Enquanto deus joga birosca no imenso lençol do universo alguns meninos travessos seguram-lhe as quatro pontas?
Sombras e
silêncios
As estrelas eram
apenas
pequenas contas de
um véu
que a carruagem da
noite
lançou sobre a
cabeleira:
pelas descidas das
montanhas,
pelas subidas das
ladeiras,
por onde seu carro
de bois
toda noite vem
cantar
o seu silêncio ao
luar.
Aves se recolhem
aos juás
¬ lugar de conforto
e abrigo ¬
uma mãe-da-lua, sem
tardar,
deita protestos na
noite
e de uma moita de
vassourinha,
onde um beija-flor
fez ninho,
surge esguia uma
preá,
que no silêncio das
sombras
sobre a cabeleira
se esconde.
Mas eis que uma
coruja,
obscura
sai da toca a caçar
e voando no escuro
com seus ouvidos
atentos
busca um ruído de
brisa
percebe os rumos do
vento
estica as asas e se
lança
nas sombras da
cabeleira
atrás da pequena
preá.
Passado o carro da
noite
vem seu candeeiro a
clarear
a barra do dia
seguinte...
Em toda eternidade
passada
e naquela que é
vinda
nem eu, nem ninguém
vai conseguir
mudar:
o voo das aves
noturnas,
o destino das
preás.
Incógnito
Quando
eu nasci
ela
já tinha trinta e seis:
não
éramos dois,
nem
mesmo três.
éramos
mil...
milhares
de nós mesmos.
Hoje
tenho mil
e
ela acaba de nascer!
Primordial!
Água cristalina,
suja, turva, opaca...
Reflexo, espelho,
tudo ou nada:
liquido cristal.
O vento roça
a rocha
e, em movimento,
costura o tempo
na sua fina membrana:
oca, frágil, transparente.
A água morna
evapora
e o que ora resta
corre, escorre
em queda sonora
serpenteando sempre
à busca de amar,
no mar,
o lugar onde ela mora.
A rocha é fenda:
adormecida, calada!
racha-se
ao som do inaudível nada...
emudece, acinzenta,
resfriada, lapida-se,
desintegra nos braços de uma encosta
despe-se ao despudor de cachoeiras,
enrosca-se nos barrancos dos rios.
Assim a água e a rocha
¬ natureza viva ou morta! ¬
cantam, ao som do silêncio,
a pura transparência do vento,
o movimento do nada,
a essência primordial do tempo.
De
novo!
Dizem
os amigos,
num
banho de champanhe,
que
o ano foi bom.
Prefiro
a pouca transparência
de
uma taça de vinho tinto
para
expressar o que sinto.
Como
dizer que foi bom
sabendo
que, a depender de nós,
poderia
ser melhor?
Prefiro
quebrar minha taça,
esquecer
pelo caminho os cacos
e
romper o círculo de giz
que
eu mesmo traço...
São
os inconformados
que
encontram atalhos
quando
o chão lhes falta.
Duvido
Sabe
nada
disso
tudo
que
pensava
que
sabia,
mas
tinha dúvidas,
embora
ignoradas,
de
ter certeza
de
alguma coisa
ou
quase nada!
Dúvidas
Tento entender o tempo
quando
olho no espelho
desse
céu fundo e azul.
Tento
entender o vento
quando
sopra em outubro
folhas
secas nas calçadas.
Tento
entender a mim mesmo
quando
olho a paisagem
com
olhos tristes e úmidos.
Tento
entender essa gente
mergulhada
em seus ecrãs
a
reclamar das estações.
Estações
Encantos de raios de sol nos muros dos quintais
riscam
a sombra de passarinho em voou ligeiro.
O
céu, de um azul macio e lerdo vento,
tece
com frios da manhã agostos em outubro.
Sou
longe onde o meu olhar descansa:
distante
de mim, distante do chão de meu verniz.
Dispenso
os pés, fardo de meu velho corpo,
faço-me liberto de meus círculos de giz.
Eu,
tecido
Entre o abismo do passado
e o
incerto futuro
caminho
em desequilíbrio
sobre
fio frágil e partido.
Em
cada nó desbotado
desse
roto fragmento
tento
entender os remendos
de
minha indecifrável história.
Assim,
em desequilíbrio,
trôpego
e tonto, até duvido
dos
sentidos e dos fios puídos,
que tecem minhas memórias.
Autoajuda
Nunca cultuei meu corpo
pois
sei o quanto ele é frágil;
não
partilho sentimentos
pois
sou temperamental.
Quanto
às fotos de montagens
com
efeitos de animação
e
frases de autoajuda:
não
compartilho nem comento,
pois
na maioria das vezes
as
máximas não se sustentam
sob
o rigor da episteme.
Dos
vídeos perdi os efeitos,
das
redes rasguei o tecido:
eis
aqui meu próprio fio
já desgastado, mambembe!
Chuva
O oceano
é
demais para um riacho
embora
eu ache desnecessário
que
seja perene ou seco
como
chão de açude.
Tento provar,
antes
mesmo de chover,
dessa
timidez de gota
que
também é mar
sem perceber.
Coisas
pequenas
Cato pedrinhas num riacho
sem
saber se ele é o mesmo
de
alguns instantes atrás:
nunca
o reparei direito
e
sequer eu fui capaz
de
seguir seu serpenteio
até
o encontro com o mar.
Confesso
não consegui
de
seus vapores reter
uma
partícula sequer
também
não contei as gotas
dos
temporais de setembro,
das
chuvas mansas de março.
Não
cavei a terra dura
para
ver e investigar
cada
gota nela infiltrada:
se
se perdera em labirinto,
se
se infiltrara em alguma árvore
para
em seiva evaporar.
Não
cavei fundo no chão
para
poder acompanhar
as
águas dos lençóis freáticos
onde
as gotas lavam os sais
e,
nadando devagar,
voltam
de novo ao riacho.
Que
dizem as pedrinhas que cato
à
beira de algum riacho?
Contam-me
histórias fantásticas:
falam
de imensas montanhas
a
zombar de outros regatos
cujos
vapores humildes
em chuvas
se transformaram
e,
esfriando as rochas quentes,
aos
poucos as lapidaram.
E
eu, quem sou?
Mesmo
que ainda prefira
não
preciso mergulhar
na
imensidão dos astros
e
nas distâncias abissais
para
saber tão incapaz
de
ter certezas sobre mim
e
sobre pedrinhas banais.
Philos ou
sophia?
A physis é um martelo
em
infindável martelar
no
vai-e-vem de uma roda
que
nunca para de rodar:
tal
qual um rio, qual a moda,
no diá-tem abrindo estradas,
caminhos
infindos dos gregos,
máxima
pérola de Hegel...
Incertezas,
incertezas!
Armados
de ceticismos
tateamos
no escuro
uma
tese do passado
à
busca da antítese do agora:
tolus ao alcance da mão,
alívio
incerto às dores,
feridas
mortais do real:
luta
dura, luta inglória...
síntese lapidar da história.
Letras
tortas...
A
letra torta:
fecha
e abre portas
faz
soprar o vento,
por
fora, por dentro,
no
meio do rio
tinha
um...
Barco
balança
nas
águas turvas
e eu
troço
do
fio de espuma
que
ele traça
em
voo de...
Pássaro
sonso
deita
asas vagas,
faz
acrobacia
por
cima das águas,
quer
ser avião:
dança
e faz...
Verão
assustados
que
o pescador pesca,
com
seu barco vesgo,
um
peixe elétrico
¬
talvez uma enguia! ¬
pra
recarregar sua...
Conjecturas
Não
tenho nome:
tenho
uma velha tradição
expressa
em signos.
De
nada me vale as aparências!
Tudo
que sei
é
carpir os dias e cultivar
minha
condição humana.
Não
me considero só!
A
solidão é para mim
um
recolhimento especial
para
rever os guardados.
Não
quero ser imortal!
A
imortalidade é uma ilusão
que
só vale o tempo de quem fica
e
não consola a angústia de quem vai.
Não
tenho amig@s!
Tenho
um “eu” construído
com
tudo de mais precioso e belo
carpido
no campo de minhas relações.
Por
tudo isso
às
vezes sinto que sou feliz!
Homo arrogans
Os
lírios,
na
sua fragilidade de caules ocos,
rompem
a terra seca do serrado
e,
em pleno mês de agosto,
brindam
com suas flores lindas
os
olhos tristes do caboclo.
Nenhuma
ciência
com
suas invenções e suas bombas,
nenhum
exército
com
sua arrogância, suas patentes e armas,
nenhum
ditador
com
seus carrascos e porões,
nenhum
capital
com
seus investimentos e mentiras
jamais
conseguiu produzir algo parecido.
Ensaio
pouco
Uma formiga, um caracol,
um fio de água em riacho,
serpenteio entre barrancos e
pedras
uma pequena queda
em ensaio de cascata
o assoviar do vento
nas folhas secas das matas
inverno, céus, infernos
e o sentido de viver
sem saber de nada.
Ignorância
Vinha
sem rumo,
Resolvido
a atravessar a rua.
Perguntei-lhe
¬
perguntas, para que perguntas? ¬
¬
Qual ônibus o senhor quer tomar?
Respondeu-me,
Sem
hesitação alguma:
¬
Pandeiro ou violão.
Fiquei
confuso. Ele não!
A
memória só falseia
Quando
a desviamos
Para
algum escuso interesse:
Aquele
homem fora
Tão
somente verdadeiro!
Certezas
A
natureza prenha
treme
de frio, queima de febre
envolta
num cobertor de cinzas
a
respirar poeira, a engolir discursos.
Sangue,
feridas, erupções,
pele
ressecada, pulmão doente:
vermes
de continentes
infestando
o tecido azul do céu e mar profundos.
Sentado
numa pedra fria
olho
as tempestades de areia,
os
tsunamis, os vendavais...
Velo
a natureza enferma,
durmo
o sono da cidade,
rumino
algumas certezas.
Estupidez
Preciso
sepultar minhas vaidades
pois
descobri, embora tarde,
o
quanto sou insignificante
diante
da complexidade do universo.
Só depois
dessa certeza
pude
finalmente compreender
o
tamanho de minha estupidez.
Temporal
Quando
na madrugada o temporal caiu
uma
rosa em meu jardim desabrochou:
toda
linda, vermelha, cheia de vida,
qual
sangue em minhas veias, qual feridas.
E na
mesma manhã daquele dia
ninguém
reparou direito aquela rosa:
só
um beija-flor passou veloz,
ao
ritmo pulsante de uma vida.
Do
temporal retive alguma água,
reguei
uma semente em meu quintal
e
fui carpir meu hoje e sempre.
Mas
antes de sair me perguntava
sobre
a rosa, sobre a semente germinal,
sobre
as cores que desbotam de repente.
Conjecturas
Sempre
quis saber
mas
nunca soube
do
que esse mundo
é
feito.
Será
que é feito de sonhos
ou
de realidade pura?
O
mundo será um fenômeno,
uma
máquina drummondiana
ou
uma fantástica criatura?
Será
que o mundo é concreto
ou é
líquido e também gasoso?
Será
que tem algum sabor?
Terá
ele gosto de amora
ou
de caju?
Conheço
nada do mundo:
de
sua cor, sua textura,
tão
pouco de seus sabores,
mas
quando te beijo
sinto
gosto de amora
e
quando choras
sinto
que tua face
tem
o sabor de caju.
Sendo
assim conjecturo:
se o
teu beijo e o teu pranto
fazem
parte de meu mundo
e se
o meu mundo é você
então
concluo que,
pelo
menos no sabor,
os
dois devem parecer.
É
tudo que sei.
Minha
devoção
O
poeta quando canta
solitário
no seu canto
sempre
pensa ou intenciona
que
no vão de seus desertos
alguém
possa escutá-lo.
O
que entristece ao poeta
é
saber-se não ouvido,
mas
como poderia ser
se
ao cantar se refugia
na
sua solidão doentia?
Por saber-se
não ouvido
canta
mais alto e até rouba
dos
passarinhos outros cantos
ainda
mais tristes e lindos.
Ele
acredita que um dia,
depois
de já ser passado,
algum
maluco ou lunático
possa,
no silêncio, escutá-lo...
Não
há devoção maior que esta!
O
verso é, bem mais que a vírgula,
a fé
inquebrantável do poeta.
Enigmático
Não
posso me furtar à realidade
¬
porque é crime ¬
mas,
ainda assim,
nego
toda aquela que existe
porque
não devia
negar
nem existir.
Talvez
seja melhor
fazer
charme
ao
tempo e à hora
¬ e
ignorar o resto ¬
que
deixar o mundo,
concretamente
fútil,
falar
por nós
aquilo
que a palavra,
embora
tente,
nunca
consegue dizer:
o
universo é mesmo
essa
insignificância de ser
que
vai e volta
sem
saber aonde vai
nem
para onde voltar.
Culinária
Alecrim,
alho, cebola,
coentro
verde pra cheirar,
uma
ou duas folhas de louro
¬
perfume de manjericão! ¬
uma
pitada de prosa,
versos
e rimas à gosto,
um
filme e uma canção.
Tudo
fiz pra agradar
aos
meus nobres convidados
que
degustam os meus poemas
mas
não sentem o paladar.
Talvez
de tanto ter fome
já
perdi os meus sentidos
e
ofereço aos convivas
alimentos
mal cozidos.
O
pecado dos homens
A
andorinha vinha
navegando
pelos ares
fazendo
curvas rasantes
entre
os muros dos quintais,
querendo
viver sozinha
seu
destino de verão.
Mas
enquanto ela brincava
com
sua leveza de asas
na
mais pura liberdade
pensou
que seu horizonte
era
o céu que se espelhava
num
edifício comercial.
E
então a avezinha
vendo
aquele céu comprido
esqueceu
do edifício
que
haviam ali construído
e
num átimo encerrou
sua
liberdade de voo.
Na
calçada ali caída
¬
ainda a fremir suas asas! ¬
nas
minhas mãos a peguei
e
por três dias tentei
salvar
seu sopro de vida
e o
pecado dos homens.
Meu
querer
Quisera flores plantar
na concretude das praças,
ver serpentear riachos
no asfalto a fazer graça.
Quisera que os edifícios
de folhagem se vestissem
e que nas suas janelas
os passarinhos cantassem.
Quisera que em toda varanda
beija-flor pudessem entrar
e ao beijar as meninas
as ensinassem amar.
Quisera que o ronco dos carros
fossem lindas sinfonias
fazendo brilhar a lua
em plena luz de todo dia.
Quisera que os acidentes
fossem uma dança engraçada
e a mutilação e morte
fosse teatro, mais nada.
Quisera que todas as moças
as crianças e os rapazes
pudessem escolher seus caminhos
com toda certeza da paz.
Quisera que os namorados
fossem o ideal e ainda
que nunca fizessem sofrer
o coração das meninas.
E de tanto isso querer
acabei nem percebendo
que o meu querer impossível
é mesmo o que estou querendo.
Fidelidade
Acusaram-me
de ser infiel aos meus poemas.
A
tal acusação respondo:
por
que devo?
a
própria eternidade
nunca
foi fiel a si mesma:
à
vida ela reservou a morte;
ao
amor a solidão e a dor...
Só
os sonsos, porque não pensam,
conseguem
ser verdadeiramente fiéis!
Cético
Talvez
por falta de sentido e água
ontem
me banhei em ceticismos
e
fiquei assim: frio e descrente
na
eficácia dos meus banhos de antes.
Já
não me atenho às velhas ideologias
não
mais creio aqueles vagos discursos
meus
heróis rasgaram seus ideais:
chutei
os pedaços... não os creio mais.
Agora
cético, as palavras de ordem,
os slogans, as bandeiras e os signos
são
apenas estímulos à minha troça e riso.
Se
existe alguma coisa que me move
é a
força e vida dessa imensa multidão
que
constrói palácios, ama e depois pede perdão.
Meus
heróis
Hoje
imploro liberdade!
estou
cansado de seguir falsos heróis.
abomino
esses folgados,
que
se vangloriam de apontar caminhos,
mas
que se encontram bem mais perdidos do que eu.
quero
ser igual a essa gente simples,
esses
anônimos que andam por aí
e,
diariamente,
constroem
coisas insignificantes.
Neles
talvez possa encontrar sentido
para
as coisas que existem:
palácios,
museus, galerias, teatros e escolas,
onde
meus antigos heróis, cheios de verbos,
descrevem
o tão sonhado paraíso
sem
saberem distingui-lo do inferno.
Sobre
saber
Revisando com cuidado
os lugares percorridos ao longo de minha vida;
relendo velhos escritos, alguns papéis
desbotados
onde risquei, com cuidado,
fragmentos de memórias;
revisando, frase a frase, as muitas lições
decoradas
no tempo em que caminhei,
percebo que nada sei:
sobre o mundo, sobre mim,
sobre nós e sobre o próprio saber.
Pensei
que sabia de tudo
quando
consegui ir sozinho,
ao
engenho dos Antunes:
regar
hortas, colher frutos,
catar
pinhas nas chapadas.
Pensei
que sabia de tudo
quando,
pela primeira vez,
fui
à venda dos Ribeiros
comprar
óleo de mamona
para
acender candeeiros.
Pensei
que sabia de tudo
ao
me deitar, pensativo
à
sombra da gameleira
e,
vendo montanhas distantes,
sonhar
um dia vencê-las.
Pensei
que sabia de tudo
quando
brincava de roda
¬ eu
era então pai Francisco! ¬
tocando
na imaginação
um
violão sem cordas.
Pensei
que sabia de tudo
quando
escrevi uma carta
denunciando
a escola,
mas era
apenas criança
brincando
de militância
Pensei
que sabia de tudo
quando
convidado me fiz
para
ser um dos jurados
num
concurso de poesia
de
escola secundária.
Pensei
que sabia de tudo
quando,
já na faculdade,
levantei
a voz e, firme,
externei
novas ideias
pensando
que tudo sabia.
Hoje,
já velho e cansado,
ando
nas mesmas estradas
e
tudo ainda me espanta:
pensei
que sabia das coisas,
mas
não sabia de nada!
Macerar
Como
é duro esse papel!
canetas
a macerar palavras,
forjar
cada letra e depois
encaixar
sílaba a sílaba
fazer
sonetos, sextilhas,
literatura
de cordel.
Como
é trôpego o poeta!
bambo
e cambaleante
a
vagar nas madrugadas
como
um Miguel de Cervantes
ou
um bêbado qualquer
dormindo
pelas sarjetas.
Como
é longa a empreitada!
esse
eterno caminhar
nas
estradas da escrita,
pelas
esquinas e bares,
entre
adeus de partidas
e
emoções de chegadas.
Mas
é desse eterno carpir
¬
minha mãe sempre dizia! ¬
é
desse labor desmedido
que
o sentido da vida
nasce,
fica fornido,
definha,
desbota, esvazia...
In
(certezas)
Santa ignorância a minha!
querer saber alguma coisa
sobre as coisas e o mundo,
quando sei que pensar
é refletir, em espelhos,
aquilo que eu gostaria de ser,
mas que nunca fui nem serei.
O
que sei sobre o passado
se
tudo o que aprendi
foi-me
contado por outros
naquilo
tudo que li?
O
que saberei do futuro
se
lá nem sei se estarei
e,
em se estando, talvez,
já
morto nada verei?
Que
posso saber do presente
se,
a contê-lo nunca atrevo,
se
deixo que ele me escape
no
instante mesmo em que escrevo?
Que
posso dizer de mim
se
nunca soube quem sou
e
tudo que creio saber
foi
alguém que me contou?
A
única certeza que tenho
é-me
mostrada em instantes
enquanto
escrevo bobagens
sobre
dúvidas constantes.
Que
bom para o mundo seria
se a
gente não pensasse!
quando
se pensa se cria,
mentiras,
ilusões, disfarces.
A
Manoel e outros tantos
Tento
decifrar esse poeta de cisco
essa
insignificância de sarjeta.
Todos
os dias, antes e depois do café,
faço
meu ofício: junto ferramentas
disseco
palavras sem rimas,
martelo
predicados e verbos
e
penduro-os em úmidas paredes...
justifico
minha ciência de enciclopédia.
Menos
que lesmas e gosmas,
tento
ser sombra de ciscos
sonhando
sarjetas.
A
invisibilidade do eu
Tantos
amores
tantos
sonhos loucos
tanta
imensidão de céus.
O
universo parece demais
para
minha transparência encardida de cristal de areia.
Por
isso, à sombra dos outros
brinco
com o musgo que encarde o cisco.
Satisfaz-me
ser o cuspe
sobre
o qual a lesma traça seu caminho de gosma.
Ao
velho Chico
A memória do rio é também
a memória do pescador.
Um barco balança em seu
líquido de prata e na solidão da noite observa o silêncio de seu sono.
Inumeráveis estrelas
miram em seu leito, com vontade de beber.
A lua baila em suas
margens ao ritmo das ondas.
O Velho Chico é um
mistério que só o dourado conhece quando mergulha em sua intimidade.
Palavra
escrita
Por mais
que tente o texto não flui.
Disperso, o olhar passeia
e se detém na cruz, nódoa de medianeira em arranha-céu, a brandir sua lança de
para-raios contra a transparência azul.
O sol da tarde reflete,
em vidraça longínqua, seu brilho dourado. Uma faixa de vende-se tremula, em
janela de apartamento, qual bandeira branca pedindo paz. Na solidão da tarde
reclamo a companhia pro café.
Quisera descrever a
simetria encardida de lajotas, as ondulantes copas das palmeiras, o ruído do
trânsito, a faixada reluzente de edifícios comerciais... Dizer do céu azul de
outono e seus mistérios, em cuja transparência o olhar mergulha e se afoga em
segredos... Infinitos, indiferentes...
Mas a mão vacilante do
poeta faz pesar o traço da caneta e a escrita se queda, arquejada pelo peso do
lençol da memória. O poema se lança no branco do papel, qual pingo de tinta
atirada sobre um muro, onde olhos múltiplos miram a palavra escrita...
Os
sentidos
O cinema para ser arte
não precisa ter astros nem estrelas. Na maioria das vezes a adoração faz com
que o espectador se curve cego diante de falsos deuses deixando escapar da tela
indecifráveis signos.
O olhar não reclama
diplomas. Ele é certificado pela apreensão que faz do mundo. Desconfie do cartaz estampando astros e
estrelas em trajes de deuses: Quase sempre são apenas espelhos dispostos em
salões imperiais onde o poder procura projetar ilusões.
Foi
assim
Longe,
muito
longe de tudo
num
lugar além do tempo
o
soberbo dó
namorava
uma partícula.
entre
danças,
afagos
e carícias,
embalado
por um sopro,
seus
passos desenharam
universos,
aglomerados e galáxias.
Noite
curta aquela!
apenas
o átimo,
sutil
movimento:
quando
o dia chegou
dó
se fez mi e foi dormir
e a
partícula
¬
coitada! ¬
sem
seu precioso par
cavalgou
em solidão
por
todo reino de ré.
Fogo
é tudo!
e
foi então
que
a partícula
enamorou próton
e
cheia de gozo, fé e fá
engravidou-se.
Desiludida
de tudo
lá
se foi
pelo
infinito do nada
e na
solidão vagou
até
que, num hospital celeste,
nasceu
sol:
cresceu,
vestiu-se de luz
e,
cheio de si, fez-se rei.
Natureza
O que a harmonia produz
no tempo e no espaço do nada,
no vazio da memória
é gravidez de sonhos,
sentimentos e afetos.
Talvez o universo seja
produto de uma dança
no embalo de canções primordiais
ao som de inaudíveis instrumentos musicais.
Pequenas
coisas
É
preciso espiar as pequenas e estreitas janelas,
que se abrem ao concreto das cidades
mesmo
que, ao fim do dia,
o
olhar descanse
sobre
o branco de uma folha não escrita
ou
se perca entre abstrações
e
rabiscos incompreensíveis
deitados
à margem da agenda.
É
preciso olhar as pequenas coisas
para
melhor compreender as grandes.
Ninho
de pássaro
A
natureza tem seu jeito especial
de
mostrar encantos:
um pássaro que canta
a
felicidade de ninho e filhotes
bem
agasalhados nos galhos da acerola,
outros
tantos que encantam
ainda
mais
o
amanhecer do dia.
Saber
viver
O
sentido de viver não está na longevidade,
nem nas
edificações monumentais
e
muito menos
na
ingênua esperança da vida eterna.
O
sentido de viver
está
nas coisas simples
que
muitas vezes,
preocupados
com a eternidade,
deixamos
escapar aos olhos...
Viver
é saber morrer
e
para saber morrer
é
preciso cuidar das coisas belas e simples
que
encontramos pelos caminhos.
Meu
papel
Amo
a música e a poesia
porque
elas
nunca
me negaram os sentidos:
mesmo
sabendo que não sei cantar
nem
versejar,
num
papel qualquer me deito,
durmo
e sonho
cantando
e fazendo versos.
Passageiro
Amanhece
E já
me sinto só.
Viajar
é bom se bem acompanhado:
co
contrário a volta pode ser melhor.
Penso,
e
pensar adoece os olhos
e
também a alma.
Sinto-me
velho
largado
à beira do caminho
por
um trem desgovernado
no
qual o amor partiu
sem
dizer adeus.
Esta
manhã é fria
como
um passageiro desconhecido
que,
olhando pela janela,
não
percebe as lágrimas
nos
olhos da menina
De
resto,
cato
sonhos de paisagens
na
certeza de que a vida
é
mesmo breve!
Do uso e da beleza
Antes de colher uma
flor
em meu jardim
resolvi
fotografá-la
para não perder as
referências
de seu estado
natural.
Num caderno anotei:
a data, a hora
e o exato local de
seu
desabrochar.
Cuidadosamente
contei
e recontei suas
pétalas
examinei seu
preciso diâmetro
e, retirando uma a
uma,
submeti a massa de
suas partes
observando que
tinham diferenças
quantitativamente
significativas.
Revendo tudo
descobri que a soma
das partes
era relativamente
igual ao todo,
mas não encontrei
um fim
que, pelo uso da
razão,
justificasse sua
utilidade e uso.
Deduzi então
que ela não tinha
beleza.
Flor de fato
A flor do poeta
não é a mesma da ciência.
a realidade do mundo
não cria conceitos.
ela simplesmente
é real desde sempre.
O poeta e o cientista
vieram depois,
quando o mundo já era
a realidade que sempre foi.
Assim, o primeiro sonhou,
o segundo conjecturou e deduziu,
mas a realidade do mundo nem ligou
para os sonhos do poeta
nem para a utilidade das coisas
que o cientista jura que descobriu.
Que
nada!
O que me incomoda
quando tudo parece evaporar
no calor da tarde?
Um pingo d´água na janela,
a falta de palavras,
o vazio?...
Não existe o nada:
a própria falta de sentido
já se faz sentida.
Lições que aprendi
A legítima guerra
é a revolução que
travamos
com as armas
internas
de nossas próprias
convicções.
Seguir líderes
é ser prisioneiro
do outro:
só seremos
verdadeiramente livres
quando tivermos
clareza
do que nos move
esse mundo
e formos capazes de
enfrentar
os leões que nos
espreitam.
Matematizando
Atenho-me ao chão
que sustenta
a leveza de meus
passos:
se distancio de mim
ou se fico
chateado,
nego uma trilha
qualquer
para aliviar a
pressão
e conto os vinte
quilômetros
que faço num passo
só
ao ritmo do
coração.
Dois passos a cada
metro
não é difícil contá-los
é só multiplicar
vinte mil
pelo número de trás
e verão que são
quarenta.
¬ corrijo: são
quarenta mil! ¬
e cá entre nós,
meus amigos
essa quantidade de
passos
não é qualquer que
aguenta.
Em que tempo isso
se dá?
são três horas e
dez
que só de pensar
dói os pés
e nos pede pra
parar.
cento e noventa e
cinco
minutos a caminhar;
onze mil e
setecentos
segundo a separar
o lugar de onde saí
daquele onde vou
chegar!
Então vejamos,
enfim,
no que isto pode
dar:
a cada um vírgula
sete
divisões de um
segundo
dois passos
ligeiros deixam
um metro ficar para
trás...
se a conta ficou
difícil
vamos ver se ela
melhora:
que tal contar a
distância
de casa até a
escola?
Meu chão
Que importa:
a incompletude do
corpo,
a fisiologia das
partes?
O chão que o homem
pisa
não é de terra nem
exige pés:
ele se constitui de
ideias
e engajamento de
fato...
O chão humano é
cultural:
pede postura,
não concretude de
asfalto.
Pegadas
Às vezes fico pensando
no rápido esgotamento do tempo
causado pelo tropel das estações.
Isso provoca em mim
grande angústia e um medo particular
de não deixar pegadas no mundo.
Outras vezes
refletindo melhor
digo a mim mesmo:
e daí!
que diferença pode
fazer tais pegadas
já que não as
testemunharei?
Acho que é melhor
olhar o mundo
enquanto tenho minhas
lentes.
e, como diz Pessoa,
não pensar,
porque pensar é
estar doente dos olhos!
Outras sextilhas
Uma letra tomba de
lado
por falta de mínimo
apoio:
desarticulada e
frágil,
no seu difícil
aprumo,
deixa o poeta sem
rumo,
sem lugar para
repousá-la.
E quando a sílaba
rebela
e não se ajeita na
fila!
tonta no seu vai e
vem
fica insegura,
inquieta,
não obedece ao
poeta
que tenta
subvertê-la.
Apesar do embaraço,
quando se torna
palavra,
a escrita fica
brava
saltando por todo
lado
e o poeta ¬
coitado! ¬
desiste até de
escrevê-la.
Então resolve que o
ponto
pode ser a solução
mas esse encerra o
assunto
e todo trabalho é
perdido:
o poeta
entristecido
desiste de poeta
ser.
Razão
Um pássaro voa
rasante
sobre um açude
seco.
um poeta contempla
cético
e à margem vê de
repente,
num rosto cheio de
estrias,
claras marcas que o
tempo
cava na face da
gente.
Além do que a
ciência
diz que sabe,
estuda e crê,
o olho do poeta vê
nas coisas mais sem
sentido
aquilo que o
coração sente
e que a ciência não
mede:
os caminhos da
razão
não são os que o
poeta segue.
Bachelariano (ou “Da poética do
espaço”)
Tentei escrever um
poema
falando de um amor
perfeito
que invocasse em
meu peito
igual santo de
novena.
Tentei por todos os
meios
toda rima e
predicados,
nos meus salões
enfeitados,
mostrar-me outro no
espelho.
Mas num tapete
enrolado
tropecei nos meus
defeitos
levando ao chão meu
banquete.
Sem mesa, tapete ou
espelhos,
antes de
servir-lhes a ceia,
os convido à
sobremesa.
Cansado!...
Ser apenas decalque
podendo, quem sabe,
ser mapa
ser casca que se
desprende
do tronco de alguma
árvore
e se mistura ao
solo
retendo mais
umidade
servindo assim de
morada
para outros
animais.
Quem sabe nesse
devir
de infinitos
substratos
antes de se fazer
decalques
ou meros pontos num
mapa,
num movimento
constante
os pontos se façam
retas
entrecruzando
decalques
e, quiçá, se tornem
nômades
no liso-estriado de
um mapa.
É preciso ser
rizoma
quando a árvore cansa!
Diáfano
A água da chuva a
cair do telhado
a escorrer, em
cascata, pela calha,
a rolar, apressada,
pelas lajotas do terreiro
e desaparecer num
ralo.
Olho longamente o
cenário
querendo entender:
para onde evadiu
aquela água?
Pode ser que preferira
um rio,
pode ser que
quisera mar,
pode ter-se feito
evaporar,
presa em lago
ou, travessa,
tenha se infiltrado
em barrancos
para mais adiante,
brincando de
esconde-esconde,
cascatear em
nascentes;
pode ser que lave
os sais
e se faça seiva em planta,
flor, fruto ou
semente.
Escrevo somente
para confessar
que não sei daquela
água a preferência,
mas nesse meu devir
aquático
também não sei:
se a semente faz
alguma ideia
da essência da flor
que ela guarda,
das abelhas, da
colmeia,
das células do tecido,
das tantas raízes
que entrelaçam
no obscuro do chão
ou que se partem,
aqui e acolá,
para dar origem a
novas hastes,
novo existir
rizomático...
Nenhum comentário:
Postar um comentário