Das subjetividades

Enquanto deus joga birosca no imenso lençol do universo alguns meninos travessos seguram-lhe as quatro pontas?




Sombras e silêncios


As estrelas eram apenas
pequenas contas de um véu
que a carruagem da noite
lançou sobre a cabeleira:
pelas descidas das montanhas,
pelas subidas das ladeiras,
por onde seu carro de bois
toda noite vem cantar
o seu silêncio ao luar.

Aves se recolhem aos juás
¬ lugar de conforto e abrigo ¬
uma mãe-da-lua, sem tardar,
deita protestos na noite
e de uma moita de vassourinha,
onde um beija-flor fez ninho,
surge esguia uma preá,
que no silêncio das sombras
sobre a cabeleira se esconde.

Mas eis que uma coruja,
obscura
sai da toca a caçar
e voando no escuro
com seus ouvidos atentos
busca um ruído de brisa
percebe os rumos do vento
estica as asas e se lança
nas sombras da cabeleira
atrás da pequena preá.

Passado o carro da noite
vem seu candeeiro a clarear
a barra do dia seguinte...

Em toda eternidade passada
e naquela que é vinda
nem eu, nem ninguém
vai conseguir mudar:
o voo das aves noturnas,
o destino das preás.



Incógnito

 

Quando eu nasci
ela já tinha trinta e seis:
não éramos dois,
nem mesmo três.
éramos mil...
milhares de nós mesmos.

Hoje tenho mil
e ela acaba de nascer!



Primordial!


Água cristalina,
suja, turva, opaca...
Reflexo, espelho,
tudo ou nada:
liquido cristal.

O vento roça
a rocha
e, em movimento,
costura o tempo
na sua fina membrana:
oca, frágil, transparente.

A água morna
evapora
e o que ora resta
corre, escorre
em queda sonora
serpenteando sempre
à busca de amar,
no mar,
o lugar onde ela mora.

A rocha é fenda:
adormecida, calada!
racha-se
ao som do inaudível nada...
emudece, acinzenta,
resfriada, lapida-se,
desintegra nos braços de uma encosta
despe-se ao despudor de cachoeiras,
enrosca-se nos barrancos dos rios.

Assim a água e a rocha
¬ natureza viva ou morta! ¬
cantam, ao som do silêncio,
a pura transparência do vento,
o movimento do nada,
a essência primordial do tempo.



De novo!

 

Dizem os amigos,
num banho de champanhe,
que o ano foi bom.

Prefiro a pouca transparência
de uma taça de vinho tinto
para expressar o que sinto.

Como dizer que foi bom
sabendo que, a depender de nós,
poderia ser melhor?

Prefiro quebrar minha taça,
esquecer pelo caminho os cacos
e romper o círculo de giz
que eu mesmo traço...

São os inconformados
que encontram atalhos
quando o chão lhes falta.



Duvido

 

Sabe nada
disso tudo
que pensava
que sabia,
mas tinha dúvidas,
embora ignoradas,
de ter certeza
de alguma coisa
ou quase nada!



Dúvidas

 

Tento entender o tempo
quando olho no espelho
desse céu fundo e azul.

Tento entender o vento
quando sopra em outubro
folhas secas nas calçadas.

Tento entender a mim mesmo
quando olho a paisagem
com olhos tristes e úmidos.

Tento entender essa gente
mergulhada em seus ecrãs
a reclamar das estações.



Estações

 

Encantos de raios de sol nos muros dos quintais
riscam a sombra de passarinho em voou ligeiro.

O céu, de um azul macio e lerdo vento,
tece com frios da manhã agostos em outubro.

Sou longe onde o meu olhar descansa:
distante de mim, distante do chão de meu verniz.

Dispenso os pés, fardo de meu velho corpo,
faço-me liberto de meus círculos de giz.



Eu, tecido

 

Entre o abismo do passado
e o incerto futuro
caminho em desequilíbrio
sobre fio frágil e partido.

Em cada nó desbotado
desse roto fragmento
tento entender os remendos
de minha indecifrável história.

Assim, em desequilíbrio,
trôpego e tonto, até duvido
dos sentidos e dos fios puídos,
que tecem minhas memórias.



Autoajuda

 

Nunca cultuei meu corpo
pois sei o quanto ele é frágil;
não partilho sentimentos
pois sou temperamental.

Quanto às fotos de montagens
com efeitos de animação
e frases de autoajuda:
não compartilho nem comento,
pois na maioria das vezes
as máximas não se sustentam
sob o rigor da episteme.

Dos vídeos perdi os efeitos,
das redes rasguei o tecido:
eis aqui meu próprio fio
já desgastado, mambembe!



Chuva

 

O oceano
é demais para um riacho
embora eu ache desnecessário
que seja perene ou seco
como chão de açude.

Tento provar,
antes mesmo de chover,
dessa timidez de gota
que também é mar
sem perceber.



Coisas pequenas

 

Cato pedrinhas num riacho
sem saber se ele é o mesmo
de alguns instantes atrás:
nunca o reparei direito
e sequer eu fui capaz
de seguir seu serpenteio
até o encontro com o mar.

Confesso não consegui
de seus vapores reter
uma partícula sequer
também não contei as gotas
dos temporais de setembro,
das chuvas mansas de março.

Não cavei a terra dura
para ver e investigar
cada gota nela infiltrada:
se se perdera em labirinto,
se se infiltrara em alguma árvore
para em seiva evaporar.

Não cavei fundo no chão
para poder acompanhar
as águas dos lençóis freáticos
onde as gotas lavam os sais
e, nadando devagar,
voltam de novo ao riacho.

Que dizem as pedrinhas que cato
à beira de algum riacho?

Contam-me histórias fantásticas:
falam de imensas montanhas
a zombar de outros regatos
cujos vapores humildes
em chuvas se transformaram
e, esfriando as rochas quentes,
aos poucos as lapidaram.

E eu, quem sou?

Mesmo que ainda prefira
não preciso mergulhar
na imensidão dos astros
e nas distâncias abissais
para saber tão incapaz
de ter certezas sobre mim
e sobre pedrinhas banais.



Philos ou sophia?

 

A physis é um martelo
em infindável martelar
no vai-e-vem de uma roda
que nunca para de rodar:
tal qual um rio, qual a moda,
no diá-tem abrindo estradas,
caminhos infindos dos gregos,
máxima pérola de Hegel...
Incertezas, incertezas!

Armados de ceticismos
tateamos no escuro
uma tese do passado
à busca da antítese do agora:
tolus ao alcance da mão,
alívio incerto às dores,
feridas mortais do real:
luta dura, luta inglória...
síntese lapidar da história.



Letras tortas...

 

A letra torta:
fecha e abre portas
faz soprar o vento,
por fora, por dentro,
no meio do rio
tinha um...

Barco balança
nas águas turvas
e eu troço
do fio de espuma
que ele traça
em voo de...

Pássaro sonso
deita asas vagas,
faz acrobacia
por cima das águas,
quer ser avião:
dança e faz...

Verão assustados
que o pescador pesca,
com seu barco vesgo,
um peixe elétrico
¬ talvez uma enguia! ¬
pra recarregar sua...



Conjecturas

 

Não tenho nome:
tenho uma velha tradição
expressa em signos.

De nada me vale as aparências!

Tudo que sei
é carpir os dias e cultivar
minha condição humana.

Não me considero só!

A solidão é para mim
um recolhimento especial
para rever os guardados.

Não quero ser imortal!

A imortalidade é uma ilusão
que só vale o tempo de quem fica
e não consola a angústia de quem vai.

Não tenho amig@s!

Tenho um “eu” construído
com tudo de mais precioso e belo
carpido no campo de minhas relações.

Por tudo isso
às vezes sinto que sou feliz!

Homo arrogans

 

Os lírios,
na sua fragilidade de caules ocos,
rompem a terra seca do serrado
e, em pleno mês de agosto,
brindam com suas flores lindas
os olhos tristes do caboclo.

Nenhuma ciência
com suas invenções e suas bombas,
nenhum exército
com sua arrogância, suas patentes e armas,
nenhum ditador
com seus carrascos e porões,
nenhum capital
com seus investimentos e mentiras
jamais conseguiu produzir algo parecido.



Ensaio pouco


Uma formiga, um caracol,
um fio de água em riacho,
serpenteio entre barrancos e pedras
uma pequena queda
em ensaio de cascata
o assoviar do vento
nas folhas secas das matas
inverno, céus, infernos
e o sentido de viver
sem saber de nada.



Ignorância

 

Vinha sem rumo,
Resolvido a atravessar a rua.

Perguntei-lhe
¬ perguntas, para que perguntas? ¬
¬ Qual ônibus o senhor quer tomar?

Respondeu-me,
Sem hesitação alguma:

¬ Pandeiro ou violão.

Fiquei confuso. Ele não!

A memória só falseia
Quando a desviamos
Para algum escuso interesse:
Aquele homem fora
Tão somente verdadeiro!



Certezas

 

A natureza prenha
treme de frio, queima de febre
envolta num cobertor de cinzas
a respirar poeira, a engolir discursos.

Sangue, feridas, erupções,
pele ressecada, pulmão doente:
vermes de continentes
infestando o tecido azul do céu e mar profundos.

Sentado numa pedra fria
olho as tempestades de areia,
os tsunamis, os vendavais...

Velo a natureza enferma,
durmo o sono da cidade,
rumino algumas certezas.




Estupidez

 

Preciso sepultar minhas vaidades
pois descobri, embora tarde,
o quanto sou insignificante
diante da complexidade do universo.

Só depois dessa certeza
pude finalmente compreender
o tamanho de minha estupidez.



Temporal

 

Quando na madrugada o temporal caiu
uma rosa em meu jardim desabrochou:
toda linda, vermelha, cheia de vida,
qual sangue em minhas veias, qual feridas.

E na mesma manhã daquele dia
ninguém reparou direito aquela rosa:
só um beija-flor passou veloz,
ao ritmo pulsante de uma vida.

Do temporal retive alguma água,
reguei uma semente em meu quintal
e fui carpir meu hoje e sempre.

Mas antes de sair me perguntava
sobre a rosa, sobre a semente germinal,
sobre as cores que desbotam de repente.



Conjecturas

 

Sempre quis saber
mas nunca soube
do que esse mundo
é feito.

Será que é feito de sonhos
ou de realidade pura?
O mundo será um fenômeno,
uma máquina drummondiana
ou uma fantástica criatura?

Será que o mundo é concreto
ou é líquido e também gasoso?
Será que tem algum sabor?
Terá ele gosto de amora
ou de caju?

Conheço nada do mundo:
de sua cor, sua textura,
tão pouco de seus sabores,
mas quando te beijo
sinto gosto de amora
e quando choras
sinto que tua face
tem o sabor de caju.

Sendo assim conjecturo:
se o teu beijo e o teu pranto
fazem parte de meu mundo
e se o meu mundo é você
então concluo que,
pelo menos no sabor,
os dois devem parecer.

É tudo que sei.



Minha devoção

 

O poeta quando canta
solitário no seu canto
sempre pensa ou intenciona
que no vão de seus desertos
alguém possa escutá-lo.

O que entristece ao poeta
é saber-se não ouvido,
mas como poderia ser
se ao cantar se refugia
na sua solidão doentia?

Por saber-se não ouvido
canta mais alto e até rouba
dos passarinhos outros cantos
ainda mais tristes e lindos.

Ele acredita que um dia,
depois de já ser passado,
algum maluco ou lunático
possa, no silêncio, escutá-lo...

Não há devoção maior que esta!
O verso é, bem mais que a vírgula,
a fé inquebrantável do poeta.



Enigmático

 

Não posso me furtar à realidade
¬ porque é crime ¬
mas, ainda assim,
nego toda aquela que existe
porque não devia
negar nem existir.

Talvez seja melhor
fazer charme
ao tempo e à hora
¬ e ignorar o resto ¬
que deixar o mundo,
concretamente fútil,
falar por nós
aquilo que a palavra,
embora tente,
nunca consegue dizer:
o universo é mesmo
essa insignificância de ser
que vai e volta
sem saber aonde vai
nem para onde voltar.



Culinária

 

Alecrim, alho, cebola,
coentro verde pra cheirar,
uma ou duas folhas de louro
¬ perfume de manjericão! ¬
uma pitada de prosa,
versos e rimas à gosto,
um filme e uma canção.

Tudo fiz pra agradar
aos meus nobres convidados
que degustam os meus poemas
mas não sentem o paladar.

Talvez de tanto ter fome
já perdi os meus sentidos
e ofereço aos convivas
alimentos mal cozidos.



O pecado dos homens

 

A andorinha vinha
navegando pelos ares
fazendo curvas rasantes
entre os muros dos quintais,
querendo viver sozinha
seu destino de verão.

Mas enquanto ela brincava
com sua leveza de asas
na mais pura liberdade
pensou que seu horizonte
era o céu que se espelhava
num edifício comercial.

E então a avezinha
vendo aquele céu comprido
esqueceu do edifício
que haviam ali construído
e num átimo encerrou
sua liberdade de voo.

Na calçada ali caída
¬ ainda a fremir suas asas! ¬
nas minhas mãos a peguei
e por três dias tentei
salvar seu sopro de vida
e o pecado dos homens.



Meu querer

 

Quisera flores plantar
na concretude das praças,
ver serpentear riachos
no asfalto a fazer graça.

Quisera que os edifícios
de folhagem se vestissem
e que nas suas janelas
os passarinhos cantassem.

Quisera que em toda varanda
beija-flor pudessem entrar
e ao beijar as meninas
as ensinassem amar.

Quisera que o ronco dos carros
fossem lindas sinfonias
fazendo brilhar a lua
em plena luz de todo dia.

Quisera que os acidentes
fossem uma dança engraçada
e a mutilação e morte
fosse teatro, mais nada.

Quisera que todas as moças
as crianças e os rapazes
pudessem escolher seus caminhos
com toda certeza da paz.

Quisera que os namorados
fossem o ideal e ainda
que nunca fizessem sofrer
o coração das meninas.

E de tanto isso querer
acabei nem percebendo
que o meu querer impossível
é mesmo o que estou querendo.



Fidelidade

 

Acusaram-me de ser infiel aos meus poemas.
A tal acusação respondo:
por que devo?
a própria eternidade
nunca foi fiel a si mesma:
à vida ela reservou a morte;
ao amor a solidão e a dor...

Só os sonsos, porque não pensam,
conseguem ser verdadeiramente fiéis!



Cético


Talvez por falta de sentido e água
ontem me banhei em ceticismos
e fiquei assim: frio e descrente
na eficácia dos meus banhos de antes.

Já não me atenho às velhas ideologias
não mais creio aqueles vagos discursos
meus heróis rasgaram seus ideais:
chutei os pedaços... não os creio mais.

Agora cético, as palavras de ordem,
os slogans, as bandeiras e os signos
são apenas estímulos à minha troça e riso.

Se existe alguma coisa que me move
é a força e vida dessa imensa multidão
que constrói palácios, ama e depois pede perdão.



Meus heróis

 

Hoje imploro liberdade!
estou cansado de seguir falsos heróis.
abomino esses folgados,
que se vangloriam de apontar caminhos,
mas que se encontram bem mais perdidos do que eu.
quero ser igual a essa gente simples,
esses anônimos que andam por aí
e, diariamente,
constroem coisas insignificantes.
Neles talvez possa encontrar sentido
para as coisas que existem:
palácios, museus, galerias, teatros e escolas,
onde meus antigos heróis, cheios de verbos,
descrevem o tão sonhado paraíso
sem saberem distingui-lo do inferno.



Sobre saber

 

Revisando com cuidado
os lugares percorridos ao longo de minha vida;
relendo velhos escritos, alguns papéis desbotados
onde risquei, com cuidado,
fragmentos de memórias;
revisando, frase a frase, as muitas lições decoradas
no tempo em que caminhei,
percebo que nada sei:
sobre o mundo, sobre mim,
sobre nós e sobre o próprio saber.

Pensei que sabia de tudo
quando consegui ir sozinho,
ao engenho dos Antunes:
regar hortas, colher frutos,
catar pinhas nas chapadas.

Pensei que sabia de tudo
quando, pela primeira vez,
fui à venda dos Ribeiros
comprar óleo de mamona
para acender candeeiros.

Pensei que sabia de tudo
ao me deitar, pensativo
à sombra da gameleira
e, vendo montanhas distantes,
sonhar um dia vencê-las.

Pensei que sabia de tudo
quando brincava de roda
¬ eu era então pai Francisco! ¬
tocando na imaginação
um violão sem cordas.

Pensei que sabia de tudo
quando escrevi uma carta
denunciando a escola,
mas era apenas criança
brincando de militância

Pensei que sabia de tudo
quando convidado me fiz
para ser um dos jurados
num concurso de poesia
de escola secundária.

Pensei que sabia de tudo
quando, já na faculdade,
levantei a voz e, firme,
externei novas ideias
pensando que tudo sabia.

Hoje, já velho e cansado,
ando nas mesmas estradas
e tudo ainda me espanta:
pensei que sabia das coisas,
mas não sabia de nada!



Macerar


Como é duro esse papel!
canetas a macerar palavras,
forjar cada letra e depois
encaixar sílaba a sílaba
fazer sonetos, sextilhas,
literatura de cordel.

Como é trôpego o poeta!
bambo e cambaleante
a vagar nas madrugadas
como um Miguel de Cervantes
ou um bêbado qualquer
dormindo pelas sarjetas.

Como é longa a empreitada!
esse eterno caminhar
nas estradas da escrita,
pelas esquinas e bares,
entre adeus de partidas
e emoções de chegadas.

Mas é desse eterno carpir
¬ minha mãe sempre dizia! ¬
é desse labor desmedido
que o sentido da vida
nasce, fica fornido,
definha, desbota, esvazia...



In (certezas)

 

Santa ignorância a minha!
querer saber alguma coisa
sobre as coisas e o mundo,
quando sei que pensar
é refletir, em espelhos,
aquilo que eu gostaria de ser,
mas que nunca fui nem serei.

O que sei sobre o passado
se tudo o que aprendi
foi-me contado por outros
naquilo tudo que li?

O que saberei do futuro
se lá nem sei se estarei
e, em se estando, talvez,
já morto nada verei?

Que posso saber do presente
se, a contê-lo nunca atrevo,
se deixo que ele me escape
no instante mesmo em que escrevo?

Que posso dizer de mim
se nunca soube quem sou
e tudo que creio saber
foi alguém que me contou?

A única certeza que tenho
é-me mostrada em instantes
enquanto escrevo bobagens
sobre dúvidas constantes.

Que bom para o mundo seria
se a gente não pensasse!
quando se pensa se cria,
mentiras, ilusões, disfarces.


A Manoel e outros tantos


Tento decifrar esse poeta de cisco
essa insignificância de sarjeta.

Todos os dias, antes e depois do café,
faço meu ofício: junto ferramentas
disseco palavras sem rimas,
martelo predicados e verbos
e penduro-os em úmidas paredes...
justifico minha ciência de enciclopédia.

Menos que lesmas e gosmas,
tento ser sombra de ciscos
sonhando sarjetas.



A invisibilidade do eu

 

Tantos amores
tantos sonhos loucos
tanta imensidão de céus.

O universo parece demais
para minha transparência encardida de cristal de areia.
Por isso, à sombra dos outros
brinco com o musgo que encarde o cisco.

Satisfaz-me ser o cuspe
sobre o qual a lesma traça seu caminho de gosma.



Ao velho Chico

 

A memória do rio é também a memória do pescador.
Um barco balança em seu líquido de prata e na solidão da noite observa o silêncio de seu sono.
Inumeráveis estrelas miram em seu leito, com vontade de beber.
A lua baila em suas margens ao ritmo das ondas.
O Velho Chico é um mistério que só o dourado conhece quando mergulha em sua intimidade.



Palavra escrita

 

Por mais que tente o texto não flui.
Disperso, o olhar passeia e se detém na cruz, nódoa de medianeira em arranha-céu, a brandir sua lança de para-raios contra a transparência azul.
O sol da tarde reflete, em vidraça longínqua, seu brilho dourado. Uma faixa de vende-se tremula, em janela de apartamento, qual bandeira branca pedindo paz. Na solidão da tarde reclamo a companhia pro café.
Quisera descrever a simetria encardida de lajotas, as ondulantes copas das palmeiras, o ruído do trânsito, a faixada reluzente de edifícios comerciais... Dizer do céu azul de outono e seus mistérios, em cuja transparência o olhar mergulha e se afoga em segredos... Infinitos, indiferentes...
Mas a mão vacilante do poeta faz pesar o traço da caneta e a escrita se queda, arquejada pelo peso do lençol da memória. O poema se lança no branco do papel, qual pingo de tinta atirada sobre um muro, onde olhos múltiplos miram a palavra escrita...



Os sentidos

 

O cinema para ser arte não precisa ter astros nem estrelas. Na maioria das vezes a adoração faz com que o espectador se curve cego diante de falsos deuses deixando escapar da tela indecifráveis signos.
O olhar não reclama diplomas. Ele é certificado pela apreensão que faz do mundo. Desconfie do cartaz estampando astros e estrelas em trajes de deuses: Quase sempre são apenas espelhos dispostos em salões imperiais onde o poder procura projetar ilusões.



Foi assim


Longe,
muito longe de tudo
num lugar além do tempo
o soberbo dó
namorava uma partícula.
entre danças,
afagos e carícias,
embalado por um sopro,
seus passos desenharam
universos, aglomerados e galáxias.

Noite curta aquela!
apenas o átimo,
sutil movimento:
quando o dia chegou
dó se fez mi e foi dormir
e a partícula
¬ coitada! ¬
sem seu precioso par
cavalgou em solidão
por todo reino de ré.

Fogo é tudo!
e foi então
que a partícula
enamorou próton
e cheia de gozo, fé e fá
engravidou-se.

Desiludida de tudo
lá se foi
pelo infinito do nada
e na solidão vagou
até que, num hospital celeste,
nasceu sol:
cresceu, vestiu-se de luz
e, cheio de si, fez-se rei.


Natureza

 

O que a harmonia produz
no tempo e no espaço do nada,
no vazio da memória
é gravidez de sonhos,
sentimentos e afetos.

Talvez o universo seja
produto de uma dança
no embalo de canções primordiais
ao som de inaudíveis instrumentos musicais.



Pequenas coisas

 

É preciso espiar as pequenas e estreitas janelas,
que se abrem ao concreto das cidades
mesmo que, ao fim do dia,
o olhar descanse
sobre o branco de uma folha não escrita
ou se perca entre abstrações
e rabiscos incompreensíveis
deitados à margem da agenda.

É preciso olhar as pequenas coisas
para melhor compreender as grandes.



Ninho de pássaro

 

A natureza tem seu jeito especial
de mostrar encantos:
um pássaro que canta
a felicidade de ninho e filhotes
bem agasalhados nos galhos da acerola,
outros tantos que encantam
ainda mais
o amanhecer do dia.



Saber viver

 

O sentido de viver não está na longevidade,
nem nas edificações monumentais
e muito menos
na ingênua esperança da vida eterna.

O sentido de viver
está nas coisas simples
que muitas vezes,
preocupados com a eternidade,
deixamos escapar aos olhos...

Viver é saber morrer
e para saber morrer
é preciso cuidar das coisas belas e simples
que encontramos pelos caminhos.



Meu papel

 

Amo a música e a poesia
porque elas
nunca me negaram os sentidos:
mesmo sabendo que não sei cantar
nem versejar,
num papel qualquer me deito,
durmo e sonho
cantando e fazendo versos.



Passageiro


Amanhece
E já me sinto só.

Viajar é bom se bem acompanhado:
co contrário a volta pode ser melhor.

Penso,
e pensar adoece os olhos
e também a alma.

Sinto-me velho
largado à beira do caminho
por um trem desgovernado
no qual o amor partiu
sem dizer adeus.

Esta manhã é fria
como um passageiro desconhecido
que, olhando pela janela,
não percebe as lágrimas
nos olhos da menina

De resto,
cato sonhos de paisagens
na certeza de que a vida
é mesmo breve!



Do uso e da beleza


Antes de colher uma flor
em meu jardim
resolvi fotografá-la
para não perder as referências
de seu estado natural.

Num caderno anotei:
a data, a hora
e o exato local de seu
desabrochar.

Cuidadosamente contei
e recontei suas pétalas
examinei seu preciso diâmetro
e, retirando uma a uma,
submeti a massa de suas partes
observando que tinham diferenças
quantitativamente significativas.

Revendo tudo
descobri que a soma das partes
era relativamente igual ao todo,
mas não encontrei um fim
que, pelo uso da razão,
justificasse sua utilidade e uso.

Deduzi então
que ela não tinha beleza.



Flor de fato


A flor do poeta
não é a mesma da ciência.
a realidade do mundo
não cria conceitos.
ela simplesmente
é real desde sempre.

O poeta e o cientista
vieram depois,
quando o mundo já era
a realidade que sempre foi.

Assim, o primeiro sonhou,
o segundo conjecturou e deduziu,
mas a realidade do mundo nem ligou
para os sonhos do poeta
nem para a utilidade das coisas
que o cientista jura que descobriu.



Que nada!


O que me incomoda
quando tudo parece evaporar
no calor da tarde?

Um pingo d´água na janela,
a falta de palavras,
o vazio?...

Não existe o nada:
a própria falta de sentido
já se faz sentida.



Lições que aprendi


A legítima guerra
é a revolução que travamos
com as armas internas
de nossas próprias convicções.
Seguir líderes
é ser prisioneiro do outro:
só seremos verdadeiramente livres
quando tivermos clareza
do que nos move esse mundo
e formos capazes de enfrentar
os leões que nos espreitam.



Matematizando


Atenho-me ao chão que sustenta
a leveza de meus passos:
se distancio de mim
ou se fico chateado,
nego uma trilha qualquer
para aliviar a pressão
e conto os vinte quilômetros
que faço num passo só
ao ritmo do coração.

Dois passos a cada metro
não é difícil contá-los
é só multiplicar vinte mil
pelo número de trás
e verão que são quarenta.
¬ corrijo: são quarenta mil! ¬
e cá entre nós, meus amigos
essa quantidade de passos
não é qualquer que aguenta.

Em que tempo isso se dá?
são três horas e dez
que só de pensar dói os pés
e nos pede pra parar.
cento e noventa e cinco
minutos a caminhar;
onze mil e setecentos
segundo a separar
o lugar de onde saí
daquele onde vou chegar!

Então vejamos, enfim,
no que isto pode dar:
a cada um vírgula sete
divisões de um segundo
dois passos ligeiros deixam
um metro ficar para trás...
se a conta ficou difícil
vamos ver se ela melhora:
que tal contar a distância
de casa até a escola?



Meu chão


Que importa:
a incompletude do corpo,
a fisiologia das partes?

O chão que o homem pisa
não é de terra nem exige pés:
ele se constitui de ideias
e engajamento de fato...

O chão humano é cultural:
pede postura,
não concretude de asfalto.



Pegadas


Às vezes fico pensando
no rápido esgotamento do tempo
causado pelo tropel das estações.

Isso provoca em mim
grande angústia e um medo particular
de não deixar pegadas no mundo.

Outras vezes
refletindo melhor
digo a mim mesmo:
e daí!
que diferença pode fazer tais pegadas
já que não as testemunharei?

Acho que é melhor olhar o mundo
enquanto tenho minhas lentes.
e, como diz Pessoa, não pensar,
porque pensar é estar doente dos olhos!



Outras sextilhas


Uma letra tomba de lado
por falta de mínimo apoio:
desarticulada e frágil,
no seu difícil aprumo,
deixa o poeta sem rumo,
sem lugar para repousá-la.

E quando a sílaba rebela
e não se ajeita na fila!
tonta no seu vai e vem
fica insegura, inquieta,
não obedece ao poeta
que tenta subvertê-la.

Apesar do embaraço,
quando se torna palavra,
a escrita fica brava
saltando por todo lado
e o poeta ¬ coitado! ¬
desiste até de escrevê-la.

Então resolve que o ponto
pode ser a solução
mas esse encerra o assunto
e todo trabalho é perdido:
o poeta entristecido
desiste de poeta ser.



Razão


Um pássaro voa rasante
sobre um açude seco.
um poeta contempla cético
e à margem vê de repente,
num rosto cheio de estrias,
claras marcas que o tempo
cava na face da gente.

Além do que a ciência
diz que sabe, estuda e crê,
o olho do poeta vê
nas coisas mais sem sentido
aquilo que o coração sente
e que a ciência não mede:
os caminhos da razão
não são os que o poeta segue.



Bachelariano (ou “Da poética do espaço”)


Tentei escrever um poema
falando de um amor perfeito
que invocasse em meu peito
igual santo de novena.

Tentei por todos os meios
toda rima e predicados,
nos meus salões enfeitados,
mostrar-me outro no espelho.

Mas num tapete enrolado
tropecei nos meus defeitos
levando ao chão meu banquete.

Sem mesa, tapete ou espelhos,
antes de servir-lhes a ceia,
os convido à sobremesa.



Cansado!...


Ser apenas decalque
podendo, quem sabe, ser mapa
ser casca que se desprende
do tronco de alguma árvore
e se mistura ao solo
retendo mais umidade
servindo assim de morada
para outros animais.

Quem sabe nesse devir
de infinitos substratos
antes de se fazer decalques
ou meros pontos num mapa,
num movimento constante
os pontos se façam retas
entrecruzando decalques
e, quiçá, se tornem nômades
no liso-estriado de um mapa.

É preciso ser rizoma
quando a árvore cansa!



Diáfano


A água da chuva a cair do telhado
a escorrer, em cascata, pela calha,
a rolar, apressada, pelas lajotas do terreiro
e desaparecer num ralo.

Olho longamente o cenário
querendo entender:
para onde evadiu aquela água?

Pode ser que preferira um rio,
pode ser que quisera mar,
pode ter-se feito evaporar,
presa em lago
ou, travessa,
tenha se infiltrado em barrancos
para mais adiante,
brincando de esconde-esconde,
cascatear em nascentes;
pode ser que lave os sais
e se faça seiva em planta,
flor, fruto ou semente.

Escrevo somente para confessar
que não sei daquela água a preferência,
mas nesse meu devir aquático
também não sei:
se a semente faz alguma ideia
da essência da flor que ela guarda,
das abelhas, da colmeia,
das células do tecido,
das tantas raízes que entrelaçam
no obscuro do chão
ou que se partem, aqui e acolá,
para dar origem a novas hastes,

novo existir rizomático...

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