DA CIDADE
Um rio metálico cava o chão de asfalto
tentando esculpir seu leito
por entre encostas e serras
de concreto e vidro.
A tarde é triste e o ônibus faz lembrar
um barco feio e quadrado.
Reparação
Versos,
vírgulas,
palavras vazias,
ônibus cheio,
gente cansada
que vem e que vai...
Velhos sozinhos,
jovens enamorados,
poetas vadios,
mulheres casadas,
cadeira ocupada,
trânsito parado...
Página rabiscada,
desculpas ¬ mais nada! ¬
pro tempo passar.
Afinal, o que faço com meu olhar lasso?
reparo, reparo...
Cotidianamente, quantas?
Quantas meninas mulheres,
quanta gente às dez da noite
voltando pra suas casas
saindo não sei de onde
a se esfregar apertadas
dentro de ônibus lotados?
Com suas mochilas pesadas,
umas sentadas cochilam,
outras de pé a conversar:
falam de estudos e trabalho,
falam de amores e bares
e eu ali, abstrato,
num canto ainda leio algo
e reparo o movimento.
Tanta vida e energia,
tanto anonimato de obras,
tanta gente inteligente
de tantas mentes vivazes,
tantas meninas bonitas
e a pergunta que subjaz:
o que amam?
o que fazem?
Desastre
Belo Horizonte amanheceu vazia
e eu, sem afazeres, tristemente vago
na solidão desértica de avenidas
sonhando rios e trilhas.
O vento acaricia a minha face
e, ao som de um canto triste,
meus olhos evitam um transeunte
e fitam o chão do asfalto.
É quando um automóvel passa
interrompendo um festival de pássaros,
que do canteiro partem em revoada.
Meu coração pulsa em descompasso
ao ver fremir, no chão de asfalto,
as asas de um canário atropelado.
Chuva de primavera
Chegou às três da madrugada
quando, já cansado de esperar,
vi o trem passar na estação:
ela me acenar de uma janela
e ir embora sem desembarcar.
A manhã desta segunda é morna
embora ainda ouça seu cantar
e sinta o perfume de estação
que ela deixou em mim ao acenar
e ir embora sem desembarcar.
Olho as longas linhas paralelas
na espera de ver o trem parar
e na mais primaveril das estações
sentir teu cheiro, ouvir teu canto
quando, enfim, resolver desembarcar.
Convidados
Pintando o azul do céu
alguns fragmentos de nuvens,
nada mais!
nas calçadas pedaços de folhas
e flores ressequidas...
Restos esquecidos
da festa que a primavera preparou
para receber a chuva que prometeu,
mas ainda não chegou.
Cosmopolita
O vento é manso,
o calor intenso
e o céu de um azul imenso.
Olho pela janela e penso
que os pombos,
porque voam alto,
creem em nada,
mas parecem sonhar quando
lentos e distraídos
catam coisas nas calçadas.
Soneto acrônico
A cidade é triste e fria:
lembra o gesto mudo de um pedinte
que, deitado numa calçada qualquer,
mendiga a piedade de transeuntes.
Pardais se assanham
no entorno de uma lanchonete
onde pessoas apressadas devoram
seus fartos e gordurosos desjejuns.
Alerta e sonora
ouve-se, com espanto e estridência,
sons de uma ambulância em movimento.
Atento eu vejo
que esse rouco ruído evidencia
somente um dia, depois de outros tantos.
Cotidiano
A brisa da tarde era fresca e doce
qual respiração, indo e vindo
ao ritmo de criança dormindo.
Pessoas andavam pela ciclovia
e, por entre inúmeras barracas,
olhavam, vendiam e compravam coisas.
Aproveitando o frescor da brisa
a rodopiar, numa linda dança,
brincavam, à sombra, pétalas e crianças.
A brisa fresca e a dança das meninas
sob os ipês da Bernardo Monteiro,
encheram de leveza aquela sexta-feira.
Flor de asfalto
Desprendida do olhar
vaga no ar uma folha
e, ao sopro manso do vento,
cai de leve na calçada,
rola no cinza do asfalto.
Mas eis que um carro veloz,
indiferente, apressado,
antes de virar a esquina,
ao passar sobre a folha pinta
uma flor linda e triste
Essencial
A tarde é cálida:
pessoas passeiam na praça,
distraídas, falando coisas
que não consigo ouvir direito.
Crianças pálidas
brincam e fazem graça
enquanto babás, ociosas,
tecem, dos outros, alguns defeitos.
Do outro lado
um orfanato orna
a praça morna e sua gente
e uma raiz torta
rompe o piso da calçada
e ninguém a compreende.
Cheiro de chão
Manhã de raio de sol,
de pássaros em alvorada,
de brisa fresca do campo
e cheiro de terra molhada...
Às vezes eu me esqueço
dos ruídos de automóveis,
do sólido chão de asfalto,
da fumaça de óleo diesel.
É que bem dentro de mim,
num baú, trago escondido
cheiros e cantos perdidos.
E nessas manhãs de sonhos
abro devagar meus guardados,
sinto cheiros e ouço pássaros.
Ausência de vagar
Hoje, não sei porque,
fui subitamente acometido
por uma saudade de alguém
ou de alguma coisa:
espécie de ausência,
de vagar...
um vão de precipício
a escorregar dentro de mim.
Tentei, no aperto do peito,
agarrar alguma lembrança boa,
que pudesse amenizar inevitável queda.
Foi então que meus olhos,
já sem brilho,
buscaram na solidão da avenida
o apelo de algum furtivo olhar,
que pudesse ver,
nessa incompreensível dor,
o abismo no qual fui atirado,
de repente,
quando, num fim de tarde,
caminhava distraído
pela Bernardo Monteiro.
Solidão urbana
Os meus atalhos ainda são
meros desertos de vida,
encruzilhadas, desvios
para a solidão de quem vive.
A falsa ausência do outro
¬ tão perto, porém tão distante! ¬
mesmo que a se tocar
é como se fosse apenas
estátuas de pedras, enfeites...
Salvo uma subversiva flor
Que desobediente brotou
Numa fresta do asfalto hostil
e atrevida se vestiu
para o gozo efêmero
de um beija-flor.
Arrulhos
Busco aos acordes de meus ouvidos:
os sinos de uma igreja,
um canto de seriema ou sabiá;
busco um pio de pardal,
arrulhos de juritis
entre os muros dos quintais;
busco um assobio de vento,
os encantos de um riacho
desabrochando em cascatas;
busco num plano de rua,
nestas tardes domingueiras,
um sinal qualquer de vida,
o choco-choco do inhambu
defendendo seu terreiro.
E por buscar tudo isso
às vezes até acredito
que meus atentos ouvidos
irão sempre escutar
nestas tardes de domingo
um triste sino a tocar...
Por estas ruas e praças
das cidades e do mundo
tento ouvir, no teu silêncio,
apelos de um vagabundo
que, exilado, perdido,
busca afinar os ouvidos
e teu silêncio escutar.
Desatenção
Meu olhar desatento
arrasta sobre a cidade
esquecido do azul do céu
e do algodão
de nuvens e garças.
Ziguezagueando nas calçadas
ou namorando o espanto
de algum distraído olhar,
vez em quando,
dança em flores e pássaros.
Mas o reverso da retina
é o inverso de tudo
e num arbusto florido
capta, furtiva câmara,
a sanha de outros insetos.
Necessário
Um lagarto descansa ao sol:
penso que ele medita sobre a vida,
o calor, o frio e outras coisas banais
que separam os quintais.
Um passarinho fez um ninho
num pé de erva-cidreira:
penso que ele calculou
a segurança de meu terreiro.
Uma pomba marrom
cata coisas no chão da horta:
penso que ela não se importa
com meus olhos tão atentos.
Um jato risca o azul do céu
alheio às coisas do meu quintal:
dispenso os muros pois, de fato,
nunca precisei deles pra voar.
Cidade jardim
Um raio de sol vadio desce
pelas encostas escorregadias da serra:
invade os edifícios de concreto,
ilumina os olhos das meninas
e tece, no seu tear de luz,
o manto das manhãs de cada dia.
E ao cair das tardes mansas
em sua tela, com mágico pincel,
risca no céu, em novas cores,
raios, nuvens e horizonte belo,
e, com cuidado vela sonso, frouxo,
o sono e os sonhos das meninas.
Nesse resquício de serras e horizontes
ainda existem algumas cores de jardins
porque raios de sol teimosos tecem
o manto de todas as manhãs
e, ao fim do dia, em cores de pincel,
pintam flores aos sonhos das meninas.
Encontro
Numa manhã, pela avenida,
o poeta vinha
no seu andar distraído
procurando pássaros
nas esquinas.
Atravessando a rua
corria uma menina:
apressada, em desvario,
aproveitando o tempo
do sinal que havia ali.
Foi assim que aconteceu:
os dois se chocaram
e, naquele susto,
o poeta deixou cair um verso,
mas a menina nem se desculpou.
Seguiu apressada
deixando as palavras
espalhadas na calçada.
Luz e sombra
Raios de sol
esparramados na calçada
lembram um quadro de Klimt:
o amarelo e suas sombras,
abraço luminoso de gozo e paz.
Um pardal apressado
passa pelos raios,
lançando na calçada
sua sombra urbana.
Eu, bestamente,
espalhei pelo chão
o meu olhar,
apanhei a inocência do raio
e a indiferença do pardal
e deles fiz este poema.
Ao riso das meninas
Abandonado aos encantos
de fragmentos de céu
descanso os olhos no pó
dessas torres de concreto
todas cobertas de vidros
e assim fico iludido
sem saber se estou olhando
para o céu ou seu reflexo.
Entre os roncos e buzinas
de ônibus e automóveis,
de pressas tão desmedidas,
coloco meu fone de ouvidos
e um sambinha assobio
como se andasse sozinho
nas trilhas de uma montanha
ou num barranco de rio.
Ao andar pelas calçadas
reparando nas pessoas
¬ crianças, jovens e velhos ¬
abro as minhas cortinas
e não reparo somente:
busco, então, compreender
a angústia dessa gente
e os risos das meninas.
Assim vivo numa selva
como se fosse um jardim:
tudo aquilo que abomino
meu coração me renega...
apesar desta cidade
e de tua indiferença
meu coração ainda tenta
bater feliz ao poeta.
Bem-te-vis
Regava minha horta sábado à tarde
quando um bem-te-vi chegou manso
e pousou no muro.
Olhou as gotículas de água que caíam sobre as plantas,
deitou um pouco e se espreguiçou,
depois saltou para uma pequena tábua entre os canteiros.
Ali, abusando de sua liberdade,
abriu as asas, se mexeu desfrutando inteiro
o frescor de plantas molhadas.
Tive saudades de minha infância
e das cachoeiras onde a gente se banhava
e, sem saber, éramos livres bem-te-vis entre canteiros.
No calor da tarde de ontem
eu regava a horta,
que enfeitava meu quintal,
quando um bem-te-vi chegou
e de mansinho pousou
sobre uma pequena tábua.
Com as gotículas d´água
que caíam em suas penas
foi aos poucos se banhando,
arrepiando, mexendo...
Fiquei com inveja do pássaro
e de sua liberdade.
Hoje eu tenho vontade
daquelas hortas regar,
mas já não existe a hortas
¬ nem quintal existe mais! ¬
e, na sacada do quinto andar,
só o bem-te-vi vem me visitar.
Racionalidade
Aqui existia um rio
aos poucos transformado
em esgoto a céu aberto.
Mais tarde, já muito fedido,
fora devidamente canalizado
e fizeram dele uma avenida sanitária.
Não levou muito tempo
batizaram-na com nome de deputado,
depois tiraram o deputado,
ficou só o nome.
Hoje ninguém mais sabe:
sobre o nome,
sobre o deputado,
sobre a avenida,
o esgoto...
sobre o rio
que existiu aqui.
Insensatez
Preguiça besta da vida
eira de vindas e idas
ruídos toscos,
prédios em construção
apelo à insanidade:
essa nova devoção...
Elevadores, guindastes,
telas de proteção...
poeira, quanta poeira!
ingresso de distinção:
vontade de subir aos céus
erguendo escadas do chão.
Pela janela do décimo
vê-se um risco de rio
de asfalto ou avenida:
vontade de mergulhar
silêncios, medos e risos...
gritos contidos no ar.
Meus hormônios, minha tez,
minhas memórias, meu tempo:
quando cheguei lá no alto
e fiz o primeiro verso
escorreguei no andaime
e caí num ato falho!
Que fui fazer nas alturas,
à beira da insensatez?
Flerte
Quando o ônibus parou no ponto
da Augusto de Lima ¬ já na descida! ¬
em frente à Imprensa Oficial,
vi uma menina linda que, nervosa,
digitava em seu smartphone.
Pensei comigo, ao repará-la,
que talvez escrevesse uma mensagem
para um amante ou namorado,
mas na minha doentia pretensão
desejei que se comunicasse
com uma tia, uma amiga ou um irmão.
Se assim fosse, tenho certeza,
seriam maiores as minhas chances
ainda mais se por um instante
ela parasse de escrever
e os seus olhos lindos
¬ que nem cheguei a ver ¬
para o rumo da janela dirigissem,
olhassem e vissem
que os meus olhos, enciumados,
desviaram-se do livro, ainda aberto,
somente para espiá-la
pela janela fechada de um ônibus.
Sonho
O dia nem bem amanheceu
e já soltei os bezerros,
tirei um pouco de leite
abri o poleiro
e joguei milho pras galinhas...
Antes de me lavar na bica,
colher umas frutas no pomar
e ouvir o sabiá,
que toda manhã vem cantar
e comer os restos de frutas
que penduro no varal...
Antes de sentar-me à mesa
ao lado de meu amor
e saborear um café
com as broinhas que ela faz
e que muito me agradam.
Porém é preciso lembrar:
que as hortas não existem mais,
que ao meu redor
só vejo concreto armado
e o frio cortante dos metais
ferindo fundo o meu olhar.
São coisas externas
que me afetam
e fazem-me sonhar.
Horizonte cinza
Um passarinho pousou
num pé de erva-cidreira:
cantou um canto lindo,
dançou em tortuosos caules,
beijou as flores simples de seus galhos,
sapateou no chão da horta, catou gravetos
depois voou para um abacateiro ao lado.
No sossego da cadeira de balanço,
ouvi, com gozo, seu delicado canto,
reparei a cor amarela-azul de suas penas
e julguei, então, no meu juízo de poeta sonso,
que ficariam melhor se cinza fossem...
Cinza como o horizonte das metrópoles
cinza como o asfalto e o concreto armado,
cinza como os corações ocupados,
que não batem pela cor do pássaro
nem se encantam com seu canto
ou com os versos de um poeta tonto.
As partes e o todo
Pela cortina entreaberta
reparo a chuva que cai
nas folhas das bananeiras
e num indiferente muro,
que insiste em separar
as coisas que não têm juntas
nem pedaços pra juntar.
O mundo é tecido, é laço
atando firme os pedaços
num todo indissociável:
o “eu” sujeito e as coisas
todas elas,
até as gotas de prata
que no quintal da escola
dançam nas dobras das folhas
caem e desaparecem
debaixo das bananeiras.
E o muro, quieto, mudo
ainda tenta separar tudo!
Sabor urbano
Degusto o nada,
a falta de paladar,
o sabor do vento,
o trépido das águas
de chuvas torrenciais
que banham os estreitos
da paisagem urbana.
Reparo no minguado céu
uma cortina que rasga,
em fragmentos de nuvens,
a roupagem de chuva caída
e depois tece, lentamente,
arco-íris brancos
atrás de minúsculos jatos.
Assim deixo deitar
sobre a alva folha
uma caneta azul
que, acariciando a palavra,
canta o silêncio do traço,
nina e faz dormir, sob afagos,
os desencantos do verso.
A motorista de ônibus
"É apenas com o coração que se pode ver direito:
o essencial é invisível aos olhos".
Perfume de Mulher, 1992, Martin Brest.
Às seis da tarde
bati o ponto.
ponto cheio:
falas, risos,
esperas e pressas.
O ônibus parou,
lotado:
abriu as portas
e demorou um tanto
que já não sei precisar
Fiquei à espera:
desce gente,
gente sobe e, de repente,
meus olhos ávidos
encontraram os dela.
Foi quase uma inesperada
tempestade de verão:
hão de ver o quanto
meus olhos ficaram
deveras espantados.
Ao embarcar fitei seus olhos
que já antecipavam
alegre boa tarde:
amei o som de sua voz
e seu doce e adorável riso...
Para o desembarque,
há que se decidir:
sinalizei, ela abriu a porta:
desci, e pela última vez,
vi seus olhos no retrovisor.
Dia seguinte
A tarde continua morna,
as ruas estão desertas,
vazias como noites sem sonhos.
Hoje nem tenho que lavar roupas
para, propositadamente, me molhar.
As lojas estão fechadas,
a cidade dorme seu sono de paz
como se criança fosse:
pena ser somente a ilusão
etílica de noites e ceias.
Acordei cedo
para ver a calma da metrópole
e sentir na alma
a falsa sensação de paz
e esse vazio de ruas sem carros.
Amo essa calma!
pena que seja apenas
ressaca de muita bebida:
Natal farto de festas
e carente de abraços.
Bem-te-ouvir
Na alameda do Vapuruvu,
de silêncio e solidão gostosa,
ouvia-se o bem-te-vi
com canto de impedir
notar-se pequenino pássaro
que lá do alto pedia
silêncio para se ouvir
seu tich! tich! titich!...
Devoto
Que bom seria:
se a praça de meu bairro fosse Santa,
se acolhesse em seu colo as criancinhas,
se permitisse a tagarelice dos meninos,
se não censurasse os namorados em seus despudorados beijos,
se se oferecesse aos adultos em agrados e delicadezas,
se se sentasse ao lado dos velhinhos e os ouvisse demoradamente,
se permitisse aos bêbados recostarem em suas curvas suas atordoadas cabeças
sentindo o cheiro de amantes e sonhando com outras Teresas.
Organicus
O sol brilha
dourando imponentes edifícios
entre os quais tremula, solene, uma bandeira
tendo ao fundo o azul calmo do céu
e aos pés do mastro
uma multidão que dorme
no conforto de abrigos de papel.
Divagando
Atrás de transparentes vidros temperados,
entre muitos edifícios de concreto,
vê-se despontar distante a serra
e depois dela, para além das nuvens,
a certeza de que o mundo se encerra
na simples abstração de um momento.
Na paisagem vista por instantes
o poeta seu olhar descansa
e na morbidez de fim de tarde
adormece na cadeira de balanço.
Ré (pública)
Ladeiras, ladeiras, ladeiras:
quantas são nossas ladeiras?
O Brasil é bagaceira:
fácil demais a descida,
escorregadia, facínora;
faz-se dama, santa, ética,
mas no fim de tudo isto
passa rasteira naqueles
que tentam escalar a subida.
Vestidos de verde e amarelo
pensam nas matas e no ouro,
mas ignoram Avis
Bragança, Áustria, Hamburgo
e suas delicadas cores;
defendem o amor ao Cristo
e também à ditadura
e nesse embate a República
é a família, o cachorro,
o neto que vai nascer
Faço-me surdo e, calado,
mesmo escorregando escalo
essa difícil ladeira.
Copa 2014 (I)
Quando chove ou venta frio
e estou chegando em casa
fico pensando comigo:
que bom o conforto do abrigo,
um lugar onde morar!
Quando a chuva cai na pele
e o gelo enruga a gente
sinto-me fraco, resfrio,
penso até que bom seria
se a chuva só caísse
quando em casa eu chegasse!
Mas se a chuva cai no outro
e o inverno é implacável
passo depressa por ele
¬ nem noto sua presença! ¬
deitado em minha calçada
é quase uma transparência.
Quando a vida incomoda
e chove, e cai tempestade,
penso na Copa do Mundo,
no sentido que ela tem,
no cerne desta cidade,
no outro e em mim também.
Embriaguez (I)
Estou deveras preocupado com meus olhos:
eles têm cometido excessos!
são vistos frequentemente
cambaleando pelos canteiros centrais das avenidas
ou tropeçando nas esquinas e calçadas.
Receio que essa bebedeira possa levá-los à completa perdição,
a se sucumbirem na dependência e na desgraça,
que se acabem como famintos habitantes urbanos
perambulando pelos viadutos
a mendigar paisagens.
Transito
Ao poeta Arthur Rimbaud
Deita a noite sobre as serras e a cidade
beijando carinhosamente as luminárias,
que ao toque delicado se enrubescem
e enchem-se de brilhos e vaidades.
A vida pulsa nas calçadas e avenidas
onde, confusos, os carros se embaralham
e na pressa as pessoas se arriscam
à busca de amores, bares e bebidas.
Nesse trânsito urbano um motorista esquece
¬ enquanto pra garagem se dirige ¬
o sinal e a faixa branca de pedestre.
E o moço atropelado ainda insiste
em tecer, naquelas linhas paralelas,
uma grinalda vermelha ao asfalto triste.
Ave de Minerva
Aos gregos e gringos
Eu vi uma cidade se vestir
para receber nobres convidados,
vi homens velhos e jovens estrangeiros
se esbaldando em luxo e vícios
e sendo por todos reverenciados,
simplesmente por serem portadores
ou mensageiros
de um Deus chamado Euro.
No escuro da noite eu vi
muitos governantes ocupados
sugando o sangue de seus companheiros
para com ele, talvez, fazer chouriço
e servir como iguaria aos empreiteiros,
simplesmente por serem adoradores
de uns bezerros
e crerem num Deus chamado Euro.
À noite eu tive um pesadelo:
sonhei que máquinas do mundo inteiro,
ignorando os governos ocupados,
com milhões de engrenagens, pás e esteiras
depuseram sem perdão o tal Deus Euro
e depois, não satisfeitas,
degolaram, um a um, seus seguidores.
Pichar
Na epiderme da cidade,
na concretude dos muros,
na sinuosidade dos viadutos
e na faixada de hotéis de luxo:
os signos são apelos brutos,
tapas na cara de uns poucos
que pensam que civilidade
são edifícios sem gente.
Embriaguez (II)
Esse sol é fogo e raio
queimando fundo a retina.
é como tardes de maio
ou como amor de menina:
faz pular feito cabrito
os corações dos pirralhos.
É como dor, como grito,
poemas de muitas rimas;
é paisagem, lua, céu,
que à janela descortina.
É como sonho de noiva
envolta em tecido e véu
e que a gente imagina
ocultar tanta beleza!
Parece até lua cheia
em praias de fortaleza,
brisa de mar que balança
com toda delicadeza
os cabelos das meninas.
Parece onda revolta
batendo forte em rochedos:
acende um fogo por dentro,
revela tantos segredos!
Por fim só fica o vazio
nas pálpebras que cobrem de vez
a luz do sol da manhã
e faz pensar que tudo isso
não passa de conversa vã
de bêbados voltando pra casa
no auge da embriaguez.
Visita
Na minha rua
tem vizinhos importantes
que só vejo vez em quando
abrindo ou fechando o portão.
Na minha rua
tem muitos comerciantes
que só me dão importância
quando me querem freguês.
Mas, na minha rua
tem também um lindo ipê
que a toda primavera
veste-se de rosa e vem me ver.
Voo, olhar...
Um casal de gaviões
voa nas encostas de concreto
pensando que os edifícios
são os abismos das serras
onde as rapinas procriam.
Andorinhas dançam
sobre o abandono da avenida
no afã de rio comprido
e ausência de automóveis
nos verões de tardes mornas.
Das janelas de edifícios
arquitetos e urbanistas
contemplam, cheio de orgulho,
suas magníficas obras
pensando até que são belas.
Meus olhos ávidos mendigam
a caridade de um rio qualquer
ou o abandono das serras
onde possa vagar naturalmente
reparando gaviões e andorinhas.
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