Vagas lembranças que na parede do quarto, qual mancha de bolor, denuncia um quadro ausente...
Sonho bom
Saudades do tempo da infância:
de catar coisas pequenas
e dar-lhes muita importância,
de colecionar lembranças
das brincadeiras mais simples
para depois soltá-las
nas águas de algum riacho
e com olhar ainda úmido
vê-las dissolvendo em queda
na transparência cristalina
de imaginárias cascatas.
Cantigas e acalentos
À minha mãe, com saudades!
Subíamos a ladeira
na volta do Ribeirinho;
o vento era de uma calmaria fúnebre,
realce da solidão de prováveis defuntos:
só se ouvia, vez em quando,
o estalar de folhas secas
trituradas sob pés descalços.
Ela, sempre à frente, calada,
parecia não perceber e não sentir
a dor do menino que a seguia
a poucos passos atrás.
Mas ao terminar as ladeiras
e descortinar as chapadas
o menino sentiu, sem ver,
que os olhos dela, cada vez mais longe,
vagavam no espaço e no tempo
daqueles vastos sertões.
Foi então que aquele silêncio
fora interrompido por uma toada
que encheu o coração e os olhos do menino...
“Eu estava na peneira,
eu estava peneirando,
eu estava no namoro,
eu estava namorando.
Quando o vento veio
na encosta da ladeira
sacudiu a saia dela
no balanço da peneira...”
Minha mãe tinha um jeito muito especial de acalentar!
Acalentos
O menino corria nu pelo terreiro
a mãe chegava da fonte
com lata d´água na cabeça
a mocinha, ao pilão,
socava sonhos
e amarga solidão
o pai, velho carreiro,
pacientemente enrolava
o seu cigarro de palha
e o bambuzal ao lado
gemia as dores e insônias
de sonhos tão medonhos
que o vento arrastava
pela imensidão das chapadas.
Ninguém sabia
que o menino passava
catando cacos de sonhos
querendo caminhar com o vento
e levar, no bornal do tempo,
esperança, alento
aos sonhos daquela gente.
Memorial
Na parede da memória
rabiscado numa tela
em tons de cinza preservo:
velharias, bagatelas
lembrando longos caminhos,
pequenas bicas em queda
nas fontes dos ribeirinhos,
lavadeiras tagarelas
batendo roupas nas pedras.
Hoje vejo os edifícios
qual paredões das serras
as mocinhas apressadas
mesmo sem trilhas de terra
parecem andarem assustadas
com curiangos de ferro:
motos, carros, avenidas
e na minha desbotada tela
lavadeiras esquecidas.
Difusão
Cantigas de roda
em rua de terra
sob luz difusa:
ali o menino,
ainda pequeno
e já dissimulado,
brincava a teu lado
só pra nos descuidos
louco de desejos
segurar tua mão
roubar-lhe um beijo.
O tempo passou
e a lua ofuscou
o nosso espetáculo:
na rua de asfalto
crianças não brincam
meninas só podem
passear nos shoppings
mãos dadas com os pais.
Cantigas de roda
não existem mais
e crescido o menino
perdeu o disfarce:
de mãos estendidas
querendo um enlace
de tanto esperar
até desistiu
de beijos roubar.
Saudades de filho
Tardes quentes no sertão:
a mãe sentada na varanda,
com seu jeitinho de índia,
olhava longe a paisagem.
Pensei que talvez buscasse
na imensidão daquelas serras
sinais de um filho pródigo
que maltrapilho voltasse
ao aconchego de seu colo.
Ao ver aqueles olhos tristes,
transbordo de interrogações,
perguntei o que pensava
sobre aquela vastidão.
Com brilho de água nos olhos
olhou o chão do terreiro
e, para não machucar meu coração,
com voz sumida falou:
"as rolinhas daqui
não cantam fogo-apagou”.
Das estações
Chovia por todos os poros
e a gente escorregava na lama do terreiro
banhava nas cachoeiras
surfava nos lajeados
onde a água nos levava
até o mergulho no poço.
Catávamos goiabas nos pés
corríamos atrás de barquinhos de madeira
ao longo das corredeiras
amávamos o barulho das cheias
e suas muitas vazantes
de tristes aboios de sapos.
Os rios eram de estações
com águas barrentas, turvas e cristalinas
marcando janeiros e setembros
roubando as eras e o tempo
arrastando nossa infância
nas asas frouxas do vento.
Hoje, do rio, só lembranças
e, às estações, nem os ipês se apegam:
florescem fora do tempo
secam-se os rios e lagos
e as vazantes só trazem
enormes transtornos ao trânsito.
Sonhos de menino
Argila branca
no macio das mãos
a moldar bichos
e formas.
Barranco e pedra d´água
jarra, jarrinha
cabaças, cacimbas
lata na cabeça
bebedouro cheio
oficina de farinha.
Pés descalços
pedras e ladeiras
distâncias de areia,
chão vermelho
ribeirões e lavadeiras.
Olhos pequenos e bestas
colorindo o invisível
e reparando horizontes
de sonhos impossíveis.
Esses meninos mudos
são pássaros sem asas
a multiplicar ao infinito,
num grito surdo,
todos os sonhos desse mundo.
Uma nota a Dó
Dó não era uma nota musical
era um rapaz sem pernas
que amava caminhar.
Nos fins de tarde,
depois de muito trabalho,
aqueles meninos queriam
sair daquele lugar.
Por não ter como escutar
o velho rádio de pilha
sentavam-se no terreiro
e ouviam Dó.
Os sonhos cavam caminhos
por onde a ausência de passos
não impede o caminhar.
Ofício de menino
Catar pinhão branco
para fazer sabão
ser milionário
sem ter dinheiro
e comprar bois de romã
com o fruto do pereiro
cortar ramos de assa-peixe
para tirar o braseiro
do forno de lenha
varrer terreiros
com o ramo da vassourinha
e nos pés de pinha
procurar frutos maduros
antes do amanhecer.
Sentir saudades
de um tempo ou de um dia
fazer poesia
fazer poesia
fazer poesia!...
Saudades
Relembro agora saudoso
nossos olhares,
nossos beijos
e seu sorriso gostoso.
As danças, os movimentos,
os jogos de amarelinha,
e as bolinhas de papel
levando poemas, trazendo agrados.
À noite, em nossa pobre sala,
os arrepios e as coisas proibidas
que, no escuro, fazíamos
quando a lamparina se apagava.
Plantávamos olhares,
plantávamos gestos,
plantávamos versos e afetos...
colhíamos sonhos.
Não sabíamos que um dia
o acaso nos separaria
e, no jogo da vida,
o destino ganharia de nós dois.
Ficou no olhar a saudade,
ficou no peito essa dor,
ficou no gesto o poema:
nosso tempo, nosso amor.
Caminho da roça
Os dias eram feitos de nada:
manhãs de orvalho e capim vermelho,
caminhos estreitos para sonhos largos,
cachoeiras de rios, poços, cacimbas
e muitos segredos escondidos
nas pedras dos ribeirões.
As tardes eram de sol e juritis:
arrulhos nas grotas e nos quintais
onde os frutos de romãs eram boiadas
nas brincadeiras dos meninos
e os carros-de-bois eram toadas,
feitiço de encantar sertões.
Aquelas noites eram de silêncios:
sono leve de quem cedo deita
porque cedo tem que levantar
e antes do galo cantar
todo sonho havia de ser sonhado,
ainda que sonhos vãos.
Assim eram os dias do menino:
haviam também as corredeiras
e as lavadeiras que nelas se banhavam,
as corujinhas caburés nos tamburis
e, à noite, pelas frestas das janelas
via-se a lua e seu clarão.
Ausência
O sol banha o verão
e entre galhos sem folhas
a luz passa, em grossos raios,
dourando o chão das calçadas
onde árvores desfilam
em cortejo fúnebre.
Sobre os troncos esbranquiçados
um bem-te-vi vem pousar:
parece até que reclama
a triste ausência de um galho
e, no cinza da mortalha,
as suas vestes de folhas.
Um piano mudo e roto
marca o passo dos andantes:
aqueles mesmos que antes,
alegres e enamorados,
sobre o frescor gozavam
toda plenitude da vida.
Nas mesinhas de um café
onde alegres a gente ria
falando de amor e poesia
hoje só nela me sento
e fico à espera da hora
de findar esse cortejo.
Meus olhos agora clamam:
a triste ausência das feiras,
o ir e vir dos casais,
a sanha dos bem-te-vis
E a falta de uma flor
nesta mesinha pequena.
Longe!
A pedra é fria,
a terra é bruta,
o fogo é chama,
o vento é leve...
saudades, tantas!
A água banha,
riacho corre,
a chuva molha,
nuvens passeiam
longe, longe!
Olhos refletem,
coração sofre,
a alma chora,
a dor doe
fundo, fundo!
Algumas saudades
Quase tudo encantos:
os ouvidos e os olhos
respiram sons e imagens
dessa saudade tanta
e faz dançar, silente,
meu inquieto coração.
Hoje, no entanto,
frente ao desespero de um verso
faço maior a saudade,
mais intensa a dor:
visito velhos demônios,
invento novos amores.
Num escrutínio, em segredo,
apuro meus meios e fins:
seleciono a dor ou gozo
voto na paz ou na guerra
tento apagar o vulcão
que grita dentro de mim.
Banho
Banho os olhos na saudade
e a beleza é somente
quadros em minha parede
espelhos que rejuvenescem.
Um dia aqui estive
vibrando aos sons e à luz
desta vida e cores,
desta força e prece.
Hoje saudades acordam
no doce balanço de rede,
neste mergulho fundo
onde meus olhos navegam.
Lembranças
Nos baús a gente guarda coisas quase sem sentido:
bugigangas, velharias, muitas memórias, saudades...
Liberdades já perdidas
e aquelas que nunca tivemos.
Cascos de cavalo em ladeiras
sinal de que algum viajante
um dia por ali passara
e, se por certo o fizera
talvez fora a algum lugar,
talvez de algum lugar voltara.
Rastos de juritis na areia,
brincadeira em ziguezague:
acolá ainda existem
sombras de juazeiros
e na memória ou num terreiro
ainda balançam pés de gabiroba.
Longa estrada de areia
grotas fundas, ribeirões,
macambiras, vassourinhas,
carne-de-vaca, tinguis...
estas lembranças ao certo
podem ser tuas ou minhas.
Memórias
Nuvens de chantilly ou véu,
tramas de papel:
poeira e vento de agosto
cores de pincel
bambu em talas
cola de grude
bola de meia ou de gude
riscando o chão dos quintais.
Tempo de esquecer
canções de ninar velhos:
velas de barco ou de nuvens
ventos de inverno
papagaios de papel...
divagações, divagações!
Besta ilusão de avô
que já perdeu a razão
e no espaço vazio,
qual taquara ao vento,
vaga sem rumo
no azul do céu.
Quem me dera!
Quem me dera se a memória fosse agora
um retrato na parede
que no vazio da sala risse e contasse histórias.
Quem me dera ser outra vez menino
acordar com o badalar dos sinos
da igreja da matriz.
Quem me dera poder desfiar pano de chão
a atar cada pedaço com nós mal feitos
amarrar a ponta numa folha de caderno
e correr pela rua dançando e subindo aos céus.
Quem me dera ter a alegria pura de viver
sem a ilusão desses templos modernos
de criança confinada em condomínios.
Áh, quem me dera
ser outra vez menino!
Reminiscências
Naquele tempo ainda existiam vaqueiros:
eles eram muitos, num total de seis,
além do João que cuidava
da máquina de desnatar
e eu não sabia contar!
só tinha olhos,
¬ embora ainda pequenos ¬
que para além do terreiro
só viam o pé de juá.
Mas quantas saudades tenho
daquele pobre lugar!
vontade de ver mais longe
ou fechar os olhos, sonhar.
Existiam também as fontes e suas muitas ladeiras,
hortas grandes pra regar:
os pés mergulhados em cacimbas
as cuias em brincadeiras
tangendo a água no ar.
eu, tão pequeno, treinava
molhando os pés de tomate
e ainda sobrava tempo
pras pinhas e goiabeiras.
Mas quantas saudades tenho
daquele pobre lugar!
vontade de mudar o mundo
ou de canteiros regar.
As viagens eram curtas, mas demoravam acabar:
frágil e doente que eu era
penava para vencer chapadas
e aquelas trilhas de areia,
mas quando vinham as ladeiras!
descer, até era fácil,
mas subir o ribeirão, só eu sei,
o quanto pernas bambeiam
pisando na bagaceira.
Mas quantas saudades tenho
daquele pobre lugar!
vontade de mostrar pro mundo
a vontade que me dá...
Vontade de estender a vista até onde ela alcançar,
vontade de contar vaqueiros ¬ já que hoje sei contar ¬
e molhar pés de tomate, catar pinhas e goiabas,
pisar a areia das trilhas,
ou subir pelas ladeiras e no bagaço escorregar;
descer Ribeirão abaixo e em suas águas banhar.
Já venci pedras, bagaços,
quantas hortas já reguei!
subi e desci ladeiras e, para além do terreiro,
muito do mundo enxerguei!
Mas quanta saudade eu tenho
daquele pobre lugar!
vontade de nunca ter vindo,
vontade de nunca voltar.
Mar sonhado
Em rua de areia
meninos brincavam
com bola de meia:
pequenos gravetos
ou velhos chinelos
marcando o estreito
espaço do gol.
Barrancos de açude
¬ mar seco, sonhado ¬
nas ondas em curva
meninos surfavam
e alegres, felizes,
enfim mergulhavam
no que fora poço.
No chão das calçadas
de terra batida,
todo fim de tarde,
meninos brincavam
de cinco marias
bafo, amarelinha,
pega e ovo choco.
Óh bestas lembranças
de olhar orvalhado!
teu lençol descansa
negando-me as pontas
das coisas passadas,
mas nesse horizonte
sou lua na noite!
Manhã de inverno
Pela cortina entreaberta
de minha líquida janela
espio acinzentadas nuvens,
que na transparente manhã
lembram lençóis pendurados
no varal de minha infância:
balanço de brisa
em frios de outros invernos
quase esquecidos!
Apago a luz
como a tarde apaga o dia
fecho um livro de poesias
e o deito sobre a cômoda
cerro de novo a cortina
tentando anoitecer o quarto
fecho os olhos e me aconchego
entre cobertores,
mas o lençol, lá distante,
ainda dança, dança, dança...
Doces lembranças de Helena!
Quadrado(r)
Percebo: não devim poeta!
também não sou prosador:
as coisas que nunca vi
não sei contar pro senhor.
Só aprendi rimar com verbos
escrever para mim é dor:
machuca, queima e fere
igual desprezo de amor.
Dói com saudades de um tempo
que no passado ficou
deitado numa janela
observando uma flor.
Lá fora, lugar distante
O tempo me envolve com sua cortina branca
e transparência de voal.
Vejo, qual sombra na memória,
o meu primeiro amor passar lá fora
num lugar esquecido do tecido
numa fina membrana de lembranças:
branca nuvem a se desfazer no céu de maio
em fios puídos,
em desmaio azul de outono.
Agarro-me às pontas que escapam
no exato instante desse movimento
onde o tempo é só uma perspectiva
que me atira no longo campo da memória
uns lençóis a me envolver
num casulo circular:
crisálida guardiã
de nossa linda história.
Só lamento o que me escapa
lá no fundo desse movimento
onde jaz retido o tempo.
Luto, invento,
mas não consigo tocá-la
ou dar-lhe um abraço;
sequer consigo sentir
a paz calada de tua respiração
o delicado calor de tuas mãos
que se estendem
num triste apelo de enlace.
num triste apelo de enlace.
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