Acordar
do pesadelo e sentir que a memória
já não
lembra mais de ter sonhado...
Conveniências
Convém
ao rio
certo
balanço de leito,
um
serpenteio, um remelexo,
curvas
em calmo movimento,
escorrego
de pedras,
segredos
de azul e transparências,
saltos
de cachoeiras,
brincadeiras
com o tempo,
ser
transparente e líquido
e
ter muita sede de mar.
Ao
poeta resta o olhar
e
algumas vezes se banhar
na
nudez das corredeiras.
nas
cachoeiras se deitar,
sentar-se
em alguma margem
e no
despudor, na vadiagem
acariciar,
seduzir, amar
e
então, cheio de poesia,
de
tesão e de vontades,
na
transparência cristalina de algum rio
mergulhar
vadio, se embriagar.
Paisagens
A noite na chapada é pura solidão!
Sentada
num fio de alta tensão
uma
coruja namora
a
despudorada beleza da lua.
Naquele
mágico instante
os
olhos do poeta,
sem
nenhum pudor,
abusa
daquela noite nua:
despe
seu olhar
e ama as duas.
Tarde
Minha pele quase queima
nesse
calor infernal
nesse
cheiro de queimadas
que
ao sopro morno do vento
reclama
a tarde de sábado.
Olho
triste o sol poente
com
vontade de vagar
por
uma trilha no mato
e
quem sabe mergulhar
pés
cansados num riacho.
Na
impossibilidade de ter
meus
desejos satisfeitos
sento-me
conformado
e me
ponho a escrever
sobre
trilhas e sobre águas.
Assim
amenizo o calor
apago
o fogo por dentro
serpenteio
nos caminhos
de
algum riacho que invento
para meus olhos desaguarem.
Pensar
ou sentir
Vincos
no solo seco de algum açude
rolinhas
pardas catando coisas invisíveis
na
areia vermelha da estrada
e um
quem-quem a reclamar ao sol.
Um
passo é só um passo, mais nada!
Um
olhar é só observação vazia
e, o
ouvido, a fria busca dos sons
ao
ritmo de seriemas nas chapadas.
O
andante sente, mas não pensa,
porque
pensar é pontuar os sentidos,
é se
prender às regras gramaticais.
Por
isso é preferível sentir
cada
passo dado, cada olhar vadio
e não pensar em nada, nada...
Andanças
Pego
uma trilha
¬
qualquer encosta de serra ¬
um
chão vermelho
muitas
curvas e atalhos
e
passo a passo
vou
contando o tempo,
vou
costurando espaços
onde
meus olhos vagueiam.
Vejo
o Nô, vejo o Valdê,
abraço
o índio Joaquim
e
numa encruzilhada
perco
o caminho:
vou
parar numa vila
por
nome de Malobri:
Faço
amigos por ali
depois
volto a Santa Fé.
Na
aridez das chapadas
revejo
Chapéu de Pedra
e um
lugar muito bonito
chamado
Tamanduá.
Depois
de descer as serras,
já
chegando em Bucaína,
Deixo
atrás Suçuarana,
já
em Brasília de Minas.
Conto
os passos,
conto
o tempo
e
paro para um café
no
deserto da chapada...
Revejo
velhos amigos,
acampo
em qualquer lugar
sou
um pequeno andarilho
que
nunca deixou de sonhar.
Minha
carteira de identidade
Na
vastidão de mundo
meus
olhos ganham liberdade,
meus
pés recriam caminhos,
meu
corpo cheira a mato,
minha
alma vira passarinho
e,
nos fins de tarde,
pousa
e canta num pé de baru...
Verde
solidão dos serrados.
O
ciclo da vida
Cachoeiras
caem sobre as pedras
incansáveis
como o tempo
e
com esse se renovam
a
cada instante:
elas
cantando o ciclo da vida,
ele
contando as eras.
Descanso
em meu acampamento
à
entrada de uma caverna,
pacientemente
escavada
pelo
ciclo das águas
durante
milênios.
Em
paz,
provo
a embriaguez
dos
sons de riachos
e
medito sobre as águas,
as
pedras, o tempo e os homens...
Meus
olhos,
embebidos
nas belezas e formas das pedras,
buscam
incansavelmente as serras,
clamando
por espantos.
Por
um instante
creio
ser feliz.
Levanto-me
a cada dia
certo
de que tenho algo para plantar
e,
portanto,
sempre
tenho o que colher:
já
andei todas as trilhas e caminhos
que
meus pés aguentaram;
amei
todos os amores
que
meu coração conseguiu amar.
Meus
olhos já miraram, espantados,
todas
as coisas que puderam contemplar:
os
riachos, os ribeirões,
os
rios, as chuvas, as chapadas,
as
flores e os frutos verdes e maduros...
Tive
amigos e amigas,
tive
família e abrigo...
que
mais poderia desejar?
Somente
a paz e o amor
para
todos os corações desassossegados
e
caminhos para os pés
que
ainda não aprenderam a caminhar...
Infinito
só!
Comprido
chão de andar
andor,
mortalha,
dor
de estar
sempre
à busca de um lugar
que
não se sabe mais
onde
encontrar.
Vinha
caminhando
alegremente
e
parei para descansar...
Quando
acordei
já
não era eu!...
Minha
casa interior
Minha
casa é uma casa simples:
não
tem muros, não tem lajes
e
pelo telhado, já manchado de bolor,
quando
chove forte
entra
uma espécie de chuvisco
e
banha minha alma interior.
Nas
paredes de minha casa crescem samambaias,
musgos
pintam de um verde calmo,
na
textura irregular,
tapetes
pros lagartos repousarem
e se
aquecerem nas manhãs de sol.
As
portas de minha casa são desprovidas de fechaduras:
somente
frágeis taramelas
que
uso quando o vento as põe a balançar
e
nunca para deixar
as
coisas do lado de fora.
Isso
porque,
quando
me deito ao fim do dia,
cansado
do trabalho,
trago
comigo tudo que a vista apanhou lá fora:
a
simplicidade de uma flor,
a
paz serpenteante de um riacho,
o
canto de um pássaro,
uma
estrela que no céu apareceu mais cedo,
o
azul celeste que fechou os olhos
e
foi dormir envolto no cobertor da noite.
Guardo
na minha casa interior tudo que o meu coração amou:
os
campos, as encostas das serras,
o
espelho d´água de riachos
e a
imensidão do céu;
guardo
os silêncios e ruídos de estações,
a
planície parda das chapadas
e as
alegrias tristes dos sertões...
guardo
também os risos das meninas,
as
flores bem cuidadas de um jardim
e as
compridas estradas,
onde
posso me encontrar ou me perder.
Sonho
de menino
Um
menino caminha
ruminando
sonhos
¬
todos belos, suponho! ¬
e
deixando para trás os rastos
que
logo vão se apagar
da
areia vermelha
de
seu estreito caminho.
Sei
que outros meninos
da
mesma forma ruminam
seus
milhões de sonhos
e
dessa infinidade de caminhos
sei
que seus frágeis sinais
em
breve se perderão
na
invisibilidade dos sertões.
Só
os sonhos irão permanecer para sempre
enquanto
nesse mundo viver algum menino.
Capim
amargo
Mascar
um talo de capim amargoso:
gostoso
é não pensar em nada
e na
estrada andar sem direção,
olhar
distraído os areais,
sentir
o cheiro dos currais
e
não ter pressa demais
porque,
afinal, a vida
não
tem lugar
nem
hora de chegar.
Passo
a passo,
há
que se caminhar
até
o dia em que ela
mansamente,
assim
como o amargo
de
capim mascado,
resolver
chegar
ao
fim.
Caminheiro
Andava
descalço
quando
um vento falso
no
encalço de moinhos
apanhou
meus leves passos
e
fez deles passarinho.
Vertentes
Com saudades de alguém que tanto amo ou amei
Nas
trilhas de meus sentidos
¬
caminhos de chuva fina ¬
vou
devagar, vou sem pressa
solvendo
da fresca manhã
o
doce cheiro da terra.
Às
vezes conto meus passos
à
busca de algum motivo
para
fugir aos sentidos
da
ausência de afetos,
mas
tal qual um arquiteto
faço
a ti meus monumentos:
curvas
finas, delicadas,
doce
ilusão de um retrato,
extrato
de meus sentidos,
caminhos
nunca trilhados.
É
então que me deparo
com
uma nova armadilha:
nas
distâncias que separam
a
cadência de meus passos
surge
um ritmo, um compasso
de
música que quase canto;
sinto
o sal e o calor
de
uma gota que escapa
e,
correndo por minha face,
se
mistura com a chuva
se
aquieta nas distâncias...
Não
há nada que enxugue
dessa
minha arquitetura
¬
doce forma imaginada ¬
as
lágrimas já derramadas
àquela
que um dia fora
todo
caminho trilhado,
todo
frescor de sombras
de
tantos pés de juá,
toda
flor que nos caminhos
caíram
em minha mirada,
toda
doce gota de chuva
que
desce pelos cabelos,
todo
afeto, todo zelo,
e
até esquecidas lágrimas
entornadas
de meus olhos
nas
distâncias das chapadas.
Vagâncias
Numa
curva qualquer
de
uma linda flor
eu
me perdi.
O mundo
pesa,
mas
aos meus ombros apraz
somente
leveza de brisa.
Num
fim de tarde
mergulhei
fundo no rio
e
saí cheio de musgos.
Uma
seriema encantava
a
vastidão e cores da chapada,
mas
a solidão era só minha!
O
sol deitava seu sono
lá
no fundo da paisagem
e
uma corujinha espiava a noite vinda.
Lacei
um fio de lua
e
com ele armei minha tenda:
deitei
no colo da brisa e adormeci.
Ao
contrário de
Ao poeta Carlos
Drummond de Andrade
Vinha
vindo devagar
quando
no meio do caminho
vi
que tinha
não
uma pedra,
mas
serpenteante riacho.
Entrei
no bonde lotado
e
meu coração aos saltos
não
disse nada!
porém
meus olhos vadios
despiram-me
às cores e risos.
Um
cavalo segue a galope
e
meu branco terno de linho,
em
labirinto de vidro,
cai
sobre as pedras
transformando
em cacos meu pobre destino.
Sou
menino e nunca li
sobre
a sombra do juá,
um
robson que fosse crusoé,
mas
vi estrelas de infinita beleza
que
desvelaram todos meus segredos.
Às
vezes tenho medo
de
ser um avô gagá
querendo
ouvir o canto
dos
pássaros que pintam o céu
e
ver meu neto troçar
da pobreza de meus
versos.
Sonhos
pequenos
Um
pequeno caminho andava distraído
até
que, numa curva comprida,
deparou
com um atalho
e,
espantado, encolheu,
murchou
até sumir no horizonte,
já
no fim de uma chapada,
onde
jazia,
revestida
de cascalhos,
uma
longa estrada.
Na
encosta de alguma serra,
a
espelhar o azul do céu,
brincava
entre o verde
um
menino riacho:
lagoava,
descortinando planícies,
tecia
florestas com cristalino fio
e
longe, muito longe,
depois
de pontiagudas quedas,
dormitava
em leito de rio.
Diante
de sua pequenez
o
andarilho, alheio a tudo,
olhos
cravados no nada,
molhava
os pés cansados
nas
águas de algum riacho,
arrastava
caminhos e estradas
e,
já deposto o imenso azul,
envolto
em lua de prata,
sonhava
rios e cascatas.
Andarilho
Tendo
as muitas ladeiras
o
peso da subida,
sendo
aqueles pés de serras
pura
solidão de pios
e a
largura das chapadas
fio
de tardes separando céus
Assim,
deitado sobre a brisa,
o
silêncio acende a lua
um
andarilho vaga
sob
o brilho cálido das estrelas
e
uma constelação distante
Bambual
À minha tia Rosália
Caminha
menino,
caminha!
Teu
caminhar é passo
a
desprender-te desse chão de visgo
Teus
sentidos são olhos
em
horizontes de paisagens vastas
Teus
braços são asas
valsando
sobre a vastidão do mundo
Tua
respiração é sopro de vida
que
desvela todos os segredos do universo
E
tua dor um ribeirão cristalino
buscando
se perder na imensidão do mar.
Caminha
menino,
caminha!
Voo
de pássaro
Encostado
num
canto de mundo ou de pássaro
viajo
sem adeus, sem partida,
sem
estação, sem despedida,
sem
bagagem e sem destino.
Vou
indo por aí!
Pra
onde vou?
Voo
para qualquer canto
de
passarinho
ou
de mundo.
Parar
não ouso,
mas
onde houver
um
ramo de flor
nele
farei pouso.
Memórias
Lá
vai um menino,
de
pés descalços,
pelas
trilhas de areia
deixando
marcas, memórias
que
nunca vão se apagar
de
seu livro de histórias.
Lá
vai um menino,
com
seus sapatos finos,
pelas
ruas e avenidas
deixando
marcas
que,
ao virar a esquina,
serão,
ao certo, esquecidas.
Amo
o simples
porque
o concreto é desmemoriado.
O
rio e o poeta
No
vago horizonte
o
olhar se vai,
livre
como pássaro
até
perder-se completamente
no
infinito róseo
de
um fim de tarde;
Abaixo
o rio é manso
e
não se cansa
de sua
eterna caminhada
rumo
ao mar.
Vermelho
e doce
um
raio de sol desce,
passa
por entre as folhas
de
grandes árvores
e
vem se despedir
beijando
a face do poeta
depois
lança sobre a terra
seu
manto negro
que
aos poucos
revela
suas pérolas.
Os
pássaros passam
solitários
ou em bandos
à
busca de seus ninhos;
o
balanço das águas
nina
um último raio
que
logo dorme
em
seu leito de cristal;
a
noite é mansa e calma
como
o sono calmo
de
mulher que muito amou.
Na
penumbra
um
barco desliza
solitário
como a lua
que no
nascente
aos
poucos se levanta;
no
meio do rio
tudo
é calmaria
e,
sozinho no barco,
o
poeta arma laços para a lua
e
canta a beleza doce da noite.
Assim
na eternidade
dos
dias que ainda lhe resta
o
poeta até esquece
de
sua condição humana:
no
abrigo daquela noite
beija
a brisa, ama a lua
tendo
o céu por cobertor...
E na
sua vaidade
pensa
até que ninguém mais
viveu,
assim, tão grande amor.
À
margem
Transito
entre o centro e a margem:
no
centro, qual folha seca ao vento,
me
desapego do galho de antes
e
mergulho no incerto depois:
revivo,
assim, minhas tempestades.
À
margem vislumbro,
como
num sonho ou pesadelo,
a
possibilidade do novo
e
assim no infinito das eras,
paciente,
espero ser novamente folha.
Sinto-me
feliz ao perceber
que
posso reinventar
muitos
barrancos de rios.
Parece(se)r
Parece(se)r
Penso que uma flor
não resulta de meticuloso ensaio:
ela surge do acaso
colhido no serpenteio
das muitas trilhas
entre moitas de macambira,
entre pedras que ornam ladeiras,
entre cantigas de lavadeiras
nas mornas tardes de ribeirões.
Nasce da voragem das cheias
que rasgam os grotões
nas inigualáveis tempestades de verão.
Nasce dos açudes secos,
das rezadoras e suas ladainhas,
dos passos fatigados e olhares vadios
de algum andante.
Nasce de um único instante,
sem outro igual
em toda eternidade
passada e futura.
Nasce, enfim,
da complexa estrutura
cuidadosamente costurada
nas entrelinhas da vida.
Contradições
Sobre
a tela de minha memória
sequências
longas de uma vida inteira
e
muitos fragmentos de histórias
vão
se projetando como num filme
sobre
os sonhos de um menino triste.
O
canto longínquo de uma cigarra
se
confunde com as lavadeiras
e
com os gritos de um carreiro solitário
tangendo
bois nas encostas das ladeiras:
seus
sonhos largos, seu caminho estreito.
Igual
à cantoria que nos eitos,
nas
primeiras limpas de outubro,
anunciam
aos patrões farta colheita
¬
promessas do chão úmido e em cio ¬
essa
alegria tristonha dos sertões.
Parece
até o olhar de um menino
em
passeio por chapadas vastas
onde
colhe, dos sonhos pequeninos,
pedaços
de mosaico com os quais monta
a
alegre história de um menino triste.
Avesso
Eu queria
ser criança:
ser
livre para reinventar as coisas,
livre
para descobrir
a
beleza cristalina de açude seco.
Por
isso procuro o avesso das flores
que
não existem no pardo chão das chapadas.
Felicidade
Respingos de luz do sol
nas entranhas da floresta úmida,
brilho de pássaro que se agita,
aranhas que tecem nas folhas
armadilhas caprichosas...
Enquanto um riacho canta
serpenteando as encostas
com o seu brilho de prata,
entre as ramagens da mata
borboletas revoam sobre flores.
Na extensão da paisagem
por entre o pasto orvalhado
pelo frio da madrugada,
passo a passo, lentamente,
caminho e respiro o meu vagar.
Os olhos devoram paisagens,
os ouvidos buscam distante
o canto das seriemas
e no céu, lá bem no alto,
indiferente a tudo, navega um jato.
Férias voando em alturas,
nas trilhas com os pés no chão
ou a ver televisão
no conforto dos sofás.
Férias a caminhar
à beira de um ribeirão
reparando sem pensar
roda aquela vastidão.
Se eu pudesse diria,
mas não posso avaliar
onde um coração costuma
felicidade encontrar.
Não ser poeta
Poeta eu nunca fui
nem tenho a pretensão de ser:
sei que existem
meninos dentro de mim
a reparar açudes secos,
chapadas longas,
caminhos tortos
por onde pés cansados
desafiam a epiderme bruta da terra
e cortam distâncias
à busca de sonhos.
Escórias
Escorreguei no
barranco
caí inteiro no laço
o bicho voou
e eu fiquei preso
Naquela curva
tinha uma pedra
onde o caminho
tropeçou,
mas quem caiu fui
eu
No levante
uma barricada se
ergueu:
fugi da guerra
e do tiro certeiro
Não temo o laço
nem o tropeço!
ouço o estrondo:
pego a bala mortal
e dela faço um ponto.
A lua e o poeta
A lua é vaga
e do céu desta
cidade espia
a solitária
inquietude do poeta.
O poeta é mágoa
e na ansiedade de
fazer poesia
carpe da luz da lua
as rimas que lhe restam.
A noite é tela
onde a lua em sua
vastidão passeia
pintando a alma
angustiada do poeta.
O poeta é nada,
quando a aurora do
dia incendeia
queimando a tela e
dissolvendo nela a lua cheia.
Caminhar
O caminho é longo,
como é longo o
caminhar!
cada passo que se
dá,
nessa cumprida
estrada,
é tão pouco ¬ quase
nada! ¬,
do espaço todo da
vida
onde temos que
passar.
Há dias em que a
gente está triste,
noutros calados a
pensar
nas coisas e nos
sentidos.
às vezes, com
alegria desvairada,
não reparamos nada
e no burburinho das
tardes
preferimos bares e
calçadas.
Ainda bem que
existem,
embora em menor
quantidade,
dias em que a gente
é criança
e deixa tudo isso
de lado!
até o olhar fica à
solta,
sem interrogações
nem bebidas,
apenas reparando a
vida!
Tarde de sábado
Enxugo os olhos da
alma
no véu transparente
da tarde:
lembrança, qual
lençol alvo
estendido num
varal.
Sobre o travesseiro
da noite
repouso o peso dos
anos,
essa mudez que em
mim açoita
tempestades,
vendavais.
Entre os muros dos
quintais,
por toda trilha
onde ando
na solidão me deito
e calo.
Assim, perdido,
distante,
no breu da noite
disfarço
meu silêncio
essencial.
Fim de tarde
Sei o quão estreito
é meu passo
e até duvido do que
penso e do que faço,
mas creio que um
dia, cedo ou tarde,
no embalo de um
sono, sereno e eterno,
hei de ser, para
uns poucos, apenas sonho
e, para todo resto,
esquecimento e
sombra.
A cada passo dado
sinto puir as
fibras desse laço
que ao chão me ata,
mas depois me cala
no embalo do cair
da tarde.
Laço que também me
enlaça
no embaraço
melancólico, cansado
dos raios de sol de
fim de tardes
e que, ao som do
cantar de seriemas,
silencia, nas
linhas de um poema,
o sol poente a
dormitar.
Breve, até!
Fui
ali, além,
noutro
lugar
longe
daqui.
Morri:
coisa
rápida!
Volto
já:
ressuscitado.
Deriva
Minhas penas se
soltaram
deixando minha alma
nua
de tal maneira que
há muito
vivo nesse
vai-não-vai:
desejo ser
passarinho
mas meus pés do
chão não saem.
Essas penas
desgarradas
voando soltas no ar
são iguais meus
passos bambos
tropeçando nas
calçadas
a implorar a
caridade
de algum sopro de
asas.
Vivo apenas meu
passado
e mesmo o que é
presente
num instante
passará
como meu trôpego
passo,
que mal sabe
caminhar.
É assim que minhas
penas
sem asas para
emplumar,
vagando soltas ao
vento
parecem, por um
momento,
barco a deriva no
mar.
Eu, sabiá
Juro que não sabia,
até ver o sabiá,
todo prosa e sábio,
se sacudir, se
banhar
no canteiro central
da avenida.
Eu sentia que ainda
não estava lá:
vagava aqui e acolá
a sonhar com
cachoeiras
e riacho onde lavar
todas minhas penas.
Semear
O menino andava solto
pisando a areia da chapada;
braços abertos, qual asas,
voo de pássaro ensaiava.
Os seus sonhos
¬ quase nada! ¬
mais curtos que o horizonte,
¬ sequer sabia de mar! ¬
cabiam inteiros na fonte
e na sombra do juá.
Um dia ele tomou jeito
e, ainda menino mal feito,
resolveu se arriscar:
pegou a primeira trilha
que havia no lugar
e, ao longo do caminho,
começou a semear
os seus sonhos pequeninos.
Em pouco tempo o menino,
com seus olhos espantados,
viu seus sonhos germinarem:
nasceram deles muitas flores
para a vida perfumar
e, aqui e acolá,
entre pássaros a revoar,
surgiram, não se sabe de onde,
límpidas e cristalinas fontes,
alguns ribeirões em cascatas,
outras tantas e frescas sombras
de muitos pés de juá.
Hoje, um pouco crescido,
dissimulado, atrevido,
o menino às vezes dorme
à sombra de juazeiros
e até sonha com mar.
Margem
Cato cacos na
paisagem,
vago à margem do
imperfeito
ando a esmo numa
estrada
a busca do que
desconheço.
Mereço um tempo, um
descanso,
mas prefiro o
recomeço...
Miro o alvo e nunca
acerto:
sinto-me tão perto
do nada,
tão perdido nesta
estrada!...
Oscilo cada vez
mais perto
deste abismo de mim
mesmo.
Onisciente
Um vento úmido
soprava sobre a
chapada
enquanto uma ave
única
navegava ao seu
encontro
a testar a
resistência
de suas asas
travessas.
Um poeta besta
andava pela estrada
reparando aquela
ave
e de tanto contar
passos
teve até, por um
instante,
inveja daquele
pássaro.
Ao
(in)verso dela!
Sem
vírgula nenhuma
sou
mais humano que uma pedra
ou
aquilo que se esconde embaixo dela,
sou
menos ou mais que uma ameba
e
outros vermes que em mim habitam.
Sou
grito:
bruto
arranhão de derme
que
constrói erupções na pele,
mancha
e fere
a
alma e os sentimentos.
Sigo
navegando
qual
barco em meio ao temporal,
qual
roupas, ao vento, num varal,
onde
a memória
é só
um self de momento.
Não
tenho amigos:
perdi
minha história no tempo,
lanço
impropriedades ao vento
e,
das folhas que rolam ao chão,
recolho
o pardo de estações.
Sei
que cedo ou tarde
o
meu barco à deriva, num mar imenso,
há
de naufragar em suma tempestade
e
quando ela não existir mais
o
que serei?
Talvez
rochedo onde as ondas quebrem,
mirante
no qual alguém, sentado nele,
observe,
ao fim das tardes, seus mistérios
e
desconfie dos sentidos e mazelas
de
ser, na vida, não mais que verme e pedras.
Espanto
Era
quase meia-noite
e
atravessávamos o aglomerado, rumo à lagoa,
para
as festas daquele fim de ano:
eu,
minha esposa, meu irmão,
a
cunhada e meu sobrinho de três anos.
Foi
quando no escuro, junto ao muro,
percebemos
estranhíssimas figuras
e
cheios de juízos e conjecturas
pensamos
que, àquela altura,
estaríamos
todos já perdidos.
Na
ânsia do inevitável confronto,
lembrei-me,
confuso, tonto,
de
um programa de tevê
no
qual um leopardo faminto
matara
um símio fêmea
e,
com ele, seu frágil filhote.
Mas,
naquele instante trágico
o
mais temível entre os quatro
cumprimentou-nos
e falou solene:
“lembro-me
de quando, ainda pequeno,
o
senhor brincava com a gente
e
fazia-nos, sem cobrar por seu serviço,
os
mais lindos papagaios de papel”.
Respiramos
aliviados e os abraçamos
com
votos de um ano bom e feliz,
mas
para além de tudo isso
ficou
um sentimento torpe:
resquícios
de tão falsos juízos.
Sagrada
família
Morena, cabelos soltos,
o pequeno preso às costas,
pilava, ao lado do poço,
alguma coisa pro almoço
enquanto esperta, ligeira,
seu olhar atento vigia
a brincadeira dos filhos.
Crianças, qual anjos nus
correndo pelo terreiro:
seus corpinhos sujos,
vermelhos de pó e chão
sobre a sombra de mangueiras
compunham, numa antítese,
imensa tela sem madona.
Olhos fundos, rugas precisas,
pele de ébano no alpendre
junto ao batente da porta
escorado, se aprumando,
o velho José ia dizendo:
“Vamos chegar seu moço,
não precisa de ter medo:
os cachorros daqui não morde não”.
E na meia luz da sala,
pés esguios, gestos ligeiros,
via-se o vulto da menina
espiando sutil o movimento:
tão especial e raro instante
em que seus olhos vivazes
daquela meia luz miravam
o igualmente raro visitante.
O menino deu seu recado
despediu-se e foi embora
levando para sempre na memória
a quase perfeição daquele
quadro.
Sonhar
Mãozinhas em concha na bica
filete
de água macio
a escorrer
por entre os dedos:
sonhadora
a menina brinca
de
lavar os seus segredos,
de
dançar no espelho d´água
do
pequenino regato,
de
seguir seu serpenteio
por
entre flores e ramagens
pensando
que nessa miragem
seus
sonhos irão navegar
até o encontro com o mar.
Jardins
da China
Em passeio matutino
reparei que os olhos dela
deitavam-se em desvario
por uns jardins bem ornados,
com flores, sapos, joaninhas
e passarinhos de plástico.
Depois fiquei a reparar
pessoas passando por mim,
avenidas, praças e chafarizes,
pensando como seria infeliz
se a natureza fosse, assim,
um mundo feito de plástico.
Então, ao ouvir um sabiá
a cantar alegremente
pousado num flamboyant róseo
comecei a procurar
aquelas bolhas de sabão
que ele deveria lançar
na mecânica de seu canto.
Mas ao voar para outro galho
vejo que sua produção
não é de tudo industrial:
tem filhotes, tem um ninho
bicos famintos, reclames,
fora do padrão made in China.
Ligo só para te dizer
que sou feliz e ainda a amo,
embora tenha um smartphone;
informo também ter visto
um lindo sabiá que canta
sem fazer bolhas de sabão.
Rimos mecanicamente,
mas creio que ficou evidente,
diante de tais circunstâncias,
que nem tudo que voa é drone
e nem toda flor é de plástico...
ainda!
Espelho do tempo
Serpenteia
serra abaixo
um
cristalino riacho
que
em doce sonoridade
canta
saudades ao vento.
Cai
travesso em cascata
sobre
pedras, verde, manso,
corre,
às pressas, rumo ao mar
sem
reclames, sem descanso.
Em
seu leito, a refletir
lua,
sol, chuva e vento
nas
frágeis folhas de avencas
todo
mistério do tempo!
Bom
dia!
Hoje é somente mais um dia
quase
como outro qualquer:
ao
levantar vista-se de fé
e na
mesa do café,
mesmo
que algo lhe falte,
creia
nas mãos de uma mulher
que
a preparou com maestria
e,
toda pia, ornou tua mesa farta.
Lembre-se
ainda, mesmo que farto,
daquela
que te carregou no ventre
como
uma semente de onde nascestes
e,
além de tudo, com cuidado,
te
protegeu desse mundo louco
para
que, ao amanhecer de qualquer dia,
possa
se por de pé sem vacilar,
saborear outro café e, talvez, amar.
Marias
À Ana Terra e outras tantas meninas
¬
água limpa pra beber! ¬
e na
cabeça da menina
lindos
sonhos de mulher.
Passo
firme lá vai ela
a
subir pelas ladeiras:
uma
chama no olhar
um
reclame nas cadeiras.
À
tarde, quando descansa
na
longa varanda do olhar
uma
rede triste desponta.
E,
mais tarde, ao se deitar
no
seu catre, lenha em chama,
se
banha em água de mar.
Chuvas de primavera
e
foi dormir roxa de frio.
A
rosa desabrochou
ao
primeiro barulho do trovão.
A
onze-horas aconchegou-se em pétalas
num
sono longo de tardes.
A
amarílis nem fechou os olhos
ao
furor de raios em seu caule frágil.
As
margaridas, atrevidas, olhavam o céu
à
busca de suas irmãs noturnas.
Fechei
minha janela aos jardins e fui dormir
ouvindo as últimas gotas no telhado.
Mulheres
Vejo o mar em movimento
entregue
às carícias do vento
a se
lançar sobre areias
a se
roçar nos rochedos
úmido
sabor de sal e cio,
zelo
de ventre e de crias.
Olho
a sanha das florestas
entregue
ao gozo de insetos
ofertando
aos passarinhos
todo
aconchego e abrigo
a
soprar frescor e vida
pelas
sombras dos caminhos.
E
aqui bem do meu lado
hipótese,
tese e antítese
num
diário de mulher,
síntese
perfeita da vida,
dança
criadora dos mares,
flor germinal das florestas.
Aos
santos de Felisberto
Ana era o nome da mãe,
Maria
a filha mais velha,
depois
dela era o Tomé,
Pedro
e Simão vinham a seguir
fechando
com Mateus e André.
Sempre
colhiam macaxeira,
milho,
feijão, gergelim
e,
naquelas enormes leiras,
carás,
batatas e amendoins
adoçavam
as colheitas.
O
inverno inteiro era de samba,
mas
até maio, suor e trabalho.
Muitos
santos pros festejos
daqueles
santos de nome,
de
alma limpa e de fé.
A
pele da cor de ébano
ao
sol de todos os dias:
cantigas
em eitos festivos,
poesia
e danças de África
na
voz da irmã Maria.
E a
gente nunca soube
do
que aqueles quilombolas
seriam
deveras capazes
se
lhes fosse dado a terra,
a
liberdade e a escola.
Não
se sabe bem direito
se
por inveja ou por medo,
se
por vingança ou despeito,
negamos
todos os direitos
àqueles
santos de nome e alma.
Reflexões
pueris
Contava uma ou duas
pequenas
flores de romã
e
ficava feliz com meu rebanho.
Traçava
no chão do terreiro
o
pequeno território
de
minha propriedade
limitada
por gravetos.
Um
dia compreendi
que,
para além de meu quintal,
o
mundo tem lugar para todos,
mas
só alguns dele se apossam.
Não
se contentam com flores:
querem
todos os rebanhos
e,
ao invés de gravetos
cercam-nos
com bombas atômicas.
Às
vezes me arrependo de ser o adulto que sou.
Escolhas,
que faço?
Tenho fotos aos gigabytes,
vídeos
com a família no shopping,
tenho
dez cartões de crédito
carros
zero na garagem
e
investimentos em bancos.
Tenho
uma magnífica casa
com
suíte máster e living,
grande
varanda e jardins,
ampla
sala de jantar
onde
me sento sozinho.
Mas
o que queria mesmo
era
poder andar a pé,
conversar
com meu vizinho
ter
muitos livros e um cantinho
para
um café com alguns amigos.
Queria
ter um álbum antigo
com
muitas fotos desbotadas:
ao
invés de luxo, memórias,
e,
em lugar da mansão,
pequeno
rancho de histórias.
Abraços
Um braço enlaça
um
outro braço
e
juntos se amarram,
se
prendem
e se
aconchegam
num
longo abraço.
Sentir
no corpo
o
aperto, o sopro
da
respiração,
o
cheiro morno
e a
face do outro
quase
um si mesmo.
Mas
que distância
há
entre a constância
virtual
de outros abraços,
esses
que, em alguns bits,
fluem,
lassos,
nos virtuais espaços?
Sol
de Gaza
Oh sol que brilha
sobre
o céu de Gaza
aquecendo
velhos,
mulheres
e crianças!
Sol
que clareia os canhões,
as
bombas e os tanques!
sol
que cai sobre os soldados
e
suas mortais metralhadoras!
Sol
que ilumina o oprimido
e,
sem distinção nenhuma,
aquece,
também,
a
alma fria do opressor!
Óh
gemidos de dor, oh lágrimas!
óh
feridas abertas, oh mães!
óh
luz cálida das tardes!
óh
rugido louco de explosões!
Sol
que brilha em Gaza:
a
sua luz é dádiva,
mas
o opressor
não faz por merecê-la!
Brincadeira
de menino
Corre menino, corre,
corre
no seu faz-de-conta,
para
que o tempo nunca possa
tomar-lhe
a inocência da infância.
Não
deixe, por favor menino,
que
te façam homem formado,
pois
pode ser que queiram mesmo
que
amanhã sejas soldado...
Soldados
matam crianças,
matam
avós, matam amigos,
matam
sonhos, matam mães.
Por
isso menino, se te apraz
seu
brincar de faz-de-conta,
faça-o
na esperança de paz!
Da
alma, só!
Na transparência
os
vidros se quebram
e
seus cacos, esquecidos,
podem
até cortar.
Ser
opaco é não deixar se ver
inteiramente
por
dentro
e do
outro lado.
É
não ter sentimentos,
nem
segredos,
nem
alma,
nem
a quem amar...
É
não refletir no tempo
os
seus sinais,
nem
temer relâmpagos
em
dias de temporais.
Pena
da alma transparente
daqueles
que se quebram
frente
à opacidade bruta
desse
mundo de pedras.
Pena
das pedras
que
não se deixam ver
e
não têm alma
nem transparência alguma.
Escolhas
Uma
porta,
outras
tantas...
abertas,
fechadas.
Eu,
indeciso,
qual
equilibrista,
retenho
o próximo passo.
Ai
daquele que vaga,
mais
que as pedras,
pelos
caminhos tortos...
Abrindo
e fechando
portas.
Gratidão
A
todas essas flores lindas,
às
meninas e mulheres,
pelo
dom da vida, pela delicadeza,
pela
beleza e amor indescritível,
hoje
e sempre e a cada dia
de
todos os anos e eras,
nos
verões e nos outonos,
nos
frios de invernos,
nas
flores de primaveras...
Às
que desse mundo já se foram,
às
que ao mundo ainda virão,
às
que já são e àquelas
que
apenas sonham um dia ser,
quem
sabe, mãe!
Pesadelo
Entre
o sonho e o pesadelo
o
mais ingênuo é ele
que
não acreditou
nos
relatos do menino.
A
tia Anne, e não só ela,
mas
todos nós, sem exceção,
somos
vítimas da perseguição
desses
terríveis monstros.
Por
isso quando nosso neto
diz
que teve um pesadelo
sou
todo ouvido e zelo,
partícipe
de sua aflição.
Pergunto:
como não acreditar
nesses
inumeráveis monstros
que
nos devoram a cada hora
pelas
esquinas do mundo?
Não
crer nos sonhos de criança
é
perder a essência do olhar,
é anoitecer
o assombro do real
onde
vivem os monstros.
Flores
de meu jardim
Às vezes confundo as flores
e os nomes das mulheres,
talvez porque elas
em quase nada se diferem:
na beleza, no perfume,
nos encantos e delicadezas
e, mais ainda,
nesse dom muito mais divino,
que é o de trazer ao mundo,
sobre a imensidão inerte,
o grande milagre da vida.
Não
sei se foi amnésia
só
sei que já não me lembro
se o
nome dela era Gardênia
ou
se se chamava Helicônia.
Na
verdade até pensei
que
poderia ser Frésia
ou
quem sabe Iris, Lilac,
margarida
ou Hortência.
Lembro-me
de uma Angélica,
uma
Rosa... Ou seria Amarilis?
não
tenho muita certeza
se o
nome dela era Watsônia!
Annes,
Anas e Amélias
Marias,
Carlas e Glórias
Áureas,
Amandas e Gertrudes,
Filomenas,
Zeferinas ou Begonhas.
Com
todo meu pudor e sem ofensas
a
todas essas flores e meninas
¬ das
que me lembrei ou que esqueci ¬
por
fazer valer minha existência
os
meus sinceros agradecimentos.
Que
somos nós?
Alheio
aos ditadores
aos
regimes totalitários,
ao
extermínio de animais
e de
seres humanos...
Alheio
às máquinas mineradoras,
à
destruição das montanhas,
ao
corte de todas as árvores
e ao
poder da bomba atômica...
Alheio
à ciência utilitarista,
à
insolência do capital,
aos
homens lúcidos ou loucos
e a
nosso mundo porco...
O
universo segue em movimento
e
nada vai mudar isso!
ainda
assim nos proclamamos
os
únicos eleitos.
Devaneios
Amor,
não fique triste assim!
saiba
que só você e ninguém mais,
nem
mesmo eu,
será
capaz de conhecer
as
coisas horríveis que se escondem
debaixo
de minha pele.
Cria
não ser necessário
falar-lhe
de nossos segredos:
os
meus desejos loucos,
minha
fome doentia
e
essa paixão desgovernada
que
queima e depois esfria...
Meus
pesadelos, minha insônia,
minhas
penas, minha dor,
meus
versos, meus devaneios...
Eu
não queria, eu não devia,
mas
tenho que admitir:
é
preciso vigiar os meus demônios.
Pedofilia
Às
vezes me pergunto:
o
que será dos homens,
essa
coisa podre, indefinida,
que
entre todos os animais
conseguiu
ser o pior?
No
silêncio de uma noite,
no
vazio de mim mesmo,
lamento
não ter nascido outro,
outro
animal qualquer
que
não essa obscuridade e breu.
Minha
falta de medida
minha
pele de verniz,
minhas
máscaras de santidade...
só
mesmo eu sei
¬ e
muito me envergonho! ¬
das
coisas indizíveis que guardamos
em
nossos sótãos e baús,
em
nossos sujos porões!
Lamento,
lamento muito!...
E
choro pelas rosas
que
não maculei
e,
como um mártir ou réu,
trago
em meus ombros
o
peso do pecado alheio.
É
por causa dos homens
e
dessa insanidade sem medida
que
me sinto um sôfrego a emergir
desse
poço de insensatez fétida.
Um
certo canário
Um
canarinho poeta
dançava
com uma galhada
rindo-se
das tristezas
da
avenida apressada.
Mas
uma brisa ali passou
e o
acordou daquele verso:
sem
explicação ele voou
e
com a brisa foi embora.
De
saudades a galhada
chorou
todas suas folhas,
perdeu
o viço de flores
e
nunca mais dançou...
A
árvore,
vendo
assim sua ramada,
ficou
doente coitada
e em
pouco tempo secou.
Nudez
Não
tenho motivos para reclamar:
se o
dinheiro é pouco,
se
não encontro tempo para passear,
se
me convocam ao trabalho
no
primeiro dia do ano...
Tenho
que considerar
que
estava totalmente nu
quando
vim ao mundo.
Hoje,
embora
sem muita certeza,
mas
porque me ignoram,
creio
que já não estou.
Reflexões
Óh
tempo que passa depressa
por
essa porta aberta
e,
tal qual o vento,
se
desfaz no nada!
áh,
para onde foges agora
se
já te espera, à soleira,
essa
criança?
óh
eras, sopro do tempo!
sois
deveras esse recomeço
que
vem à frente de seu eterno findar?
óh
tu que surges do nada e ao nada conduz!
como
fugir de ti, óh maldito tempo?
Renovam-se
os sonhos e esperanças,
findo
o velho, surge o novo
e tu
não cansas de ceifar,
sonho
por sonho,
nestas
tempestades de percursos,
todas
as histórias e lembranças
guardadas
em nossos baús.
Óh
noites sem janelas!
como
vislumbrar o tempo
se
na penumbra desse quarto de hotel
só o
sibilar do ar condicionado nos avisa
que
o deixamos do lado de fora?
Óh
mãe!
tu
que viste findar seu tempo
diz-nos,
abrindo uma fresta na parede do desconhecido:
para
onde levarão nossas escolhas?
Falamos
da luz que se anuncia,
mas
ignoramos a noite vinda:
nela
vamos tatear destinos
e,
para além de nossas escolhas
– óh
mãe, bem sabes! –
só
vamos debulhar os dias findos
e
plantar desertos de incertezas
a
cada amanhecer.
Apegos
Hoje
a minha alma
está
leve e calma
e
meu olhar se deita
no
macio azul do céu,
na
transparência
pura
de mistérios
que
se descortinam
depois
dos temporais.
Na
leveza de nuvens
¬
aves pintadas no azul ¬
vê-se
que a tempestade
na
madrugada se perdeu.
Não
estou mais triste:
posso
sair sem guarda-chuva
e
estender as roupas
no
quintal.
Amo
a luz do dia
e,
ao brilho do sol,
o
balanço das sombras
no
andar das meninas.
Assim
vou tecendo apegos
a
tudo que é etéreo e frágil:
as
sombras, o tempo,
as
calmarias e os temporais.
Soneto
avesso
O
chão úmido reclama
na
manhã, depois da chuva,
uma
cova, uma semente,
uma
flor e um sabiá.
O
sol doura a paisagem
cobrando
perfume de flores
às
mulheres que ali passam:
o
que levam? o que trazem?
As
dores de jovens viúvas?
suas
culpas, seus pecados?
a
solidão de guarda-chuvas?
Não!
Trazem com toda certeza
seus
lindos corpos sedentos,
segredos,
amores, desejos.
Navegante
O
temporal ainda não passou:
agarro-me
aos fragmentos
de
tudo que me acalma
até
que os ventos tropicais
parem
de soprar.
Quando
tudo se aquietar,
acaso
sobre alma,
vou
pegar umas folhas de palmeiras
¬ se
ainda houver! ¬
e
com elas fazer uma canoa,
leve
como pluma,
na
qual hei de navegar
ao
sopro do vento
até
o horizonte de nós dois:
um
lugar calmo e sereno
como
calma é a minha alma agora.
Sou
verbo transitivo,
pouco
substantivo
e os
meus adjetivos
já
sangraram
pelas
portas escancaradas
desse
meu coração
de
menino doente.
Estudos
I
Pediram-me três, mas numa
plêiade literária, elenquei: Pessoa, Guimarães, Neruda, Vieira, Mia Couto,
Drummond, Machado, Euclides, Clarice, Veríssimo (Érico), Lúcio Costa e outros
tantos que me encantaram, como a lesma de Barros, o banco na porta da casa do
avô de Bartolomeu, a Dadá de Marcelo Xavier e o senhor de Amanda que não sei se
queria comer, se sabia ler ou se era capaz de se reconhecer. Assim, fortuito e
sutil, revelo minha tríade preferida, multiplicando-a por dez, por mil.
II
Gratuito o condor passeia
sobre o cume das montanhas e zomba dos aviões que, de um aeródromo próximo,
alçam voos desengonçados.
III
A sua libido mexeu com
meus hormônios e me fez imaginar um périplo pelas curvas e oceanos de seu
corpo, refém de seus tremores e tempestades tropicais.
IV
Gibraltar é um lugar que,
dizem escritos de avito, sempre foi muito estreito, mas duvido – embora não
álacre por isso – que ele seja mais estreito que meu peito, visto que por este,
nem mesmo eu, na fragilidade de meu barco de papel, posso livremente navegar.
V
O cupido afetou meu
coração: fez-me ádvena de mim mesmo e, embora opimo, nele o amor já não vinga.
VI
O Niágara é uma cachoeira
que cai num lago gelado, refém da mãe natureza, mas eu tenho por certo, embora
pareça inaudito, que ela não se compara às duas cascatas que caem no abismo de
outros lagos onde meus olhos passeiam.
Utopia
Hoje
acordei pensando nos meus sonhos de menino
quando
tudo parecia muito grande
inclusive
a tela de cinema.
Lembrei-me
do primeiro filme
–
Mazzaropi: Sai da frente –
meu
melhor presente do Dia das Crianças
talvez
até por ser o único.
tinha
oito anos e as professoras
Afigênia,
América Mendes e Marlene Matos
nos
levaram ao cinema.
A
grande maioria daqueles meus colegas de escola
nunca
tinha visto um filme,
inclusive
eu.
A
televisão ainda era promessa para alguns privilegiados;
a
vida difícil só possibilitou outro filme
quando
pude trabalhar e ganhar dinheiro para o bilhete.
Durante
todo esse tempo,
igual
a um carreiro com seu carro cheio de sonhos,
tangi
bois pelas ladeiras e por caminhos estreitos
movido
por fragmentos da memória
daquele
primeiro mergulho e encanto.
Hoje
acordei com vontade de alargar todos os caminhos
e
aplainar ladeiras,
mas
ainda me sinto pequeno demais para tanto.
Certidão
de Nascimento
Bem
mais que um rio,
desejo
suas serpenteantes memórias:
quero
escrever um livro de história:
registrar
nele meus piores erros
e os
escassos acertos.
Faço
votos que meus netos
saibam
compreender melhor:
o
que é certo
e
aquilo que não é direito fazer.
Pretendo
dar funeral digno
ao
rio que morre;
registrar
sua certidão de óbito num cartório;
deitar-lhe
flores de lírios;
oferecer-lhe
meu canto e minha dor
e,
quando sentir frio,
cobri-lo
com meu cobertor.
Ser
poeta
O
poeta quando escreve
é
igual ao garimpeiro:
busca
na areia dos rios
a
joia que nunca viu,
pensa
que ao encontra-la
rico
se tornará
e,
assim sendo,
descansará
de tal procura.
Ainda
bem que essa loucura
costuma
resultar em nada
e no
leito desses rios
sempre
haverá
sonhadores
e poetas
em
eterno garimpar.
Verniz
de cores
Talvez
o verso não seja o avesso da árvore!
árvore
finca a cabeleira nas cores do chão
expondo
as intimidades sem pudor.
Reparo
a vergonha das árvores e rio
quando
estou sozinho para não parecer louco.
Sinto-me
menino,
espiando
pela frincha das portas,
a
beleza escondida das moças
com
medo dos adultos que já escancararam árvores
e
pensam que frincha é demais para crianças.
Sou
manso e encosto no verniz das cores
que
pintam a intimidade das flores
e se
oferecem ao gozo de insetos.
Riacho
torto
Finco
o pé no chão da tarde
e
seguro o horizonte de sol poente
como
um remanso de rio
que
abraça barrancos
engana
peixe em caminho d´água
e
apanha graveto de redemoinho outro...
Assim
finjo ser mar
sendo
riacho pouto.
Rio,
risível
Rio
manso
rio
bravo ou rio perene,
rio
de minha insignificância,
rio
das frustrações e dos tropeços,
rio
de nada ser, sonhando tudo.
Cego
sou!
A José Saramago
A tatear
pelo terreno de minha vã militância
desconfio que também estou ficando cego.
dessa maneira, caro José,
a cegueira que acuso no outo
parece ser a minha própria:
essa que me faz ver sombras
na caverna onde habito.
O meu mundo é feito de alegorias
E, ainda assim,
acuso no outro
as ilusões e sombras
que confundem meu próprio olhar.
Há no mundo
quem tenha um pouco de razão
para me emprestar?
Perfis
A Gaston Bachelard, por sua Poética do Espaço
Caiu
na rede é pescado!
peixe
de novos perfis,
imagens
a refletir,
futilidades
e medos.
Valsando
em nobres salões,
lugar
de humanas vaidades,
sob
os salões subjazem
os
mais obscuros porões.
O Face dispensa os espelhos,
faz
vistas a Bachelard:
dirige
furtivos olhares
a
seus reflexos narcísicos.
Fartam-se
de vanidades
oportunos
convidados
a
banquetear beldades
E ao
fechar dos salões,
despidas
as vaidades,
ressumbram
antigos porões.
Sr. Cartesiano
A
Paulo Leminski
À luz difusa da
repartição
o funcionário gira
sobre seu próprio
eixo
e, esticando o
braço,
apanha algumas
folhas na impressora.
Após conferir, uma
a uma,
fixa, com resignada
intenção,
um grampo do lado
esquerdo das mesmas.
Pega, resoluto,
numa gaveta,
um já ensebado
carimbo
e, com desprezo de
automação,
aplica-o ao pé de
cada página.
Com seus viciosos
polegares
pesca da algibeira
sua pena
e na última página
traça duas retas
paralelas
e, depois delas,
num sutil gesto,
desdenha
imperceptível ponto.
Está decretada para
sempre
a irrevogabilidade
do eu.
Inveja
Meus olhos são
pássaros:
mesmo sem procurar
passo e os vejo
ora ensaiando um
canto
ora em passeios raros
ou mesmo em voos
rápidos
Meu olhar os capta
com inveja de não
terem
nenhum asco ou apego
à rotina do trabalho.
Quero um irmão
Quero um computador
que como eu
possa chorar e
sentir dor
que saiba brincar
de esconde-esconde
e chore horrores
se a mamãe negar
nosso direito de
comer doce
antes do almoço.
Perguntas...
Que importa:
portas fechadas,
arames farpados,
concretos e muros,
tanques, soldados,
sementes e flores?
Que importa:
se a flor murchou,
se a bomba
explodiu,
crianças morreram,
as casas ruíram,
se não sinto cheiro
das bombas de gás?
Que importa:
um acordo de paz,
abraços, sementes,
um muro caído
uma flor que brota
na Faixa de Gaza?
Que impor... tá!
tá! tá!..
Quase nada
Deitada num canto de muro
num leve recuo de calçada
aquela menina é
sombra,
pequena mancha de
gente
uma total
transparência...
quase nada!
Que pensam aqueles
que passam
distraídos,
alheios, apressados?
talvez estejam
buscando
uma distinção
marcada
pela cegueira de
mundo
de tantas retinas
fechadas.
E a menina pequena
ali no canto
deitada
disfarça dor e
gemidos
esconde a grande
tormenta
só revelada mais
tarde
quando um
transeunte percebe,
no recuo da
calçada,
uma criança
nascendo.
Front(eiras)
Ponta de caneta
nanquim
grafites, paredes e
papéis;
revistas,
jornais,
pasquins...
A arte
exige fronteiras?
Homens industriosos
bélicos,
cheios de pólvora,
trinitrotolueno,
venenos, urânio,
hidrogênio...
Razões, humores,
gênios.
Homens libertos,
libertinos
¬ introvertidos
até! ¬
pecadores
de muita ou pouca
fé...
Homens out,
homens extremamente
in
Imorais,
incongruentes
individualistas
interesseiros
impudicos
infernais!
B.O.
Eles
eram dois
num
Pampa vermelho-vinho
que
vinha na contramão.
Eu
voltava da padaria
e
levava apenas
pequeno
pacote de pães.
Chegaram
nervosos:
rasgaram
minha blusa de malha
e me
jogaram ao chão.
Causaram-me,
destarte, arranhões,
roubaram
meu smartphone,
mas
minha arte não!
Atalhos
Quase
sempre reinvento algum atalho:
lanço
ao vento
versos
e canções ignoradas, inaudíveis.
Acredito,
apesar
e para além de tudo isso,
que
a vida é mais que só movimento:
é o
imponderável, o invisível,
que
no infinito tece o fio do olhar
e
colhe da luz das estrelas,
não
um fim em si,
mas
motivos para sentir, crer e sonhar.
Zé
e Maria
Maria
colhia
andu
no terreiro
depois,
sem descanso,
no
pilão socava
café
pra coar
e
preparava o milho
pra
fazer fubá.
Varria
o alpendre
e
com muito esforço
tirava
do poço
água
de beber;
preparava
a janta
pra
suas crianças
e
pro Zé que ficava
na folga
da tarde
na
rede deitado.
Mas
chegou o dia
que
de tanto abusado
Maria
deixou
o Zé
sem guisado
e à
noite no quarto
sozinho
largado.
Bem
feito pro Zé
que
no dia seguinte,
um
tanto amuado,
correu
pro roçado
buscar
melancia
e no
resto do dia
ao
invés da rede
tratou
de tirar
a
água do poço.
Foi
pilar o milho,
cuidar
das crianças
e no
frescor da fonte,
além
de banhar-se,
catou
umas flores
e
amarrou com embiras;
encheu
o chapéu
com
muito araçá
e ao
voltar pra casa
sorriu
pra Maria.
Em
velho ser
Catei
palavras no dicionário,
atirei
algumas na varanda,
pendurei
outras no teto,
colei
umas tantas na parede lateral,
espalhei
o resto pelo chão da sala
e
fui jogar bola-de-gude com meu neto.
Humanizares
Andava
só e do meu lado
uma
multidão tão distante
e, ao
mesmo instante perto,
separadas
por pequenos espaços
nesses
apertos de metrôs e ônibus.
Por
isso eu disse ao Caieiro, Alberto:
humanidade
não sei se há!
falta
sempre alguma coisa
¬
quem sabe um laço! ¬
que
amarre esse vazio e, num amasso,
dê
um abraço, um colo, um ombro...
dê
de cada um o máximo!
bem
mais que apenas espaço,
fronteiras,
paredes, muros
e
outras coisas que separam
pessoas
e quintais.
Higienismo
Caía
sobre a tarde um grito surdo
e
debaixo de frios viadutos
a
truculência bruta,
ao
revés de vida e luta,
deitava
sobre pedras pontiagudas
um
sono de paz absoluta.
Dádiva
Ao
cair da tarde
ninguém
repara a noite vinda
quando
os homens se embriagam,
as
mulheres amam e esperam,
os
bichos noturnos piam
suas
tristezas de trevas
povoando
os sonhos dos meninos
e,
quase sem tento,
a
lua inspira pretensos poetas.
Mas
eis que a noite passa:
o
sol ilumina os desalentos,
em
algum café os homens curam suas ressacas,
as
mulheres, ainda em espera, perdoam,
o
pio noturno dá lugar ao canto de pássaros,
os
meninos riem e brincam nos becos
e a
lua pálida esquece a pena dos poetas
na
mesa de um bar qualquer.
Meu
pedido
Eu
queria ser riacho
que
não pergunta nada
sobre
o sexo dos peixes
e
sobre o ouvido das pedras,
mas
acaricia aqueles,
canta
para estas
e,
além disso,
faz
festas para as flores
que
adoram sóis
e a
seu pobre lençol
sequer
deita um olhar.
Quisera
poder,
nesse
tempo de Natal,
libertar-me
dessa peia,
que
nos aprisiona
sem
o menino, sempre alheios,
separados
uns dos outros
por
essa lógica de fins e meios.
Eu cartesiano
Mergulhado nesse
mundo,
que se diz
globalizado,
embrenhado no
tropel
do tal mercado
econômico
procuro não me
envolver
com o que passa com
o outro
do outro lado do
mundo.
Que me importa o
que diz
um morador da
Tessalônica?
os gregos que se
arranjem
com a comunidade
europeia
que excluam de seu
grupo
Portugal, Itália e
Espanha
que abandonem as
velhas ilhas
a seu incerto
destino
de já não
representarem
a pompa do
ocidente,
a luz de nossa
ciência.
Posso preferir o
tupi,
a língua desses brasis,
pensar como pensam
os nossos
e mesmo com o pé no
mundo,
ignorar as
tenebrosas
previsões de
Shevtsova:
que importam os
desdobramentos,
das prévias
confusas do Kremlin?
ou mesmo os rumos
políticos
das campanhas de
Putin?
Eles já são bem
crescidos
e por dever de
autonomia
podem responder por
seus atos:
pela reunião da
Bielorussia,
onde três vozes
tomaram
as decisões de
dissolver
a antiga união
implantando sem
pudor
a liberal economia!
Pensar o avanço
científico,
os problemas
energéticos
e níveis de poluição?
o aquecimento
global
e outros problemas
ecológicos?
preocupar-me, algum
dia,
com a instabilidade
de Fukushima,
os níveis de
radiação
que podem
comprometer
a saúde do planeta
ou do povo do
Japão?
por que devo
inquietar-me
com a produção da
China
de tanta tecnologia
que serve para
quase nada?
a Ásia é que se
dane,
que se afogue em
águas salgadas,
se estorrique de
febre
queimada pelos
vulcões
ou sofram de
tremedeiras,
e se banhe em
tsunamis!
E nossa velha mãe
África
onde devem ter
nascidos
alguns de meus
ancestrais
em que poderia
afetar
um pobre sujeito
mestiço
que vive aqui nas
Américas?
posso às vezes
interessar-me
pelas exóticas
savanas,
mas pouco me
importaria
se o governo
Sudanês
¬ ao financiar
milícias ¬,
produzisse guerra
civil
nas suas plagas do
sul
e acabasse de vez
com a vida de seu
povo!
Pouco me importa
esse outro
que vive fora de
mim,
porque sou
cartesiano
sou soberano do eu
parido por minhas
mãos!
Por que devo
preocupar
e com a África de
Sudão,
com a Ásia de China
e Japão?
em que pode me
afetar
a real tragédia
grega,
Espanha, Itália e
Portugal?
que se danem os
soviéticos
que as eleições de
Putin
sejam vergonha
global!
É cartesianamente
inserido
nessa sopa
planetária
que percebo que
sozinho
posso até, pelos
caminhos,
fazer rastos, deixar
marcas
que de nada
servirão
a minhas humanas
pegadas!
sendo indivíduo
isolado
do outro que me
rodeia
jamais posso exigir
que os sinais por
mim deixados
devam ser
considerados
por africanos,
asiáticos,
americanos ou
europeus!
Sinto-me preso na
armadilha
dessa arapuca
global:
vejo-me “em giros
eternos,
preso num eixo de
ferro
sempre lá e sempre
aqui
sem nunca sair do
lugar”!
Epicuro tinha
razão,
descartes nem tanto
assim!
por isso dentro de
mim
tenho motivo
bastante
para duvidar da
eficácia
de meu isolamento
constante!
Mestre
Certa vez um mestre
me disse
que o sentido da
vida
só a razão pode
explicar.
Crédulo e ingênuo
que sou
mergulhei fundo no
eu
E deparei assustado
com a sutileza do
acaso.
Ainda teimoso
busquei
na vastidão do
universo
um ponto para me
apoiar:
foi então que
defrontei,
totalmente
desarmado,
com a
insignificância dos quarkers
onde tudo se
encerra.
E assim, preso de
mim,
senti escapar de
vez
o apoio primordial
¬ pra lá de um
ponto de vista ¬
que pudesse
assegurar
o etéreo conceito
do eu:
quanto mais
mergulho na vida,
mais me deparo com
a morte!
Olhar de menino
Meu olhar é muito
nítido,
transparente,
cristalino
talvez porque
sempre o banho
em enxurradas de
pranto,
desde menino.
Palavra
Palavra vil,
aviso-te:
visto que vives
essa tua vida
vulgar,
não penses que o
vídeo
é seu barraco
nem vais fazer de
conta
que viestes
somente para vadiar
e, voraz,
meus pedaços
devorar
depois voltar
pra insignificância
virtual
das rimas que não
pude versejar.
Carolina Maria de Jesus
À noite no quarto
sem janelas
amava a luz amarela
da lamparina de
azeite
e seus sonhos
escancaravam portas.
De dia em meio a
tanta gente
esquecida e quase
transparente,
catava vidas no
lixo,
guardava descuidos
e pérolas.
Vidas contadas em
alpendres,
que em mouros
ouvidos, bordavam
lindos quadros
coloridos.
E foi ali, no seu
quartinho escondida,
que amou, viveu,
lutou e se fez ouvida
na cidade, na
favela, hoje e sempre!
Às mães de África
Deitado no vão do
abismo
meu ser
interrogativo
pergunta à minha mudez:
onde vai dar tudo
isto?
No mar, vagando à
deriva,
somos barcos
frágeis, rotos
que ao bel sopro do
vento
navegam sem rumo,
sem porto.
Quer um atalho pro
norte?
¬ óh mães de
América e de África,
mas lá há monstros
piratas!
Urge unir linhas e
pontos,
fazer do mar
estriado
um novo mapa
geográfico.
Rememorando
Quase sempre
esqueço:
que gatunos
roubaram
as rodas do carro
do vizinho,
que a indústria
bélica
lançou novos
veículos de assalto.
que astrofísicos
divulgaram dados
sobre a radiação de
fundo do universo,
que físicos já
contestam o Big Band,
que a energia é
igual à massa
multiplicada pela
velocidade da luz ao quadrado,
que a psicanálise
edipiana é uma farsa,
que a filosofia
grega
foi também o ponto
de vista dos vencedores,
que os nórdicos só inventaram
a máquina
da qual sou pequena
engrenagem
sempre a girar,
presa num eixo...
E é nessa condição
que escrevo
as coisas que às
vezes esqueço.
Poeticus arrogans
Guardei umas
saudades antigas num baú,
atirei no jardim
meus mais pontiagudos espinhos
e sobre o banco da
varanda,
de onde se vê o
céu,
depositei algumas
penas
para acender minhas
vontades de pássaro.
quando a primeira
estrela brilhou
no céu de minha
sombria solidão
peguei um violão,
toquei você e me
toquei...
Foi assim que te
cantei
e, num convite para
sair, me achando o tal,
ordenei:
Leve toda luz de
teus olhos
para iluminar a
noite, acaso falte lua!
Não vá esquecer a
flor no cabelo
para enfeitar a
nossa pobre mesa de bar.
Quanto a mim, o que
poderei levar?
Talvez a sombra
fingida
de minhas poéticas tristezas,
algum espinho para,
nos descuidos, ferir tuas pétalas
e, acaso não me
esqueça,
o cartão de crédito
para pagar as despesas.
Antigamente...
Com a severidade
das macambiras,
o pai dizia:
¬ Já deu de comer
aos porcos?
A gente pequena
sabia:
com aquela
autoridade não se brincava!
corria para o paiol
e não saía de lá sem o milho debulhado
para o banquete dos
porcos.
Naquele tempo era
assim:
prestava-se mais à
engorda dos bichos,
ao plantio do
algodão e milho nos roçados,
ao semeio do capim
vermelho
e tudo aquilo outro
que prometesse uns quilos a mais
na balança do
comprador.
Criança só prestava
para o trabalho
em prol da
obesidade dos bichos
garantindo a
barganha
nos negócios do
pai.
Naquele mundão de
chapadas, de distâncias
de tantos caminhos
de areia, ladeiras, pedras e voçorocas,
reparar os caburés
nos tamburis era a pior das vagabundagens.
Sonhar era pecado
mortal!
Nunca prestei àquele
trabalho:
sempre que possível
fugia para as sombras
das gameleiras
ou sentava-me ao pé
das cercas dos currais
a reparar caburés.
Sonhei, confesso,
mas nunca pedi perdão
por isso!
Quadrados,
quinas, arestas e outras coisas paralisantes
Sei,
desde a órbita de
meus olhos,
que a natureza
tende a ser circular.
por isso não
entendo
e sempre fico a
perguntar:
por que, ao
fabricar nosso habitat
fazemo-lo assim
quadrado?
Faz algum tempo,
quando eu era ainda
pequeno
e já conseguia
andar,
vi, por entre
pedras e capins,
um pequeno riacho
em serpenteio.
Imagino que hão de
me questionar:
mas ele era
redondo?
Respondo já:
naquele tempo
disso também
cheguei a duvidar,
mas meus olhos
ainda muito
impúberes
mal sabiam reparar.
só quando segui o
riacho,
transpus alguns
obstáculos,
caminhei por ele
abaixo
até vê-lo desaguar
numa pequena
cascata
pude ver que as
gotículas
tão transparentes e
tão juntas
caindo pedras
abaixo
eram redondas,
pequenas,
que mesmo sentado
numa pedra,
que se erguia à
margem
podia sentir e ser
tocado
por gotículas
circulares.
Um dia, já bem mais tarde,
quando catava laranjas no pomar,
vi um ninho de pássaro.
curioso e travesso
resolvi ele espiar.
Vi que tinha três ovinhos
pequeninos, pintados
e quase totalmente redondos,
sem contar que aquele ninho
também tinha a mesma forma.
Vi estrelas e a lua
vi o sol se desmaiar
já no finalzinho das tardes
como um olho a dormitar;
não tive dúvidas de que eles
eram meio arredondados
qual horizonte distante
que se deita em imensa curva
lá no fundo da chapada.
Vi os troncos de aroeira,
vi o fruto do pereiro,
do tingui, da gabiroba,
as sementes da peroba,
vi a órbita das coisas,
vi a oca onde os índios
também dançavam em roda,
mas a casa da fazenda,
os piquetes, os mangueiros,
os currais e o terreiro
já eram todos quadrados.
Não creio que fora o homem
quem inventou a roda,
mas certamente foi ele
que prendeu-a, firme, num eixo!...
Depois disso
perdemos a essência de índios.
e assumimos a geometria das formas quadradas.
Engano
Sigo em frente:
vou devagar,
de vaga em vaga,
qual vagabundo
que não quer chegar.
Se encontrar um riacho
rio de nada
e deixo-me levar
pelas corredeiras
acima ou abaixo.
Acaso elas acabem
num vasto lago,
em largo campo,
nele me arranjo:
ponho-me a nadar.
Assim me faço:
caço um refresco
qual modo mesmo
de me enganar...
viver é fácil!
Limites
Faço tudo para ficar,
mas há algo me dizendo
que este não é meu lugar.
Faço um esforço medonho,
mas sinto meu corpo frágil
aos poucos fragmentar
Faço coisas que não quero
tentando me encontrar,
mas é nesse atalho que fico.
Fico para não cair
no abismo dos sentidos
onde a vida já não vale.
Velo um mundo ao meu redor
querendo ser mais que sou
esquecendo meus limites.
Menino rio
A mãe sempre dizia
aue aquele menino
nascera água
¬ É igual nascente
vive a jorrar pelos cantos
em fonte de pedrinhas azuis.
¬ Um dia ele vai crescer, mãe?
interrogava a irmã maior...
¬ quando ele for grande
vai virar rio ou mar?
¬ Não sei, filha,
respondia a mãe,
¬ miúdo assim,
não vai passar de riacho.
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