Do Tempo

Um rasto se apagou no frouxo da areia: depois disso o menino nunca mais parou de sonhar!


Verdade


Vagueia uma pena
que o vento leva consigo
até o azul cristalino
do céu de maio

Outono é findo
e eu, cansado,
deito-me no vão do tempo
alheio ao mundo

É quando me açoita,
em sutis fragmentos,
um aviso trêmulo:
a vida é breve!

Vagas


Arrastam-se as estações
no frio da brisa
em fim de inverno

Lá fora brilham
folhas e flores
banhando ao sol

Mínimo dístico
o tempo é isto
passado vão
futuro incerto

Perdas

 

Perdemos o passado a cada hora
perdemos o bonde e a memória
perdemos as razões e as certezas
perdemos a juventude e a utopia
perdemos a luz de cada dia
quando a noite chega.

Perdemos do amor, o sabor de amoras,
perdemos o passo bambo da história
perdemos a textura, a cor e a tez
perdemos o humor e a alegria
os sons, a dança e a harmonia
quando a noite chega.

Movimento

 

O que é o tempo?
acaso é brisa fresca
que vem à frente de todo amanhecer?
será o vento morno de todo dia
que faz vingar frutos maduros?
será um vendaval de fim de tarde
que invade nossa casa interior?

O tempo pode ser só brisa,
vento ou vendaval,
mas no fim do dia,
depois dos temporais,
sempre haverá silêncio e calmaria:
noite de repouso que anuncia
o amanhecer de novo dia.

Fio do tempo

 

Hora de dar mais um passo
hora de contar mais um dia
hora de colher mais um pouco
hora de olhar no espelho
hora de rever seus reflexos.

Ora sim, ora não,
ora dúvida, ora certeza,
ora sentido, ora razão,
ora lúcido, ora louco.:
oras, horas e horas!...

Horas que contam o tempo,
horas perdidas,
horas passadas
horas que conto ou invento:
oras, para que?

Velha foto

 

Lembro-me que ali havia,
do lado direito da sala,
um roto e velho retrato
já puído, desbotado
na parede pendurado.

Mas os adultos da casa
a correr, sempre ocupados,
já não reparavam mais
as coisas simples da vida
impressas num velho quadro.

Já não olhavam, não viam
que talvez uma poeira,
um bolor ou coisa assim,
riscava naquele retrato
um sorriso juvenil.

Mas eis que, num fim de tarde,
alguém retira aquele quadro
e descobre, espantado,
no papel, atrás da foto,
um lindo soneto bordado.

E ali, no meio da face
da antiga fotografia
o texto havia umedecido
e, infiltrado no anverso,
ria de si, esquecido.

Gerações

 

Somos diferentes, você sabe:
sou passado,
tu és futuro;
sou foto desbotada
na parede de uma velha sala,
tu és pétala em flor
brilhando ao sol.

Mas creia:
nesse fim de tarde
preparo-me para a noite vinda
quando sonharei meus sonhos mais lindos
enquanto tu,
nas tuas manhãs de luz e cores,
mal sabes o que é dormir sossegada
e sonhar um sonho bom.

O passado que já fui
haverás de cavar a cada dia;
a velha foto na parede
quem a substituirá?

O tempo que roeu o viço de minha pele
apagará, em breve, o brilho de tuas lindas pétalas.

Tu és chegada! eu, despedida!
o tempo é nosso eterno maquinista.

Acasos?

 

Folhas secas, ao vento,
tombam pelas calçadas da cidade.

O céu claro da manhã
acinzou o horizonte longínquo.

Uma borboleta amarela
outonou a parede de minha sala.

Descubro, do inverno,
seus claros sinais!

Tempo, tempo!


O tempo é esse tormento
que no relógio da sala,
entre infinitas batidas,
vai marcando a eternidade
vai ceifando nossas vidas.

Ainda que não possa ter
em pleno alcance dos olhos
o relógio e seus ponteiros
qualquer espelho me basta
pra ver o tempo que passa.

Um retrato na parede
velhas fotos desbotadas
casamento em branco e preto:
tal qual a cor dos cabelos
no tempo a vida se apaga!

Viagem

 

Súbito, no silêncio interrompido,
a estridência de um som se faz ouvido
e na sombra de uma estação
mergulhamos no desconhecido:
entre o passo vacilante e o ruído
dos freios na chegada de um trem,
entre os solavancos da partida.

É quando invade, quase sem licença,
uma leve nesga de saudades
daquela plataforma estranha
onde um dia, não muito distante,
caminhamos para novos horizontes:
ao peso dos sons de um trem chegando,
ao leve trepidar de um trem partindo.

Assim, eternamente,
enquanto durar nossa vida egressa
vamos, no silêncio de estações,
retomar a estrada interrompida
em toda plenitude de promessas
e remoer todos os passos dessa vida:
aos ruídos temerosos da chegada,
aos solavancos incertos da partida.

Mergulho

 

Cheio de esperanças o trem partiu,
levando na bagagem as boas lembranças
e deixando, esquecidos na estação,
todos os restos.

Não tenho certeza disso,
nem sei se estou errado ou certo,
mas depois que ele virou a primeira curva,
olhei pra trás e não vi nada,
olhei pra frente e também nada consegui avistar.

Para onde esse trem vai nos levar?
não faço a menor ideia,
só sei que é sempre bom viajar
e isso é o bastante!

Será?

Soneto ao tempo

 

Dezembros passam correndo
por tantas portas abertas
e embalam nos braços do velho
desejos de se renovar.

As estações são passagens:
lágrimas de despedidas
e abraços de chegadas...
vastos horizontes de esperas.

Todo passado foi véspera
que nesse lugar de miragens
sempre quis seguir viagem.

E quem do futuro espera
crê, mirando as paralelas,
que elas, em algum lugar, vão se encontrar.

Flores efêmeras

 

Hoje,
banhando os olhos nas cores da feira,
me deparei com o real:
as flores são lindas,
mas, tal qual o amor,
se esgotam
em sua efemeridade de avencas.

Num dia elas desabrocham
em exuberante beleza e perfume;
noutro murcham e perdem o viço...

O tempo não aprecia
as coisas belas!

Máxima

 

Epicuro já dizia
numa máxima famosa:
“somos partes de uma roda
presa em eixo de aço,
vivendo em eterno giro,
sempre lá e sempre aqui,
sem nunca do lugar sair”.

Tento conceber uma égide
que nos sirva de alento,
mas vejo que no longo tempo
passado desde então
a phisys não se confirma:
as estações não causaram
danos ao eixo de aço.

Somos, nesse eterno giro,
vítimas do mesmo destino.

Ainda é tempo...

 

Vinco na pele do rosto:
restos que o tempo esqueceu.

Os dias passam,
as estações se sucedem,
o vento leva
sons e folhas.

Os caminhos sem rumo,
não sabem para onde ir.

E eu,
que pensava saber de tudo,
me distraí.

Não vi quando surgiu
na minha face lisa
o primeiro vinco.

Teria devolvido ao tempo
seu rasto esquecido
em meu rosto.

Deixa prá lá!

 

Deixa
isto pra lá!

Não vale a pena chorar,
não vale tudo esperar,
também não vale lembrar...
amar já não vale mais!

As amizades passam,
o leitor cansa,
o fio desgasta,
as cores desbotam,
o tempo se esgota,
lágrimas secam...
Amigos esquecem.

Roda do tempo

 

Não sei se o mundo vai ou volta:
pode ser que ele simplesmente dê voltas sobre voltas
sem nunca sair do lugar.
Acho que é por isso que ando,
ando até a exaustão,
mas volto sempre à mesma casa.

O cheiro doce da flor de laranjeira
faz lembrar a cor e o perfume de Helena;
a algazarra de passarinhos
alegra um juazeiro ao lado
e revela, aos poucos, estrelas fugidias;
vaqueiros conversam na varanda:
sobre onças, sobre marruás e sobre discos voadores;
cachorros preguiçosos, estendidos no terreiro,
espiam, por entre folhas e galhos
os últimos raios de sol;
um boi berra ao longe na sua solidão de pasto,
enquanto bezerros reclamam afetos
no lusco-fusco da casa de curral;
uma acauã canta no alto da aroeira,
talvez banqueteando uma cobra-cipó;
aos poucos o sol se põe
e ao longe só se escuta
o canto triste da mãe-da-lua
ecoando seus apelos nos grotões:
foi, foi...e não voltou mais!
uma coruja pia, pousada num mourão,
sua triste solidão lunar.

A roda da vida roda, roda, roda,
mas, presa como está,
volta sempre ao mesmo lugar.

À flor da pele


O tempo, esse maldito que nos acompanha
e, dissimulado, foge quando dele mais precisamos;
o tempo, esse traidor: companheiro que nos nega
a flor da mocidade
e, sem pena, nos deixa levar, apenas,
memórias e saudades...

Uma flor da pele
nasceu em meu jardim:
fitei-a de longe, admirado!
tive medo que meu olhado estragasse
suas pétalas delicadas.

Vi, enciumado,
quando um beija-flor a visitou
e, sem pudor,
dançou à sua volta, chegou mais perto
e deu-lhe um beijo demorado.

Eu, ali sentado,
ainda assim temia
o risco de ferir sua beleza;
tocá-la, óh Deus só vós sabíeis,
quanto eu sonhava, quanto eu queria!

Já no fim daquele dia
o céu antes azul
ficara rosa e avermelhado;
minhas vistas baças já não distinguiam,
naquela meia luz, sua cor, seu brilho e viço.

Criei coragem!
levantei-me decidido!
passo a passo, ainda com receio,
aproximei-me do jardim, tentei tocá-la.
Foi então que percebi
que ela já não tinha pétalas!

Outonal

 

Uma brisa vadia, alegre e solta
fazia dançar na tarde alegre folha,
iluminada por ébrios raios de sol,
valsando aos sons daquele outono.

O outro dia acordou cansado:
viu a brisa deitada em algum riacho
e a folha enrolada, qual caracol,
a dormitar num canto em abandono.

As cores do sol, quase apagadas,
acinzentaram o céu, despindo as matas
e bebendo toda a água do riacho.

Não anotei na superfície nem à margem,
mas um traço deitado sobre a folha
borrou o verso numa última gota d´água.

Rítmica

 

No balanço da cortina
descanso minha rotina
entre o despertar e o sono
do verão que já termina.

Em sopro de vento calmo,
que no marco da janela
balança a rosa dos ventos,
contei na dança das horas
o lento avanço do tempo.

Para esquecer...

 

Rasguei a página
do livro de dezesseis
joguei os pedaços no sanitário
e apertei a descarga.

Foi até com certa raiva
e muita dor que o fiz
e, já na página seguinte,
perguntei arrependido:

Não seria melhor ter dormido
um sono longo e profundo
para pular dezessete
e só acordar em dezoito?

Ergui uma taça vazia
tentando brindar o novo,
mas o vinho já tragado
era demasiadamente amargo.

Quebrei e atirei ao espaço
os pedaços do cristal
e num torpor de embriaguez
tentei dormir doze meses.

Ao tempo de hoje...

 

A Krónos com uma pitada de raiva
e um caldeirão de desassossegos

A Phisys não só lapida
também reduz e prateia
a cor de nossos cabelos
e decalca em metafísica
o nosso jeito de ser.

Com sua ação caprichosa
promove o remoer de sonhos
e aos olhos, além de ver,
ensina o dom de reparar
coisas aparentemente inúteis.

As formas das folhas secas
entornadas nos passeios
seus mais variados tons
e até solitárias flores
caídas de algum ipê.

A Phisys tem esse cuidado:
devora alguns predicados
e acrescenta outros tantos;
ao brilho do olhar de antes
impõe inúteis encantos.

Aos antigos olhos invocam
chapadas, riachos, trilhas
e, na febre de novos olhares,
deita-os em pequenas pétalas
ou em qualquer folha caída.

Percurso

 

Corpo magro e desnudo
imerso em poço raso
na transparência liquida da ribeira.

Mãos em concha, ligeiras,
atirando a água ao barranco,
o menino construía sonhos de temporais.

Mal sabia, coitado,
que a mão pesada do tempo, sem piedade,
reserva-lhe outras tantas tempestades.

Tempo livro

 

Mal virada a página
vem a saudade,
fruto do desejo que se tem
de voltar atrás
e ler tudo de novo.

Porém o livro da vida,
uma vez fechado,
não abre mais...
só à memória apraz
páginas viradas!

Tempo

 

Que queres de mim?
queres o dia perdido
na virada insone
de uma noite escura?

Queres a certeza nua
de um dia que escapa
qual brisa que passa
ao arrepio da memória?

Que queres de mim agora?
a incerteza de existir,
o passo que ainda não dei
ou o carpir de outro dia?

Óh tempo que me vigia!
sei que, dia após dia,
devoras-me o passado,
ofertas-me o dia vindo.

Mas em surdina escondes
que perto ou longe
haverás de me negar
todos os dias seguintes.

Só te peço ¬ óh tempo! ¬
qual riacho pequeno:
não me negue o sonho
de um dia ser mar!

Indizível

 

Muito mais que um menino
um sonho se anunciou
e aquilo que era pequeno
imenso, indizível se fez.

Mudo, enfeitou-se de cores
de muito amor, muito trato,
que mesmo carente de tempo
se curva alheio ao recato,
mesmo jogado ao relento
faz-se moldura em retrato.

Monotonia atemporal

 

O relógio, pacientemente,
marca os compassos do tempo

O tempo, cuidadosamente,
apaga caminhos e rastos

A memória, distraidamente,
esquece os registros e as horas

Mas o tempo segue em frente
com passo lento e monótono.

Retratos

 

A vida é breve e não há quem se atreva a negar isso:
os dias se alternam com suas semelhanças
e diferenças e nós, através deles,
nos alternamos, entre o esquecimento
e a memória daqueles que nos sucedem
nos espaços das paredes...

Acordo cedo:
bocejo, espreguiço,
apalpo-me todo...
às vezes esqueço
que tenho um corpo.

Abro as cortinas
olho o céu lá fora
e me dou conta:
o tempo é agora
diferente de ontem.

Vou ao banheiro
olho-me demorado
procurando marcas,
riscos, sinais deixados
no tempo vivido.

Essa vida é fina,
frágil e delicada
qual seu próprio fio:
quebram-se os espelhos
fecham-se as cortinas
e alguém, por caridade,
pendura os cacos
na penumbra do quarto.

Instante

 

O mundo passa depressa frente aos olhos,
mesmo assim
às vezes registramos algumas coisas belas,
que pelas frestas de nossas janelas vão se revelando.

Algumas delas podem suscitar desejos
ou sutis vontades,
tal qual um fim de tarde
que a gente quer reter
e não consegue.

Inverno

 

As castanheiras, já vermelhas,
lançam ao vento suas tristes folhas,
um passarinho canta, pousado num fio:
quer espantar o frio e a solidão
dessa manhã de inverno.

Eu, triste, demasiadamente calado,
perco o verde, visto-me de pardo
¬ essa cor seca de abandono ¬
e, qual cão sem dono, em vão,
olho a imensidão em eterna busca.

Ah, se acaso eu pudesse!
vestir-me-ia de inteira primavera
e entre tantas flores, qual insetos,
Sem receio, sem medo e sem pecado,
mataria de amor, meu próprio inverno.

Mas aqui, neste céu de cinza,
nesta ilusão de verso e rima,
só a rotina de um poeta velho e triste,
quem sabe aqueça, pálida cor de chão,
sua própria solidão, silêncio e tédio...

Tempo de amoras

 

O tempo passa em instantes,
como vento de agosto
em encosta de montanhas.
A vida carrega a gente
por todo canto do mundo
e assim nos apresenta
o que de ruim ou de bom
é possível desfrutar.

O olhar às vezes escapa
e se inflama ao reparar:
delícias de frutas maduras,
delicadezas do vento
e a beleza pura de meninas
catando amoras no tempo.

Amores, amoras


Amoras em beira de cerca
acerca-se de vontades
desejos de se lambuzar:
carmim, sabor,
doçura de menina,
beijo de amor.

Brisa soprando folhas
flores semeando odores
enrosco de galhos tortos
descuido de movimento...
vento despudorado
nas saias dançam, dançam!

Reparo coisas bonitas
que a vida oferece
ao encanto do olhar:
amores, amoras,
meninas ao vento,
balanço de saias.

A vida é movimento:
nada me subtrai isso!

A lua e eu


A vida é tela:
nela
o braço do tempo lança
seu sutil pincel
e no balanço do vento
dá-lhe cores mil.

A lua é bela
e no céu, ao léu, se lança
vagando como eu.

Bordando a vida

 

As fibras se entrelaçam
num tecido único
com suas cores e curvas
com seu fogo e gelo
e vão tecendo, tecendo, tecendo...

Com o tempo
alguns fios envelhecem
e na sua efemeridade se desfazem
cedendo lugar ao novo...

Assim a arte tece a vida!

De(vaga)ação


Infindável tempo
esse de nada ser
navegar sem fé
nadar no que vier,
no todo impossível,
no confuso eu
de aparência vaga
qual dionisíaco deus,
que na escuridão tateia
à busca de seu próprio ser.

Virgem mãe!
terra que emana
das entranhas do nada,
mergulha, se molha
nas águas da inocência
sem saber que tudo vaga
no vazio de vãs desculpas
por um tal original pecado:
abstração passada
que nunca quer passar.

Virgem violentada
nas vagas promessas
de gozo e de afeto negado
virgem de mãos de luva
de doce e macia carícia
nesse divã se deita
e é toda oferta
e é toda fértil
e é toda fé
e é fera!
ferida!

Fim!

Com fusão

 

Que confusão povoa a cabeça dessa gente moderna!
ou seria contemporânea?
e, se assim o for, contemporânea de quê,
de quem?

Porcaria nenhuma!
a confusão está tomando minha cabeça
e acho que não tenho nada o que achar.
só penso...
acredito...
ou melhor,
faço uma vaga ideia
de que nosso tempo é muito confuso mesmo
e não tenho mais nada para falar
a não ser que tenho uma bruta vontade
de ser contemporâneo de mim mesmo.

Será que isso é possível
ou não é nada disso?

Filhos do tempo


A vagar
Na vaga do infinito
por entre estrelas e mitos
gaia de incertos filhos
e improváveis netos.

Reverbera-se,
em claros e luzes,
entre véus e trevas,
desejos e proibições,
eros Tânatos.

Divaga
no afã de encontrar
cavalheiros navegantes
de oceanos de estrelas:
amantes, sonhos, castelos.

E nós,
resquícios de poeira e sombras,
filhos de destino incerto,
sucumbiremos, ao certo,
entre desertos e trevas.

Enfim,
uma vez fartos os desejos
afetos, fetos e filhos
aos poucos serão gestados
nas mornas entranhas de Gaia.

E ninguém,
nem mesmo ela,
no infinito dos tempos,
lembrará que em seu seio
abrigou filhos de Eras.

Apesar de...

 

Apesar de tudo que cremos ser,
apesar do tempo e do espaço
que juramos conhecer,
apesar da poesia e da prosa,
de nossas crenças e mitos,
apesar de tudo isso,
a Terra, mãe amorosa,
numa loucura de amor ao inerte,
devorará suas crias para,
quem sabe em outras eras,
fazer brotar em seu seio
outros filhos, outros netos.

Antes que se acabem!


Ninguém viu,
notou, sentiu,
curtiu, amou...

Ninguém se afetou!

Ninguém riu,
chorou ou se alterou!
ninguém percebeu,
nem mesmo leu
os versos que o poeta escreveu
pedindo,
rogando,
implorando,
para que reparassem
as coisas feias e belas
antes que todas elas
no abismo sucumbissem!

Encantos

 

A voz,
o verso,
o encanto da poesia,
que faz ressuscitar
a doce melodia
de quem já partiu
mas deixou seu canto.

Véspera


O sol queima as tardes,
amolece os corpos,
engole os ventos,
destempera varandas
e, silenciado o canto,
deixa triste o sabiá.

No quintal
as plantas encolhem-se quietas:
sem vivacidade, sem balanço,
vazias de seivas e de alegrias...
lavo roupas e de propósito
deixo-me molhar.

A blusa colada ao corpo
ameniza o calor
mesmo assim continuo triste
como uma véspera de Natal:
sem festas, sem abraços,
sem beijo de mãe.

Doce mutamba


Outro dia ouvi alguém falar da poesia existente no estalar do fruto da carne-de-vaca.
Fiquei me perguntando o que é feito daquele menino, que sentia tanto prazer em mascar o áspero fruto da mutambeira só para sentir seu suave doce.
Será que ele cresceu ou perdeu o encanto?

Todo tédio


Aténs à trama de tudo:
texturas de tantas teias
tecidos de outras redes
onde descansam Teresas
e algumas meninas travessas.

São tantas tiras atadas
tingindo as cores da colcha
estendida nessa torre:
templo onde te abrigas
das terríveis tempestades.

De tudo um pouco me resta:
essa saudade tamanha,
tecidos, tiras, pedaços
e a lembrança de redes
tramadas num longo tempo.

Eu, farrapo, mentor
desse temível engano
transito nestas palavras
¬ nulo, ébrio, leve e torto ¬
e teço-lhe versos de amor.

Das manhãs


Degusto coisas insossas
nas manhãs de todo dia
e à noite vou dormir
crendo que tudo valeu,
mas nem os sonhos me dizem
o que realmente existe
mais que horas a discernir
infinidade de dias.

Por isso na manhã seguinte
engulo de novo o café
e saio a carpir outro dia
ou, quem sabe,
o mesmo
sempre!

Torneira aberta


Era só um som
quase sem sonoridade alguma,
um aquoso ruído no meio da noite
e o ouvido, o sono, o pesadelo,
a pálpebra querendo fechar
o ouvido insistindo ouvir
e o ruído torpe
na mesma
batida...
gota
caí-
da


Do tempo ou do inverso


Com o tempo a gente aprende:
a ser mais manso, menos taciturno,
não andar depressa, não fazer barulho,
que a chuva fina bem sabe molhar,
que para brisa fresca janelas se abrem
e que riacho manso sempre chega ao mar.

Com o tempo a gente aprende:
que a onda brava quebrando em rochedos
é pelo desejo de se fazer riacho,
janelas se fecham para os vendavais,
que os temporais só provocam enchentes,
que o alto grito só assusta a gente
e que andar depressa é perda de tempo.

Deixar de ser bruto qualquer um aprende!

Carpe Diem


¬ Cada dia é um dia
até o dia findar!

¬ E quando a noite chegar?

¬ Se carpi o meu abrigo,
uma manta, um cobertor
vou descansar sossegado
e sonhar com meu amor!

O Tempo


I

O tempo é coisa esquisita,
parece água de bica
que tentamos segurar:
por mais cuidado que temos
sempre consegue escapar!

Por vezes se assemelha à brisa
que entra pela janela
e mesmo que fechemos portas
ela desfaz-se no ar:
foge, não sabemos como,
sem deixar rastos atrás.

Mas se repararmos direito
se vasculharmos por dentro
podemos algo notar:
a água de bica tem jeito
bem especial de marcar
só deixa o corpo molhado
e mesmo o pouco que fica
não demora evaporar;
a brisa sutilmente passa
e ninguém dela se lembra
a não ser que num poema
consiga o poeta contê-la.

O tempo é mesmo esquisito:
passa como grito em planície
sem eco ao menos deixar;
escapa como água de bica,
mas quase nunca evapora!

O tempo é esse esquisito:
por mais que abramos portas,
ou escancaremos janelas,
fica por dentro marcando
nossas lembranças passadas!

II

Nesta manhã de domingo
de muitas recordações
ouço cantar passarinhos
talvez buscando num ninhos
um aconchego qualquer,
porém no meu escritório,
na solidão desmedida,
o que mais quero ouvir,
dito de sorridentes lábios,
é, pelos menos, bom dia!

Olho o e-mail no aguardo
de surpreender-me um recado
de alguém que esteja distante
ou mesmo aqui do meu lado
só para dizer: tudo bem!
quebrar a solidão amarga.

Acesso o Face esperando
um comentário à toa,
às duas fotos postadas
mostrando o desarranjo
de meu humilde escritório,
zombando desse destino
de gozar férias em casa
entre chips e smartphones
e tantas leituras a fazer.

Mas quanta decepção!
esse silêncio abismal
leva-me à carência absurda,
ao cúmulo até de pensar,
no desespero do apelo,
dom meu jardim conversar.

Busco na memória um poema
que possa me confortar:
que lembre amores passados
prazeres e dores sofridas,
reascenda cicatrizes,
provoque novas feridas,
mas pelo menos traduza
em alguns versos chorosos
umas palavras perdidas
Que não consigo reaver...
canções sem eco num tempo
de belas frases de amor,
de lindos e doces poemas
que já não consigo escrever!

Nas linhas de minha escrita
na seleção das palavras
meus sentimentos se encobrem
com não sei quanto verniz
e quando tento expressar
um sentimento maior
vejo que as palavras dizem
num lapidado poema
coisas que escapam de vez,
que fogem de minha memória
como uns versos de amor
que se transformam em apelo
de uma vil militância
ou vícios de academicismo.

É preso nesse cristal
lutando para desgarrar,
pra resgatar as lembranças
de meus amores passados,
que tento escrever uns versos
dizer, ao menos de perto
e com palavras bonitas,
aquilo que sinto por dentro
e que tantas vezes dissera
à pequena Ivone Mendes
e à minha Helena querida
que já nem sei onde andam...

Será que têm outros amores?
será que já me esqueceram?

III

Na contradição vista agora
retomo o apelo do tempo
e suas marcas deixadas:
apesar de ser pretérito,
como a brisa que escapa
ou como água de bica
fugindo por entre dedos
o tempo passa depressa,
e quase nunca evapora!

Reflexos

 

Espio o céu
igual menino
que olha o mundo
pelas frestas das janelas.

Os aviões vêm e vão
na mesma direção:
uns desenham arco-íris branco
outros incendeiam-se ao sol.

Nenhum é tão poema
para espelhar nos olhos da menina
até sumir ou se perder
no brilho de minhas retinas.

Mas eu reflito sobre eles
e sobre os invisíveis caminhos
por onde os olhos passeiam
e os aviões passam,
sem deixar rastos.

Estação


Em lento desmaio
o sol vermelho de maio
entristece o outono
e o olhar se deita tonto
na cor pálida das tardes
à busca de horizontes.

Há quem repare a vida
como se o outono fosse
apenas folhas caídas;
outros, sonsos, desatentos,
sem gozo, dores ou penas,
em quase nada reparam.

Alguns preferem uma estrada,
um atalho por onde escape
das folhas secas que caem,
pensando até ser possível
suprimir das estações
os seus mais claros sinais.

Mas não há como evitar:
as estações, o tempo,
as areias que, no vento,
pouco a pouco acinzentam
as folhas verdes das árvores
e os horizontes das tardes.

Divagações segundas


Sou velho
¬ já passei da idade! ¬
aliás, nunca tive um All Star
o que me faz pensar
que a largura de meu passo
é a liberdade que traço.

Sou muito mais,
eu acho,
que os cordões das sandálias
que enlaço e depois calço:
assim, jovem me faço.

Primordial

 

Nada mais almejo ser
que pequeno grão de areia
totalmente ignorado:
mesmo torturando a ostra
conter a essência das pérolas.

Não quero ser temporal:
quero apenas ser brisa
ou o sopro primordial,
que no princípio do universo
fez do nada um movimento.

Para que ser dicionário,
ter saber enciclopédico
e o rigor de vernáculos?
basta-me um sopro primário
para criar novo verso!

Quanto às ostras já vi muitas,
mas só consegui ser aquele
incômodo grãozinho de areia
que, além de desertos e praias,
suscita esperança de pérolas.

Meu diário


Abro as janelas
sinto o frescor do vento
invento versos
para falar do tempo
e no fim da tarde
às vezes penso,
olhando o céu lá fora:
o tempo é mesmo esse agora
com seus sinais já impressos
e outros a imprimir
num diário que invento
e com receio registro
fragmentos de memórias.

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