da vida, menino?
acaso pensas que ela é eterna?
repare de onde vens!
compreenderás para onde vais:
a vida é mais breve
que o entendimento de si.

Portanto, caro menino,
quando nasceres para este mundo
saibas com toda certeza,
que te aguarda a morte
num dia qualquer de tua curta temporada
e que passarás antes de encontrar
o real sentido de existir!

Profusão

 

A dança,
o movimento,
o corpo...
talentos que nunca tive.

Onde não há corpo
há alma e dor.

Os olhos,
porque que veem,
entontecem a gente:
pelas cores,
pela delicada textura
e doce perfume das flores.

Sinto-me só
e, sem bebida,
embriago-me nas coisas
feias e belas
que vibram fora de mim.

Sempre fui assim!


À morte


A morte,
essa atrevida,
única certeza dessa vida,
conta o tempo,
as horas
os minutos que nos restam
enquanto choramos
as lembranças dos que se foram
e preparamos
nossa própria partida.


Contraditórios

 

Tive amigas, inimigos,
tive amores, desafetos,
tive o céu como morada,
mas também já tive teto;
tive vida em abundância,
mas também já tive fome,
tive o amor das mulheres
e todo ódio dos homens.

Perdi minha identidade,
mas um dia tive nome,
trago marcas do passado,
que ainda me envergonham,
tive espírito liberto
e essa ausência tamanha;
nunca domei a escrita,
mas ela não me estranha:
faço charme, nego o traço,
peço arrego, faço manha.


A paz que busco


Altivas atiras, sem dó
contra meu frágil e indefeso peito.
Sangrando perco as forças
invade-me a pena da derrota:
essa condição de guerreiro
deitado em campo de batalha.

Se me deres o direito
farei um pedido,
um último e desesperado apelo:
quando meu sopro de vida esvair
deite-me numa vala qualquer,
mas antes, sobre meu mortificado corpo,
jogue uma flor,
mesmo que seja a mais singela,
a mais simples entre elas,
para reascender a paz que tanto busco.


B(r)usca


O estopim,
o chumbo,
o frio aço das baionetas,
a brutalidade dos canhões,
o cuspir das metralhadoras,
a dor na carne vazada,
a bomba e seu rugido surdo...

Onde estará a paz que busco?


Vícios


Andava nu e descalço
colhendo cacos de vidro
no chão áspero da estrada

Vitrificado o horizonte
voltei para a transparência
cristalina de meu quarto

Esqueci a porta aberta,
mas tranquei meu peito
com taramela e cadeado


Minhas batalhas


Não tenho medos, confesso!
não faço segredos:
faço uso incondicional
de minhas armas.

Se um dia for preciso enfrento
e ao mundo inteiro declaro guerra.
afinal enquanto existir terra
finco acampamento, armadilhas, muros.

E quando vier a noite?
do escuro nunca terei medo:
acendo uma fogueira e armo
em seu entorno barricadas.

Se acaso ouvir disparos na noite
às pressas esconderei da morte
na transparência iluminada do universo
e, qual um poeta, farei versos.


Minha guerra


Luto bravamente contra meus fantasmas:
entre a frieza do tiro certeiro
e os medos de não suportar
a dor das próprias feridas,
levanto barricadas de cristais.

Nelas escrevo meus gritos,
meus protestos vãos;
recolho as cinzas,
as sombras, os restos
e no breu da noite reascendo
antigas cicatrizes.


À vaga vida


Preciso urgentemente de socorro,
de sólido e firme ponto de apoio
para remover de vez dos ombros
o imenso peso desse mundo.

Preciso ensaiar um alto grito
ou um triste e demorado aboio
para aliviar toda dor, toda pressão,
que ameaça explodir meu coração.

Preciso encorajar um firme salto
capaz de consumir tamanho abismo
quero um sono bem tranquilo:
cheio de sonhos, vazio de pesadelos.

Busco mesmo, insistentemente,
a paz de um momento em mar sereno
onde eu possa navegar com meus segredos
sem sustos, sem abismos e sem medos.

Imploro ao imponderável e indizível
que dentro do infinito das escolhas
eu possa gozar um vão alívio:
etéreo, eterno ou perecível!

Preciso de um farol na escuridão
uma balsa, um amigo ou uma mão
antes que o frágil barco onde navego,
na vaga, por inteiro, desmorone.


Tardes de verão


Um lápis amarelo
risca o céu de chumbo;
arvores dançam
e lançam folhas ao vento.

Um pássaro voa
apressado, mudo...
aos pulos meu coração
na tempestade se lança.

A tarde chora segredos!
fecho bem minhas janelas,
mas a chuva continua
a molhar meu travesseiro.


Silêncio!


O timbre,
esse desatino em dó,
que nas entranhas da mente
¬ em evasivas de ouvidos ¬
vai aos poucos flutuando,
conduzindo a passo leve
por longos e antigos caminhos.

Envolto em infinitas teias,
tramas de quadros e telas,
onde, adormecido,
escondo meus medos e gritos
em meio a tons sustenidos,
silêncio de uma nota só!


Meus medos


Resta-me uma última conta
escondida num balaio,
mas planto meus pés no chão
e afirmo: daqui não saio!
cheio de vontade de ir
¬ mesmo sem querer chegar ¬
tenho medo de partir.

Tenho medo que no atalho
numa esquina ou enseada
um descuido me atire
num abismo sem saída:
de perder-me, já cansei!
ando sem disposição
de arriscar-me sem receios.

Mas creia, a vida é assim:
o peso da idade acalenta,
no mais íntimo da gente,
uma força que alimenta
sonhos de mudar o mundo:
o tempo constrói um balaio
onde nos cala, bem fundo!


Inércia


Apavora-me a inquietude morna
os silêncios, a noturna ausência
de vida e de movimentos.

O pavor chega a tal ponto
que tranco a porta por dentro
e jogo as chaves no abismo
temendo que por ela entre
essa inércia de conventos.


Solidão


O sol
é brilho
em gota
de água e sal
no olho.

O vento
é só
o nó
na garganta.

O vento,
o sol...
solidão!


Vazio, ou ócio do ócio


Embora eu sempre tenha
muita vontade de ir
se dou um passo tropeço
e peço pra não cair
por isso não tenho pressa,
não vou chorar
nem sorrir.

Se o poema é vazio
e nem um pouco engraçado
por que, então, o escrevi?


Da morte, só!


Não me olhe desse jeito!
recuso a me ver no espelho!
não repare as rugas em meu rosto,
negue que meus olhos já perderam o brilho
e que ultimamente me sinto cansado...

Não me fale desse jeito!
diga que me vê admirada,
que continuo jovem, inteiro!
repare, não mudei em nada:
só estou um pouco resfriado...

Não chore desse jeito!
faça-me mais uma gentileza:
quando a noite chegar, acenda uma vela,
ponha duas taças de vinho em nossa mesa
e uma flor qualquer sobre meu peito.


Divagações primeiras


Sou transparência de cristal,
pedaços quebrados de vidro...
subjetividade pura!
um pouco sombrio,
um pouco abstrato...

Sou quase um velho retrato
que alguém, por descuido,
esqueceu dependurado
na parede de algum quarto.

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