Das humanidades

Acordar do pesadelo e sentir que a memória
já não lembra mais de ter sonhado...



Conveniências

 

Convém ao rio
certo balanço de leito,
um serpenteio, um remelexo,
curvas em calmo movimento,
escorrego de pedras,
segredos de azul e transparências,
saltos de cachoeiras,
brincadeiras com o tempo,
ser transparente e líquido
e ter muita sede de mar.

Ao poeta resta o olhar
e algumas vezes se banhar
na nudez das corredeiras.
nas cachoeiras se deitar,
sentar-se em alguma margem
e no despudor, na vadiagem
acariciar, seduzir, amar
e então, cheio de poesia,
de tesão e de vontades,
na transparência cristalina de algum rio
mergulhar vadio, se embriagar.



Paisagens

 

A noite na chapada é pura solidão!

Sentada num fio de alta tensão
uma coruja namora
a despudorada beleza da lua.

Naquele mágico instante
os olhos do poeta,
sem nenhum pudor,
abusa daquela noite nua:
despe seu olhar
e ama as duas.



Tarde

 

Minha pele quase queima
nesse calor infernal
nesse cheiro de queimadas
que ao sopro morno do vento
reclama a tarde de sábado.

Olho triste o sol poente
com vontade de vagar
por uma trilha no mato
e quem sabe mergulhar
pés cansados num riacho.

Na impossibilidade de ter
meus desejos satisfeitos
sento-me conformado
e me ponho a escrever
sobre trilhas e sobre águas.

Assim amenizo o calor
apago o fogo por dentro
serpenteio nos caminhos
de algum riacho que invento
para meus olhos desaguarem.



Pensar ou sentir

 

Vincos no solo seco de algum açude
rolinhas pardas catando coisas invisíveis
na areia vermelha da estrada
e um quem-quem a reclamar ao sol.

Um passo é só um passo, mais nada!
Um olhar é só observação vazia
e, o ouvido, a fria busca dos sons
ao ritmo de seriemas nas chapadas.

O andante sente, mas não pensa,
porque pensar é pontuar os sentidos,
é se prender às regras gramaticais.

Por isso é preferível sentir
cada passo dado, cada olhar vadio
e não pensar em nada, nada...



Andanças

 

Pego uma trilha
¬ qualquer encosta de serra ¬
um chão vermelho
muitas curvas e atalhos
e passo a passo
vou contando o tempo,
vou costurando espaços
onde meus olhos vagueiam.

Vejo o Nô, vejo o Valdê,
abraço o índio Joaquim
e numa encruzilhada
perco o caminho:
vou parar numa vila
por nome de Malobri:
Faço amigos por ali
depois volto a Santa Fé.

Na aridez das chapadas
revejo Chapéu de Pedra
e um lugar muito bonito
chamado Tamanduá.
Depois de descer as serras,
já chegando em Bucaína,
Deixo atrás Suçuarana,
já em Brasília de Minas.

Conto os passos,
conto o tempo
e paro para um café
no deserto da chapada...
Revejo velhos amigos,
acampo em qualquer lugar
sou um pequeno andarilho
que nunca deixou de sonhar.



Minha carteira de identidade

 

Na vastidão de mundo
meus olhos ganham liberdade,
meus pés recriam caminhos,
meu corpo cheira a mato,
minha alma vira passarinho
e, nos fins de tarde,
pousa e canta num pé de baru...

Verde solidão dos serrados.



O ciclo da vida

 

Cachoeiras caem sobre as pedras
incansáveis como o tempo
e com esse se renovam
a cada instante:
elas cantando o ciclo da vida,
ele contando as eras.

Descanso em meu acampamento
à entrada de uma caverna,
pacientemente escavada
pelo ciclo das águas
durante milênios.

Em paz,
provo a embriaguez
dos sons de riachos
e medito sobre as águas,
as pedras, o tempo e os homens...
Meus olhos,
embebidos nas belezas e formas das pedras,
buscam incansavelmente as serras,
clamando por espantos.

Por um instante
creio ser feliz.
Levanto-me a cada dia
certo de que tenho algo para plantar
e, portanto,
sempre tenho o que colher:
já andei todas as trilhas e caminhos
que meus pés aguentaram;
amei todos os amores
que meu coração conseguiu amar.
Meus olhos já miraram, espantados,
todas as coisas que puderam contemplar:
os riachos, os ribeirões,
os rios, as chuvas, as chapadas,
as flores e os frutos verdes e maduros...

Tive amigos e amigas,
tive família e abrigo...
que mais poderia desejar?

Somente a paz e o amor
para todos os corações desassossegados
e caminhos para os pés
que ainda não aprenderam a caminhar...



Infinito só!

 

Comprido chão de andar
andor, mortalha,
dor de estar
sempre à busca de um lugar
que não se sabe mais
onde encontrar.

Vinha caminhando
alegremente
e parei para descansar...

Quando acordei
já não era eu!...



Minha casa interior

 

Minha casa é uma casa simples:
não tem muros, não tem lajes
e pelo telhado, já manchado de bolor,
quando chove forte
entra uma espécie de chuvisco
e banha minha alma interior.

Nas paredes de minha casa crescem samambaias,
musgos pintam de um verde calmo,
na textura irregular,
tapetes pros lagartos repousarem
e se aquecerem nas manhãs de sol.

As portas de minha casa são desprovidas de fechaduras:
somente frágeis taramelas
que uso quando o vento as põe a balançar
e nunca para deixar
as coisas do lado de fora.

Isso porque,
quando me deito ao fim do dia,
cansado do trabalho,
trago comigo tudo que a vista apanhou lá fora:
a simplicidade de uma flor,
a paz serpenteante de um riacho,
o canto de um pássaro,
uma estrela que no céu apareceu mais cedo,
o azul celeste que fechou os olhos
e foi dormir envolto no cobertor da noite.

Guardo na minha casa interior tudo que o meu coração amou:
os campos, as encostas das serras,
o espelho d´água de riachos
e a imensidão do céu;
guardo os silêncios e ruídos de estações,
a planície parda das chapadas
e as alegrias tristes dos sertões...
guardo também os risos das meninas,
as flores bem cuidadas de um jardim
e as compridas estradas,
onde posso me encontrar ou me perder.



Sonho de menino

 

Um menino caminha
ruminando sonhos
¬ todos belos, suponho! ¬
e deixando para trás os rastos
que logo vão se apagar
da areia vermelha
de seu estreito caminho.

Sei que outros meninos
da mesma forma ruminam
seus milhões de sonhos
e dessa infinidade de caminhos
sei que seus frágeis sinais
em breve se perderão
na invisibilidade dos sertões.

Só os sonhos irão permanecer para sempre
enquanto nesse mundo viver algum menino.



Capim amargo

 

Mascar um talo de capim amargoso:
gostoso é não pensar em nada
e na estrada andar sem direção,
olhar distraído os areais,
sentir o cheiro dos currais
e não ter pressa demais
porque, afinal, a vida
não tem lugar
nem hora de chegar.

Passo a passo,
há que se caminhar
até o dia em que ela
mansamente,
assim como o amargo
de capim mascado,
resolver chegar
ao fim.



Caminheiro

 

Andava descalço
quando um vento falso
no encalço de moinhos
apanhou meus leves passos
e fez deles passarinho.



Vertentes

 

Com saudades de alguém que tanto amo ou amei

Nas trilhas de meus sentidos
¬ caminhos de chuva fina ¬
vou devagar, vou sem pressa
solvendo da fresca manhã
o doce cheiro da terra.

Às vezes conto meus passos
à busca de algum motivo
para fugir aos sentidos
da ausência de afetos,
mas tal qual um arquiteto
faço a ti meus monumentos:
curvas finas, delicadas,
doce ilusão de um retrato,
extrato de meus sentidos,
caminhos nunca trilhados.

É então que me deparo
com uma nova armadilha:
nas distâncias que separam
a cadência de meus passos
surge um ritmo, um compasso
de música que quase canto;
sinto o sal e o calor
de uma gota que escapa
e, correndo por minha face,
se mistura com a chuva
se aquieta nas distâncias...

Não há nada que enxugue
dessa minha arquitetura
¬ doce forma imaginada ¬
as lágrimas já derramadas
àquela que um dia fora
todo caminho trilhado,
todo frescor de sombras
de tantos pés de juá,
toda flor que nos caminhos
caíram em minha mirada,
toda doce gota de chuva
que desce pelos cabelos,
todo afeto, todo zelo,
e até esquecidas lágrimas
entornadas de meus olhos
nas distâncias das chapadas.



Vagâncias

 

Numa curva qualquer
de uma linda flor
eu me perdi.

O mundo pesa,
mas aos meus ombros apraz
somente leveza de brisa.

Num fim de tarde
mergulhei fundo no rio
e saí cheio de musgos.

Uma seriema encantava
a vastidão e cores da chapada,
mas a solidão era só minha!

O sol deitava seu sono
lá no fundo da paisagem
e uma corujinha espiava a noite vinda.

Lacei um fio de lua
e com ele armei minha tenda:
deitei no colo da brisa e adormeci.



Ao contrário de

 

Ao poeta Carlos Drummond de Andrade

 

Vinha vindo devagar
quando no meio do caminho
vi que tinha
não uma pedra,
mas serpenteante riacho.

Entrei no bonde lotado
e meu coração aos saltos
não disse nada!
porém meus olhos vadios
despiram-me às cores e risos.

Um cavalo segue a galope
e meu branco terno de linho,
em labirinto de vidro,
cai sobre as pedras
transformando em cacos meu pobre destino.

Sou menino e nunca li
sobre a sombra do juá,
um robson que fosse crusoé,
mas vi estrelas de infinita beleza
que desvelaram todos meus segredos.

Às vezes tenho medo
de ser um avô gagá
querendo ouvir o canto
dos pássaros que pintam o céu
e ver meu neto troçar
da pobreza de meus versos.



Sonhos pequenos

 

Um pequeno caminho andava distraído
até que, numa curva comprida,
deparou com um atalho
e, espantado, encolheu,
murchou até sumir no horizonte,
já no fim de uma chapada,
onde jazia,
revestida de cascalhos,
uma longa estrada.

Na encosta de alguma serra,
a espelhar o azul do céu,
brincava entre o verde
um menino riacho:
lagoava, descortinando planícies,
tecia florestas com cristalino fio
e longe, muito longe,
depois de pontiagudas quedas,
dormitava em leito de rio.

Diante de sua pequenez
o andarilho, alheio a tudo,
olhos cravados no nada,
molhava os pés cansados
nas águas de algum riacho,
arrastava caminhos e estradas
e, já deposto o imenso azul,
envolto em lua de prata,
sonhava rios e cascatas.



Andarilho

 

Tendo as muitas ladeiras
o peso da subida,
sendo aqueles pés de serras
pura solidão de pios
e a largura das chapadas
fio de tardes separando céus

Assim, deitado sobre a brisa,
o silêncio acende a lua
um andarilho vaga
sob o brilho cálido das estrelas
e uma constelação distante



Bambual

 

À minha tia Rosália

Caminha menino,
caminha!

Teu caminhar é passo
a desprender-te desse chão de visgo

Teus sentidos são olhos
em horizontes de paisagens vastas

Teus braços são asas
valsando sobre a vastidão do mundo

Tua respiração é sopro de vida
que desvela todos os segredos do universo

E tua dor um ribeirão cristalino
buscando se perder na imensidão do mar.

Caminha menino,
caminha!



Voo de pássaro

 

Encostado
num canto de mundo ou de pássaro
viajo sem adeus, sem partida,
sem estação, sem despedida,
sem bagagem e sem destino.

Vou indo por aí!

Pra onde vou?

Voo para qualquer canto
de passarinho
ou de mundo.

Parar não ouso,
mas onde houver
um ramo de flor
nele farei pouso.



Memórias

 

Lá vai um menino,
de pés descalços,
pelas trilhas de areia
deixando marcas, memórias
que nunca vão se apagar
de seu livro de histórias.

Lá vai um menino,
com seus sapatos finos,
pelas ruas e avenidas
deixando marcas
que, ao virar a esquina,
serão, ao certo, esquecidas.

Amo o simples
porque o concreto é desmemoriado.

O rio e o poeta

 

No vago horizonte
o olhar se vai,
livre como pássaro
até perder-se completamente
no infinito róseo
de um fim de tarde;

Abaixo o rio é manso
e não se cansa
de sua eterna caminhada
rumo ao mar.

Vermelho e doce
um raio de sol desce,
passa por entre as folhas
de grandes árvores
e vem se despedir
beijando a face do poeta
depois lança sobre a terra
seu manto negro
que aos poucos
revela suas pérolas.

Os pássaros passam
solitários ou em bandos
à busca de seus ninhos;
o balanço das águas
nina um último raio
que logo dorme
em seu leito de cristal;
a noite é mansa e calma
como o sono calmo
de mulher que muito amou.

Na penumbra
um barco desliza
solitário como a lua
que no nascente
aos poucos se levanta;
no meio do rio
tudo é calmaria
e, sozinho no barco,
o poeta arma laços para a lua
e canta a beleza doce da noite.

Assim na eternidade
dos dias que ainda lhe resta
o poeta até esquece
de sua condição humana:
no abrigo daquela noite
beija a brisa, ama a lua
tendo o céu por cobertor...

E na sua vaidade
pensa até que ninguém mais
viveu, assim, tão grande amor.



À margem

 

Transito entre o centro e a margem:
no centro, qual folha seca ao vento,
me desapego do galho de antes
e mergulho no incerto depois:
revivo, assim, minhas tempestades.

À margem vislumbro,
como num sonho ou pesadelo,
a possibilidade do novo
e assim no infinito das eras,
paciente, espero ser novamente folha.

Sinto-me feliz ao perceber
que posso reinventar
muitos barrancos de rios.


Parece(se)r

 

Penso que uma flor
não resulta de meticuloso ensaio:
ela surge do acaso
colhido no serpenteio
das muitas trilhas
entre moitas de macambira,
entre pedras que ornam ladeiras,
entre cantigas de lavadeiras
nas mornas tardes de ribeirões.

Nasce da voragem das cheias
que rasgam os grotões
nas inigualáveis tempestades de verão.

Nasce dos açudes secos,
das rezadoras e suas ladainhas,
dos passos fatigados e olhares vadios
de algum andante.

Nasce de um único instante,
sem outro igual
em toda eternidade
passada e futura.

Nasce, enfim,
da complexa estrutura
cuidadosamente costurada
nas entrelinhas da vida.




Contradições


Sobre a tela de minha memória
sequências longas de uma vida inteira
e muitos fragmentos de histórias
vão se projetando como num filme
sobre os sonhos de um menino triste.

O canto longínquo de uma cigarra
se confunde com as lavadeiras
e com os gritos de um carreiro solitário
tangendo bois nas encostas das ladeiras:
seus sonhos largos, seu caminho estreito.

Igual à cantoria que nos eitos,
nas primeiras limpas de outubro,
anunciam aos patrões farta colheita
¬ promessas do chão úmido e em cio ¬
essa alegria tristonha dos sertões.

Parece até o olhar de um menino
em passeio por chapadas vastas
onde colhe, dos sonhos pequeninos,
pedaços de mosaico com os quais monta
a alegre história de um menino triste.



Avesso


Eu queria ser criança:
ser livre para reinventar as coisas,
livre para descobrir
a beleza cristalina de açude seco.

Por isso procuro o avesso das flores
que não existem no pardo chão das chapadas.



Felicidade


Respingos de luz do sol
nas entranhas da floresta úmida,
brilho de pássaro que se agita,
aranhas que tecem nas folhas
armadilhas caprichosas...

Enquanto um riacho canta
serpenteando as encostas
com o seu brilho de prata,
entre as ramagens da mata
borboletas revoam sobre flores.

Na extensão da paisagem
por entre o pasto orvalhado
pelo frio da madrugada,
passo a passo, lentamente,
caminho e respiro o meu vagar.

Os olhos devoram paisagens,
os ouvidos buscam distante
o canto das seriemas
e no céu, lá bem no alto,
indiferente a tudo, navega um jato.

Férias voando em alturas,
nas trilhas com os pés no chão
ou a ver televisão
no conforto dos sofás.

Férias a caminhar
à beira de um ribeirão
reparando sem pensar
roda aquela vastidão.

Se eu pudesse diria,
mas não posso avaliar
onde um coração costuma
felicidade encontrar.



Não ser poeta


Poeta eu nunca fui
nem tenho a pretensão de ser:
sei que existem
meninos dentro de mim
a reparar açudes secos,
chapadas longas,
caminhos tortos
por onde pés cansados
desafiam a epiderme bruta da terra
e cortam distâncias
à busca de sonhos.



Escórias


Escorreguei no barranco
caí inteiro no laço
o bicho voou
e eu fiquei preso

Naquela curva
tinha uma pedra
onde o caminho
tropeçou,
mas quem caiu fui eu

No levante
uma barricada se ergueu:
fugi da guerra
e do tiro certeiro

Não temo o laço
nem o tropeço!
ouço o estrondo:
pego a bala mortal
e dela faço um ponto.



A lua e o poeta


A lua é vaga
e do céu desta cidade espia
a solitária inquietude do poeta.

O poeta é mágoa
e na ansiedade de fazer poesia
carpe da luz da lua as rimas que lhe restam.

A noite é tela
onde a lua em sua vastidão passeia
pintando a alma angustiada do poeta.

O poeta é nada,
quando a aurora do dia incendeia
queimando a tela e dissolvendo nela a lua cheia.



Caminhar


O caminho é longo,
como é longo o caminhar!
cada passo que se dá,
nessa cumprida estrada,
é tão pouco ¬ quase nada! ¬,
do espaço todo da vida
onde temos que passar.

Há dias em que a gente está triste,
noutros calados a pensar
nas coisas e nos sentidos.
às vezes, com alegria desvairada,
não reparamos nada
e no burburinho das tardes
preferimos bares e calçadas.

Ainda bem que existem,
embora em menor quantidade,
dias em que a gente é criança
e deixa tudo isso de lado!
até o olhar fica à solta,
sem interrogações nem bebidas,
apenas reparando a vida!



Tarde de sábado


Enxugo os olhos da alma
no véu transparente da tarde:
lembrança, qual lençol alvo
estendido num varal.

Sobre o travesseiro da noite
repouso o peso dos anos,
essa mudez que em mim açoita
tempestades, vendavais.

Entre os muros dos quintais,
por toda trilha onde ando
na solidão me deito e calo.

Assim, perdido, distante,
no breu da noite disfarço
meu silêncio essencial.



Fim de tarde


Sei o quão estreito é meu passo
e até duvido do que penso e do que faço,
mas creio que um dia, cedo ou tarde,
no embalo de um sono, sereno e eterno,
hei de ser, para uns poucos, apenas sonho
e, para todo resto,
esquecimento e sombra.

A cada passo dado
sinto puir as fibras desse laço
que ao chão me ata,
mas depois me cala
no embalo do cair da tarde.

Laço que também me enlaça
no embaraço melancólico, cansado
dos raios de sol de fim de tardes
e que, ao som do cantar de seriemas,
silencia, nas linhas de um poema,
o sol poente a dormitar.



Breve, até!


Fui ali, além,
noutro lugar
longe daqui.

Morri:
coisa rápida!

Volto já:
ressuscitado.

Deriva


Minhas penas se soltaram
deixando minha alma nua
de tal maneira que há muito
vivo nesse vai-não-vai:
desejo ser passarinho
mas meus pés do chão não saem.

Essas penas desgarradas
voando soltas no ar
são iguais meus passos bambos
tropeçando nas calçadas
a implorar a caridade
de algum sopro de asas.

Vivo apenas meu passado
e mesmo o que é presente
num instante passará
como meu trôpego passo,
que mal sabe caminhar.

É assim que minhas penas
sem asas para emplumar,
vagando soltas ao vento
parecem, por um momento,
barco a deriva no mar.

Eu, sabiá


Juro que não sabia,
até ver o sabiá,
todo prosa e sábio,
se sacudir, se banhar
no canteiro central da avenida.

Eu sentia que ainda
não estava lá:
vagava aqui e acolá
a sonhar com cachoeiras
e riacho onde lavar
todas minhas penas.

Semear


O menino andava solto
pisando a areia da chapada;
braços abertos, qual asas,
voo de pássaro ensaiava.

Os seus sonhos
¬ quase nada! ¬
mais curtos que o horizonte,
¬ sequer sabia de mar! ¬
cabiam inteiros na fonte
e na sombra do juá.

Um dia ele tomou jeito
e, ainda menino mal feito,
resolveu se arriscar:
pegou a primeira trilha
que havia no lugar
e, ao longo do caminho,
começou a semear
os seus sonhos pequeninos.

Em pouco tempo o menino,
com seus olhos espantados,
viu seus sonhos germinarem:
nasceram deles muitas flores
para a vida perfumar
e, aqui e acolá,
entre pássaros a revoar,
surgiram, não se sabe de onde,
límpidas e cristalinas fontes,
alguns ribeirões em cascatas,
outras tantas e frescas sombras
de muitos pés de juá.

Hoje, um pouco crescido,
dissimulado, atrevido,
o menino às vezes dorme
à sombra de juazeiros
e até sonha com mar.

Margem


Cato cacos na paisagem,
vago à margem do imperfeito
ando a esmo numa estrada
a busca do que desconheço.

Mereço um tempo, um descanso,
mas prefiro o recomeço...

Miro o alvo e nunca acerto:
sinto-me tão perto do nada,
tão perdido nesta estrada!...

Oscilo cada vez mais perto
deste abismo de mim mesmo.

Onisciente


Um vento úmido
soprava sobre a chapada
enquanto uma ave única
navegava ao seu encontro
a testar a resistência
de suas asas travessas.

Um poeta besta
andava pela estrada
reparando aquela ave
e de tanto contar passos
teve até, por um instante,
inveja daquele pássaro.

Ao (in)verso dela!

 

Sem vírgula nenhuma
sou mais humano que uma pedra
ou aquilo que se esconde embaixo dela,
sou menos ou mais que uma ameba
e outros vermes que em mim habitam.

Sou grito:
bruto arranhão de derme
que constrói erupções na pele,
mancha e fere
a alma e os sentimentos.

Sigo navegando
qual barco em meio ao temporal,
qual roupas, ao vento, num varal,
onde a memória
é só um self de momento.

Não tenho amigos:
perdi minha história no tempo,
lanço impropriedades ao vento
e, das folhas que rolam ao chão,
recolho o pardo de estações.

Sei que cedo ou tarde
o meu barco à deriva, num mar imenso,
há de naufragar em suma tempestade
e quando ela não existir mais
o que serei?

Talvez rochedo onde as ondas quebrem,
mirante no qual alguém, sentado nele,
observe, ao fim das tardes, seus mistérios
e desconfie dos sentidos e mazelas
de ser, na vida, não mais que verme e pedras.

Espanto

 

Era quase meia-noite
e atravessávamos o aglomerado, rumo à lagoa,
para as festas daquele fim de ano:
eu, minha esposa, meu irmão,
a cunhada e meu sobrinho de três anos.

Foi quando no escuro, junto ao muro,
percebemos estranhíssimas figuras
e cheios de juízos e conjecturas
pensamos que, àquela altura,
estaríamos todos já perdidos.

Na ânsia do inevitável confronto,
lembrei-me, confuso, tonto,
de um programa de tevê
no qual um leopardo faminto
matara um símio fêmea
e, com ele, seu frágil filhote.

Mas, naquele instante trágico
o mais temível entre os quatro
cumprimentou-nos e falou solene:
“lembro-me de quando, ainda pequeno,
o senhor brincava com a gente
e fazia-nos, sem cobrar por seu serviço,
os mais lindos papagaios de papel”.

Respiramos aliviados e os abraçamos
com votos de um ano bom e feliz,
mas para além de tudo isso
ficou um sentimento torpe:
resquícios de tão falsos juízos.

Sagrada família

 

Morena, cabelos soltos,
o pequeno preso às costas,
pilava, ao lado do poço,
alguma coisa pro almoço
enquanto esperta, ligeira,
seu olhar atento vigia
a brincadeira dos filhos.

Crianças, qual anjos nus
correndo pelo terreiro:
seus corpinhos sujos,
vermelhos de pó e chão
sobre a sombra de mangueiras
compunham, numa antítese,
imensa tela sem madona.

Olhos fundos, rugas precisas,
pele de ébano no alpendre
junto ao batente da porta
escorado, se aprumando,
o velho José ia dizendo:
“Vamos chegar seu moço,
não precisa de ter medo:
os cachorros daqui não morde não”.

E na meia luz da sala,
pés esguios, gestos ligeiros,
via-se o vulto da menina
espiando sutil o movimento:
tão especial e raro instante
em que seus olhos vivazes
daquela meia luz miravam
o igualmente raro visitante.

O menino deu seu recado
despediu-se e foi embora
levando para sempre na memória
a quase perfeição daquele quadro.

Sonhar

 

Mãozinhas em concha na bica
filete de água macio
a escorrer por entre os dedos:
sonhadora a menina brinca
de lavar os seus segredos,
de dançar no espelho d´água
do pequenino regato,
de seguir seu serpenteio
por entre flores e ramagens
pensando que nessa miragem
seus sonhos irão navegar
até o encontro com o mar.

Jardins da China

 

Em passeio matutino
reparei que os olhos dela
deitavam-se em desvario
por uns jardins bem ornados,
com flores, sapos, joaninhas
e passarinhos de plástico.

Depois fiquei a reparar
pessoas passando por mim,
avenidas, praças e chafarizes,
pensando como seria infeliz
se a natureza fosse, assim,
um mundo feito de plástico.

Então, ao ouvir um sabiá
a cantar alegremente
pousado num flamboyant róseo
comecei a procurar
aquelas bolhas de sabão
que ele deveria lançar
na mecânica de seu canto.

Mas ao voar para outro galho
vejo que sua produção
não é de tudo industrial:
tem filhotes, tem um ninho
bicos famintos, reclames,
fora do padrão made in China.

Ligo só para te dizer
que sou feliz e ainda a amo,
embora tenha um smartphone;
informo também ter visto
um lindo sabiá que canta
sem fazer bolhas de sabão.

Rimos mecanicamente,
mas creio que ficou evidente,
diante de tais circunstâncias,
que nem tudo que voa é drone
e nem toda flor é de plástico...
ainda!


Espelho do tempo


Serpenteia serra abaixo
um cristalino riacho
que em doce sonoridade
canta saudades ao vento.

Cai travesso em cascata
sobre pedras, verde, manso,
corre, às pressas, rumo ao mar
sem reclames, sem descanso.

Em seu leito, a refletir
lua, sol, chuva e vento
nas frágeis folhas de avencas
todo mistério do tempo!

Bom dia!

 

Hoje é somente mais um dia
quase como outro qualquer:
ao levantar vista-se de fé
e na mesa do café,
mesmo que algo lhe falte,
creia nas mãos de uma mulher
que a preparou com maestria
e, toda pia, ornou tua mesa farta.

Lembre-se ainda, mesmo que farto,
daquela que te carregou no ventre
como uma semente de onde nascestes
e, além de tudo, com cuidado,
te protegeu desse mundo louco
para que, ao amanhecer de qualquer dia,
possa se por de pé sem vacilar,
saborear outro café e, talvez, amar.

Marias

 

À Ana Terra e outras tantas meninas

Lata d´água a encher na bica
¬ água limpa pra beber! ¬
e na cabeça da menina
lindos sonhos de mulher.

Passo firme lá vai ela
a subir pelas ladeiras:
uma chama no olhar
um reclame nas cadeiras.

À tarde, quando descansa
na longa varanda do olhar
uma rede triste desponta.

E, mais tarde, ao se deitar
no seu catre, lenha em chama,
se banha em água de mar.

Chuvas de primavera


A boa-noite despediu-se
e foi dormir roxa de frio.

A rosa desabrochou
ao primeiro barulho do trovão.

A onze-horas aconchegou-se em pétalas
num sono longo de tardes.

A amarílis nem fechou os olhos
ao furor de raios em seu caule frágil.

As margaridas, atrevidas, olhavam o céu
à busca de suas irmãs noturnas.

Fechei minha janela aos jardins e fui dormir
ouvindo as últimas gotas no telhado.

Mulheres

 

Vejo o mar em movimento
entregue às carícias do vento
a se lançar sobre areias
a se roçar nos rochedos
úmido sabor de sal e cio,
zelo de ventre e de crias.

Olho a sanha das florestas
entregue ao gozo de insetos
ofertando aos passarinhos
todo aconchego e abrigo
a soprar frescor e vida
pelas sombras dos caminhos.

E aqui bem do meu lado
hipótese, tese e antítese
num diário de mulher,
síntese perfeita da vida,
dança criadora dos mares,
flor germinal das florestas.

Aos santos de Felisberto

 

Ana era o nome da mãe,
Maria a filha mais velha,
depois dela era o Tomé,
Pedro e Simão vinham a seguir
fechando com Mateus e André.

Sempre colhiam macaxeira,
milho, feijão, gergelim
e, naquelas enormes leiras,
carás, batatas e amendoins
adoçavam as colheitas.

O inverno inteiro era de samba,
mas até maio, suor e trabalho.
Muitos santos pros festejos
daqueles santos de nome,
de alma limpa e de fé.

A pele da cor de ébano
ao sol de todos os dias:
cantigas em eitos festivos,
poesia e danças de África
na voz da irmã Maria.

E a gente nunca soube
do que aqueles quilombolas
seriam deveras capazes
se lhes fosse dado a terra,
a liberdade e a escola.

Não se sabe bem direito
se por inveja ou por medo,
se por vingança ou despeito,
negamos todos os direitos
àqueles santos de nome e alma.

Reflexões pueris

 

Contava uma ou duas
pequenas flores de romã
e ficava feliz com meu rebanho.

Traçava no chão do terreiro
o pequeno território
de minha propriedade
limitada por gravetos.

Um dia compreendi
que, para além de meu quintal,
o mundo tem lugar para todos,
mas só alguns dele se apossam.

Não se contentam com flores:
querem todos os rebanhos
e, ao invés de gravetos
cercam-nos com bombas atômicas.

Às vezes me arrependo de ser o adulto que sou.

Escolhas, que faço?

 

Tenho fotos aos gigabytes,
vídeos com a família no shopping,
tenho dez cartões de crédito
carros zero na garagem
e investimentos em bancos.

Tenho uma magnífica casa
com suíte máster e living,
grande varanda e jardins,
ampla sala de jantar
onde me sento sozinho.

Mas o que queria mesmo
era poder andar a pé,
conversar com meu vizinho
ter muitos livros e um cantinho
para um café com alguns amigos.

Queria ter um álbum antigo
com muitas fotos desbotadas:
ao invés de luxo, memórias,
e, em lugar da mansão,
pequeno rancho de histórias.

Abraços

 

Um braço enlaça
um outro braço
e juntos se amarram,
se prendem
e se aconchegam
num longo abraço.

Sentir no corpo
o aperto, o sopro
da respiração,
o cheiro morno
e a face do outro
quase um si mesmo.

Mas que distância
há entre a constância
virtual de outros abraços,
esses que, em alguns bits,
fluem, lassos,
nos virtuais espaços?

Sol de Gaza

 

Oh sol que brilha
sobre o céu de Gaza
aquecendo velhos,
mulheres e crianças!

Sol que clareia os canhões,
as bombas e os tanques!
sol que cai sobre os soldados
e suas mortais metralhadoras!

Sol que ilumina o oprimido
e, sem distinção nenhuma,
aquece, também,
a alma fria do opressor!

Óh gemidos de dor, oh lágrimas!
óh feridas abertas, oh mães!
óh luz cálida das tardes!
óh rugido louco de explosões!

Sol que brilha em Gaza:
a sua luz é dádiva,
mas o opressor
não faz por merecê-la!

Brincadeira de menino

 

Corre menino, corre,
corre no seu faz-de-conta,
para que o tempo nunca possa
tomar-lhe a inocência da infância.

Não deixe, por favor menino,
que te façam homem formado,
pois pode ser que queiram mesmo
que amanhã sejas soldado...

Soldados matam crianças,
matam avós, matam amigos,
matam sonhos, matam mães.

Por isso menino, se te apraz
seu brincar de faz-de-conta,
faça-o na esperança de paz!

Da alma, só!

 

Na transparência
os vidros se quebram
e seus cacos, esquecidos,
podem até cortar.

Ser opaco é não deixar se ver
inteiramente
por dentro
e do outro lado.

É não ter sentimentos,
nem segredos,
nem alma,
nem a quem amar...

É não refletir no tempo
os seus sinais,
nem temer relâmpagos
em dias de temporais.

Pena da alma transparente
daqueles que se quebram
frente à opacidade bruta
desse mundo de pedras.

Pena das pedras
que não se deixam ver
e não têm alma
nem transparência alguma.

Escolhas

 

Uma porta,
outras tantas...
abertas, fechadas.

Eu, indeciso,
qual equilibrista,
retenho o próximo passo.

Ai daquele que vaga,
mais que as pedras,
pelos caminhos tortos...

Abrindo e fechando
portas.

Gratidão

 

A todas essas flores lindas,
às meninas e mulheres,
pelo dom da vida, pela delicadeza,
pela beleza e amor indescritível,
hoje e sempre e a cada dia
de todos os anos e eras,
nos verões e nos outonos,
nos frios de invernos,
nas flores de primaveras...

Às que desse mundo já se foram,
às que ao mundo ainda virão,
às que já são e àquelas
que apenas sonham um dia ser,
quem sabe, mãe!

Pesadelo

 

Entre o sonho e o pesadelo
o mais ingênuo é ele
que não acreditou
nos relatos do menino.

A tia Anne, e não só ela,
mas todos nós, sem exceção,
somos vítimas da perseguição
desses terríveis monstros.

Por isso quando nosso neto
diz que teve um pesadelo
sou todo ouvido e zelo,
partícipe de sua aflição.

Pergunto: como não acreditar
nesses inumeráveis monstros
que nos devoram a cada hora
pelas esquinas do mundo?

Não crer nos sonhos de criança
é perder a essência do olhar,
é anoitecer o assombro do real
onde vivem os monstros.

Flores de meu jardim


Às vezes confundo as flores
e os nomes das mulheres,
talvez porque elas
em quase nada se diferem:
na beleza, no perfume,
nos encantos e delicadezas
e, mais ainda,
nesse dom muito mais divino,
que é o de trazer ao mundo,
sobre a imensidão inerte,
o grande milagre da vida.

Não sei se foi amnésia
só sei que já não me lembro
se o nome dela era Gardênia
ou se se chamava Helicônia.

Na verdade até pensei
que poderia ser Frésia
ou quem sabe Iris, Lilac,
margarida ou Hortência.

Lembro-me de uma Angélica,
uma Rosa... Ou seria Amarilis?
não tenho muita certeza
se o nome dela era Watsônia!

Annes, Anas e Amélias
Marias, Carlas e Glórias
Áureas, Amandas e Gertrudes,
Filomenas, Zeferinas ou Begonhas.

Com todo meu pudor e sem ofensas
a todas essas flores e meninas
¬ das que me lembrei ou que esqueci ¬
por fazer valer minha existência
os meus sinceros agradecimentos.


Que somos nós?


Alheio aos ditadores
aos regimes totalitários,
ao extermínio de animais
e de seres humanos...

Alheio às máquinas mineradoras,
à destruição das montanhas,
ao corte de todas as árvores
e ao poder da bomba atômica...

Alheio à ciência utilitarista,
à insolência do capital,
aos homens lúcidos ou loucos
e a nosso mundo porco...

O universo segue em movimento
e nada vai mudar isso!
ainda assim nos proclamamos
os únicos eleitos.

Devaneios

 

Amor, não fique triste assim!
saiba que só você e ninguém mais,
nem mesmo eu,
será capaz de conhecer
as coisas horríveis que se escondem
debaixo de minha pele.

Cria não ser necessário
falar-lhe de nossos segredos:
os meus desejos loucos,
minha fome doentia
e essa paixão desgovernada
que queima e depois esfria...

Meus pesadelos, minha insônia,
minhas penas, minha dor,
meus versos, meus devaneios...

Eu não queria, eu não devia,
mas tenho que admitir:
é preciso vigiar os meus demônios.

Pedofilia

 

Às vezes me pergunto:
o que será dos homens,
essa coisa podre, indefinida,
que entre todos os animais
conseguiu ser o pior?

No silêncio de uma noite,
no vazio de mim mesmo,
lamento não ter nascido outro,
outro animal qualquer
que não essa obscuridade e breu.

Minha falta de medida
minha pele de verniz,
minhas máscaras de santidade...
só mesmo eu sei
¬ e muito me envergonho! ¬
das coisas indizíveis que guardamos
em nossos sótãos e baús,
em nossos sujos porões!

Lamento, lamento muito!...

E choro pelas rosas
que não maculei
e, como um mártir ou réu,
trago em meus ombros
o peso do pecado alheio.

É por causa dos homens
e dessa insanidade sem medida
que me sinto um sôfrego a emergir
desse poço de insensatez fétida.

Um certo canário

 

Um canarinho poeta
dançava com uma galhada
rindo-se das tristezas
da avenida apressada.

Mas uma brisa ali passou
e o acordou daquele verso:
sem explicação ele voou
e com a brisa foi embora.

De saudades a galhada
chorou todas suas folhas,
perdeu o viço de flores
e nunca mais dançou...

A árvore,
vendo assim sua ramada,
ficou doente coitada
e em pouco tempo secou.

Nudez

 

Não tenho motivos para reclamar:
se o dinheiro é pouco,
se não encontro tempo para passear,
se me convocam ao trabalho
no primeiro dia do ano...

Tenho que considerar
que estava totalmente nu
quando vim ao mundo.

Hoje,
embora sem muita certeza,
mas porque me ignoram,
creio que já não estou.

Reflexões

 

Óh tempo que passa depressa
por essa porta aberta
e, tal qual o vento,
se desfaz no nada!
áh, para onde foges agora
se já te espera, à soleira,
essa criança?
óh eras, sopro do tempo!
sois deveras esse recomeço
que vem à frente de seu eterno findar?
óh tu que surges do nada e ao nada conduz!
como fugir de ti, óh maldito tempo?

Renovam-se os sonhos e esperanças,
findo o velho, surge o novo
e tu não cansas de ceifar,
sonho por sonho,
nestas tempestades de percursos,
todas as histórias e lembranças
guardadas em nossos baús.

Óh noites sem janelas!
como vislumbrar o tempo
se na penumbra desse quarto de hotel
só o sibilar do ar condicionado nos avisa
que o deixamos do lado de fora?

Óh mãe!
tu que viste findar seu tempo
diz-nos, abrindo uma fresta na parede do desconhecido:
para onde levarão nossas escolhas?

Falamos da luz que se anuncia,
mas ignoramos a noite vinda:
nela vamos tatear destinos
e, para além de nossas escolhas
– óh mãe, bem sabes! –
só vamos debulhar os dias findos
e plantar desertos de incertezas
a cada amanhecer.

Apegos

 

Hoje a minha alma
está leve e calma
e meu olhar se deita
no macio azul do céu,
na transparência
pura de mistérios
que se descortinam
depois dos temporais.

Na leveza de nuvens
¬ aves pintadas no azul ¬
vê-se que a tempestade
na madrugada se perdeu.
Não estou mais triste:
posso sair sem guarda-chuva
e estender as roupas
no quintal.

Amo a luz do dia
e, ao brilho do sol,
o balanço das sombras
no andar das meninas.
Assim vou tecendo apegos
a tudo que é etéreo e frágil:
as sombras, o tempo,
as calmarias e os temporais.

Soneto avesso

 

O chão úmido reclama
na manhã, depois da chuva,
uma cova, uma semente,
uma flor e um sabiá.

O sol doura a paisagem
cobrando perfume de flores
às mulheres que ali passam:
o que levam? o que trazem?

As dores de jovens viúvas?
suas culpas, seus pecados?
a solidão de guarda-chuvas?

Não! Trazem com toda certeza
seus lindos corpos sedentos,
segredos, amores, desejos.

Navegante

 

O temporal ainda não passou:
agarro-me aos fragmentos
de tudo que me acalma
até que os ventos tropicais
parem de soprar.

Quando tudo se aquietar,
acaso sobre alma,
vou pegar umas folhas de palmeiras
¬ se ainda houver! ¬
e com elas fazer uma canoa,
leve como pluma,
na qual hei de navegar
ao sopro do vento
até o horizonte de nós dois:
um lugar calmo e sereno
como calma é a minha alma agora.

Sou verbo transitivo,
pouco substantivo
e os meus adjetivos
já sangraram
pelas portas escancaradas
desse meu coração
de menino doente.

Estudos


I

Pediram-me três, mas numa plêiade literária, elenquei: Pessoa, Guimarães, Neruda, Vieira, Mia Couto, Drummond, Machado, Euclides, Clarice, Veríssimo (Érico), Lúcio Costa e outros tantos que me encantaram, como a lesma de Barros, o banco na porta da casa do avô de Bartolomeu, a Dadá de Marcelo Xavier e o senhor de Amanda que não sei se queria comer, se sabia ler ou se era capaz de se reconhecer. Assim, fortuito e sutil, revelo minha tríade preferida, multiplicando-a por dez, por mil.

II

Gratuito o condor passeia sobre o cume das montanhas e zomba dos aviões que, de um aeródromo próximo, alçam voos desengonçados.

III

A sua libido mexeu com meus hormônios e me fez imaginar um périplo pelas curvas e oceanos de seu corpo, refém de seus tremores e tempestades tropicais.

IV

Gibraltar é um lugar que, dizem escritos de avito, sempre foi muito estreito, mas duvido – embora não álacre por isso – que ele seja mais estreito que meu peito, visto que por este, nem mesmo eu, na fragilidade de meu barco de papel, posso livremente navegar.

V

O cupido afetou meu coração: fez-me ádvena de mim mesmo e, embora opimo, nele o amor já não vinga.

VI

O Niágara é uma cachoeira que cai num lago gelado, refém da mãe natureza, mas eu tenho por certo, embora pareça inaudito, que ela não se compara às duas cascatas que caem no abismo de outros lagos onde meus olhos passeiam.



Utopia

 

Hoje acordei pensando nos meus sonhos de menino
quando tudo parecia muito grande
inclusive a tela de cinema.

Lembrei-me do primeiro filme
– Mazzaropi: Sai da frente –
meu melhor presente do Dia das Crianças
talvez até por ser o único.
tinha oito anos e as professoras
Afigênia, América Mendes e Marlene Matos
nos levaram ao cinema.

A grande maioria daqueles meus colegas de escola
nunca tinha visto um filme,
inclusive eu.
A televisão ainda era promessa para alguns privilegiados;
a vida difícil só possibilitou outro filme
quando pude trabalhar e ganhar dinheiro para o bilhete.
Durante todo esse tempo,
igual a um carreiro com seu carro cheio de sonhos,
tangi bois pelas ladeiras e por caminhos estreitos
movido por fragmentos da memória
daquele primeiro mergulho e encanto.
Hoje acordei com vontade de alargar todos os caminhos
e aplainar ladeiras,
mas ainda me sinto pequeno demais para tanto.



Certidão de Nascimento

 

Bem mais que um rio,
desejo suas serpenteantes memórias:
quero escrever um livro de história:
registrar nele meus piores erros
e os escassos acertos.

Faço votos que meus netos
saibam compreender melhor:
o que é certo
e aquilo que não é direito fazer.

Pretendo dar funeral digno
ao rio que morre;
registrar sua certidão de óbito num cartório;
deitar-lhe flores de lírios;
oferecer-lhe meu canto e minha dor
e, quando sentir frio,
cobri-lo com meu cobertor.



Ser poeta


O poeta quando escreve
é igual ao garimpeiro:
busca na areia dos rios
a joia que nunca viu,
pensa que ao encontra-la
rico se tornará
e, assim sendo,
descansará de tal procura.

Ainda bem que essa loucura
costuma resultar em nada
e no leito desses rios
sempre haverá
sonhadores e poetas
em eterno garimpar.



Verniz de cores


Talvez o verso não seja o avesso da árvore!
árvore finca a cabeleira nas cores do chão
expondo as intimidades sem pudor.

Reparo a vergonha das árvores e rio
quando estou sozinho para não parecer louco.

Sinto-me menino,
espiando pela frincha das portas,
a beleza escondida das moças
com medo dos adultos que já escancararam árvores
e pensam que frincha é demais para crianças.

Sou manso e encosto no verniz das cores
que pintam a intimidade das flores
e se oferecem ao gozo de insetos.

Riacho torto


Finco o pé no chão da tarde
e seguro o horizonte de sol poente
como um remanso de rio
que abraça barrancos
engana peixe em caminho d´água
e apanha graveto de redemoinho outro...

Assim finjo ser mar
sendo riacho pouto.

Rio, risível

 

Rio manso
rio bravo ou rio perene,
rio de minha insignificância,
rio das frustrações e dos tropeços,
rio de nada ser, sonhando tudo.

Cego sou!

 

A José Saramago

 

A tatear
pelo terreno de minha vã militância
desconfio que também estou ficando cego.
dessa maneira, caro José,
a cegueira que acuso no outo
parece ser a minha própria:
essa que me faz ver sombras
na caverna onde habito.

O meu mundo é feito de alegorias
E, ainda assim,
acuso no outro
as ilusões e sombras
que confundem meu próprio olhar.

Há no mundo
quem tenha um pouco de razão
para me emprestar?

Perfis


A Gaston Bachelard, por sua Poética do Espaço

Caiu na rede é pescado!
peixe de novos perfis,
imagens a refletir,
futilidades e medos.

Valsando em nobres salões,
lugar de humanas vaidades,
sob os salões subjazem
os mais obscuros porões.

O Face dispensa os espelhos,
faz vistas a Bachelard:
dirige furtivos olhares
a seus reflexos narcísicos.

Fartam-se de vanidades
oportunos convidados
a banquetear beldades

E ao fechar dos salões,
despidas as vaidades,
ressumbram antigos porões.

Sr. Cartesiano


A Paulo Leminski

À luz difusa da repartição
o funcionário gira
sobre seu próprio eixo
e, esticando o braço,
apanha algumas folhas na impressora.

Após conferir, uma a uma,
fixa, com resignada intenção,
um grampo do lado esquerdo das mesmas.

Pega, resoluto, numa gaveta,
um já ensebado carimbo
e, com desprezo de automação,
aplica-o ao pé de cada página.

Com seus viciosos polegares
pesca da algibeira sua pena
e na última página
traça duas retas paralelas
e, depois delas, num sutil gesto,
desdenha imperceptível ponto.

Está decretada para sempre
a irrevogabilidade do eu.

Inveja


Meus olhos são pássaros:
mesmo sem procurar
passo e os vejo
ora ensaiando um canto
ora em passeios raros
ou mesmo em voos rápidos

Meu olhar os capta
com inveja de não terem
nenhum asco ou apego
à rotina do trabalho.

Quero um irmão


Quero um computador
que como eu
possa chorar e sentir dor
que saiba brincar de esconde-esconde
e chore horrores
se a mamãe negar
nosso direito de comer doce
antes do almoço.

Perguntas...


Que importa:
portas fechadas,
arames farpados,
concretos e muros,
tanques, soldados,
sementes e flores?

Que importa:
se a flor murchou,
se a bomba explodiu,
crianças morreram,
as casas ruíram,
se não sinto cheiro
das bombas de gás?

Que importa:
um acordo de paz,
abraços, sementes,
um muro caído
uma flor que brota
na Faixa de Gaza?

Que impor... tá! tá! tá!..

Quase nada


Deitada num canto de muro
num leve recuo de calçada
aquela menina é sombra,
pequena mancha de gente
uma total transparência...
quase nada!

Que pensam aqueles que passam
distraídos, alheios, apressados?
talvez estejam buscando
uma distinção marcada
pela cegueira de mundo
de tantas retinas fechadas.

E a menina pequena
ali no canto deitada
disfarça dor e gemidos
esconde a grande tormenta
só revelada mais tarde
quando um transeunte percebe,
no recuo da calçada,
uma criança nascendo.

Front(eiras)


Ponta de caneta nanquim
grafites, paredes e papéis;
revistas,
jornais, pasquins...

A arte
exige fronteiras?

Homens industriosos
bélicos,
cheios de pólvora,
trinitrotolueno,
venenos, urânio,
hidrogênio...

Razões, humores,
gênios.

Homens libertos,
libertinos
¬ introvertidos até! ¬
pecadores
de muita ou pouca fé...

Homens out,
homens extremamente in

Imorais,
incongruentes
individualistas
interesseiros
impudicos
infernais!

B.O.

 

Eles eram dois
num Pampa vermelho-vinho
que vinha na contramão.

Eu voltava da padaria
e levava apenas
pequeno pacote de pães.

Chegaram nervosos:
rasgaram minha blusa de malha
e me jogaram ao chão.

Causaram-me, destarte, arranhões,
roubaram meu smartphone,
mas minha arte não!

Atalhos

 

Quase sempre reinvento algum atalho:
lanço ao vento
versos e canções ignoradas, inaudíveis.
Acredito,
apesar e para além de tudo isso,
que a vida é mais que só movimento:
é o imponderável, o invisível,
que no infinito tece o fio do olhar
e colhe da luz das estrelas,
não um fim em si,
mas motivos para sentir, crer e sonhar.

Zé e Maria

 

Maria colhia
andu no terreiro
depois, sem descanso,
no pilão socava
café pra coar
e preparava o milho
pra fazer fubá.

Varria o alpendre
e com muito esforço
tirava do poço
água de beber;
preparava a janta
pra suas crianças
e pro Zé que ficava
na folga da tarde
na rede deitado.

Mas chegou o dia
que de tanto abusado
Maria deixou
o Zé sem guisado
e à noite no quarto
sozinho largado.

Bem feito pro Zé
que no dia seguinte,
um tanto amuado,
correu pro roçado
buscar melancia
e no resto do dia
ao invés da rede
tratou de tirar
a água do poço.

Foi pilar o milho,
cuidar das crianças
e no frescor da fonte,
além de banhar-se,
catou umas flores
e amarrou com embiras;
encheu o chapéu
com muito araçá
e ao voltar pra casa
sorriu pra Maria.

Em velho ser

 

Catei palavras no dicionário,
atirei algumas na varanda,
pendurei outras no teto,
colei umas tantas na parede lateral,
espalhei o resto pelo chão da sala
e fui jogar bola-de-gude com meu neto.

Humanizares

 

Andava só e do meu lado
uma multidão tão distante
e, ao mesmo instante perto,
separadas por pequenos espaços
nesses apertos de metrôs e ônibus.
Por isso eu disse ao Caieiro, Alberto:
humanidade não sei se há!
falta sempre alguma coisa
¬ quem sabe um laço! ¬
que amarre esse vazio e, num amasso,
dê um abraço, um colo, um ombro...
dê de cada um o máximo!
bem mais que apenas espaço,
fronteiras, paredes, muros
e outras coisas que separam
pessoas e quintais.

Higienismo

 

Caía sobre a tarde um grito surdo
e debaixo de frios viadutos
a truculência bruta,
ao revés de vida e luta,
deitava sobre pedras pontiagudas
um sono de paz absoluta.



Dádiva

 

Ao cair da tarde
ninguém repara a noite vinda
quando os homens se embriagam,
as mulheres amam e esperam,
os bichos noturnos piam
suas tristezas de trevas
povoando os sonhos dos meninos
e, quase sem tento,
a lua inspira pretensos poetas.

Mas eis que a noite passa:
o sol ilumina os desalentos,
em algum café os homens curam suas ressacas,
as mulheres, ainda em espera, perdoam,
o pio noturno dá lugar ao canto de pássaros,
os meninos riem e brincam nos becos
e a lua pálida esquece a pena dos poetas
na mesa de um bar qualquer.

Meu pedido

 

Eu queria ser riacho
que não pergunta nada
sobre o sexo dos peixes
e sobre o ouvido das pedras,
mas acaricia aqueles,
canta para estas
e, além disso,
faz festas para as flores
que adoram sóis
e a seu pobre lençol
sequer deita um olhar.

Quisera poder,
nesse tempo de Natal,
libertar-me dessa peia,
que nos aprisiona
sem o menino, sempre alheios,
separados uns dos outros
por essa lógica de fins e meios.

Eu cartesiano


Mergulhado nesse mundo,
que se diz globalizado,
embrenhado no tropel
do tal mercado econômico
procuro não me envolver
com o que passa com o outro
do outro lado do mundo.

Que me importa o que diz
um morador da Tessalônica?
os gregos que se arranjem
com a comunidade europeia
que excluam de seu grupo
Portugal, Itália e Espanha
que abandonem as velhas ilhas
a seu incerto destino
de já não representarem
a pompa do ocidente,
a luz de nossa ciência.

Posso preferir o tupi,
a língua desses brasis,
pensar como pensam os nossos
e mesmo com o pé no mundo,
ignorar as tenebrosas
previsões de Shevtsova:
que importam os desdobramentos,
das prévias confusas do Kremlin?
ou mesmo os rumos políticos
das campanhas de Putin?
Eles já são bem crescidos
e por dever de autonomia
podem responder por seus atos:
pela reunião da Bielorussia,
onde três vozes tomaram
as decisões de dissolver
a antiga união
implantando sem pudor
a liberal economia!

Pensar o avanço científico,
os problemas energéticos
e níveis de poluição?
o aquecimento global
e outros problemas ecológicos?
preocupar-me, algum dia,
com a instabilidade de Fukushima,
os níveis de radiação
que podem comprometer
a saúde do planeta
ou do povo do Japão?
por que devo inquietar-me
com a produção da China
de tanta tecnologia
que serve para quase nada?
a Ásia é que se dane,
que se afogue em águas salgadas,
se estorrique de febre
queimada pelos vulcões
ou sofram de tremedeiras,
e se banhe em tsunamis!

E nossa velha mãe África
onde devem ter nascidos
alguns de meus ancestrais
em que poderia afetar
um pobre sujeito mestiço
que vive aqui nas Américas?
posso às vezes interessar-me
pelas exóticas savanas,
mas pouco me importaria
se o governo Sudanês
¬ ao financiar milícias ¬,
produzisse guerra civil
nas suas plagas do sul
e acabasse de vez
com a vida de seu povo!

Pouco me importa esse outro
que vive fora de mim,
porque sou cartesiano
sou soberano do eu
parido por minhas mãos!

Por que devo preocupar
e com a África de Sudão,
com a Ásia de China e Japão?
em que pode me afetar
a real tragédia grega,
Espanha, Itália e Portugal?
que se danem os soviéticos
que as eleições de Putin
sejam vergonha global!

É cartesianamente inserido
nessa sopa planetária
que percebo que sozinho
posso até, pelos caminhos,
fazer rastos, deixar marcas
que de nada servirão
a minhas humanas pegadas!
sendo indivíduo isolado
do outro que me rodeia
jamais posso exigir
que os sinais por mim deixados
devam ser considerados
por africanos, asiáticos,
americanos ou europeus!

Sinto-me preso na armadilha
dessa arapuca global:
vejo-me “em giros eternos,
preso num eixo de ferro
sempre lá e sempre aqui
sem nunca sair do lugar”!

Epicuro tinha razão,
descartes nem tanto assim!
por isso dentro de mim
tenho motivo bastante
para duvidar da eficácia
de meu isolamento constante!

Mestre


Certa vez um mestre me disse
que o sentido da vida
só a razão pode explicar.
Crédulo e ingênuo que sou
mergulhei fundo no eu
E deparei assustado
com a sutileza do acaso.

Ainda teimoso busquei
na vastidão do universo
um ponto para me apoiar:
foi então que defrontei,
totalmente desarmado,
com a insignificância dos quarkers
onde tudo se encerra.

E assim, preso de mim,
senti escapar de vez
o apoio primordial
¬ pra lá de um ponto de vista ¬
que pudesse assegurar
o etéreo conceito do eu:
quanto mais mergulho na vida,
mais me deparo com a morte!

Olhar de menino


Meu olhar é muito nítido,
transparente, cristalino
talvez porque sempre o banho
em enxurradas de pranto,
desde menino.

Palavra


Palavra vil,
aviso-te:
visto que vives
essa tua vida vulgar,
não penses que o vídeo
é seu barraco
nem vais fazer de conta
que viestes
somente para vadiar
e, voraz,
meus pedaços devorar
depois voltar
pra insignificância virtual
das rimas que não pude versejar.

Carolina Maria de Jesus


À noite no quarto sem janelas
amava a luz amarela
da lamparina de azeite
e seus sonhos escancaravam portas.

De dia em meio a tanta gente
esquecida e quase transparente,
catava vidas no lixo,
guardava descuidos e pérolas.

Vidas contadas em alpendres,
que em mouros ouvidos, bordavam
lindos quadros coloridos.

E foi ali, no seu quartinho escondida,
que amou, viveu, lutou e se fez ouvida
na cidade, na favela, hoje e sempre!

Às mães de África


Deitado no vão do abismo
meu ser interrogativo
pergunta à minha mudez:
onde vai dar tudo isto?

No mar, vagando à deriva,
somos barcos frágeis, rotos
que ao bel sopro do vento
navegam sem rumo, sem porto.

Quer um atalho pro norte?
¬ óh mães de América e de África,
mas lá há monstros piratas!

Urge unir linhas e pontos,
fazer do mar estriado
um novo mapa geográfico.

Rememorando


Quase sempre esqueço:
que gatunos roubaram
as rodas do carro do vizinho,
que a indústria bélica
lançou novos veículos de assalto.
que astrofísicos divulgaram dados
sobre a radiação de fundo do universo,
que físicos já contestam o Big Band,
que a energia é igual à massa
multiplicada pela velocidade da luz ao quadrado,
que a psicanálise edipiana é uma farsa,
que a filosofia grega
foi também o ponto de vista dos vencedores,
que os nórdicos só inventaram a máquina
da qual sou pequena engrenagem
sempre a girar, presa num eixo...
E é nessa condição que escrevo
as coisas que às vezes esqueço.

Poeticus arrogans


Guardei umas saudades antigas num baú,
atirei no jardim meus mais pontiagudos espinhos
e sobre o banco da varanda,
de onde se vê o céu,
depositei algumas penas
para acender minhas vontades de pássaro.

quando a primeira estrela brilhou
no céu de minha sombria solidão
peguei um violão,
toquei você e me toquei...

Foi assim que te cantei
e, num convite para sair, me achando o tal,
ordenei:

Leve toda luz de teus olhos
para iluminar a noite, acaso falte lua!
Não vá esquecer a flor no cabelo
para enfeitar a nossa pobre mesa de bar.

Quanto a mim, o que poderei levar?

Talvez a sombra fingida
de minhas poéticas tristezas,
algum espinho para, nos descuidos, ferir tuas pétalas
e, acaso não me esqueça,
o cartão de crédito para pagar as despesas.

Antigamente...


Com a severidade das macambiras,
o pai dizia:
¬ Já deu de comer aos porcos?

A gente pequena sabia:
com aquela autoridade não se brincava!
corria para o paiol e não saía de lá sem o milho debulhado
para o banquete dos porcos.

Naquele tempo era assim:
prestava-se mais à engorda dos bichos,
ao plantio do algodão e milho nos roçados,
ao semeio do capim vermelho
e tudo aquilo outro que prometesse uns quilos a mais
na balança do comprador.
Criança só prestava para o trabalho
em prol da obesidade dos bichos
garantindo a barganha
nos negócios do pai.

Naquele mundão de chapadas, de distâncias
de tantos caminhos de areia, ladeiras, pedras e voçorocas,
reparar os caburés nos tamburis era a pior das vagabundagens.
Sonhar era pecado mortal!

Nunca prestei àquele trabalho:
sempre que possível
fugia para as sombras das gameleiras
ou sentava-me ao pé das cercas dos currais
a reparar caburés.
Sonhei, confesso,
mas nunca pedi perdão por isso!

Quadrados, quinas, arestas e outras coisas paralisantes


Sei,
desde a órbita de meus olhos,
que a natureza tende a ser circular.
por isso não entendo
e sempre fico a perguntar:
por que, ao fabricar nosso habitat
fazemo-lo assim quadrado?

Faz algum tempo,
quando eu era ainda pequeno
e já conseguia andar,
vi, por entre pedras e capins,
um pequeno riacho em serpenteio.

Imagino que hão de me questionar:
mas ele era redondo?
Respondo já:
naquele tempo
disso também cheguei a duvidar,
mas meus olhos
ainda muito impúberes
mal sabiam reparar.
só quando segui o riacho,
transpus alguns obstáculos,
caminhei por ele abaixo
até vê-lo desaguar
numa pequena cascata
pude ver que as gotículas
tão transparentes e tão juntas
caindo pedras abaixo
eram redondas, pequenas,
que mesmo sentado numa pedra,
que se erguia à margem
podia sentir e ser tocado
por gotículas circulares.

Um dia, já bem mais tarde,
quando catava laranjas no pomar,
vi um ninho de pássaro.
curioso e travesso
resolvi ele espiar.
Vi que tinha três ovinhos
pequeninos, pintados
e quase totalmente redondos,
sem contar que aquele ninho
também tinha a mesma forma.

Vi estrelas e a lua
vi o sol se desmaiar
já no finalzinho das tardes
como um olho a dormitar;
não tive dúvidas de que eles
eram meio arredondados
qual horizonte distante
que se deita em imensa curva
lá no fundo da chapada.

Vi os troncos de aroeira,
vi o fruto do pereiro,
do tingui, da gabiroba,
as sementes da peroba,
vi a órbita das coisas,
vi a oca onde os índios
também dançavam em roda,
mas a casa da fazenda,
os piquetes, os mangueiros,
os currais e o terreiro
já eram todos quadrados.

Não creio que fora o homem
quem inventou a roda,
mas certamente foi ele
que prendeu-a, firme, num eixo!...

Depois disso
perdemos a essência de índios.
e assumimos a geometria das formas quadradas.


Engano

 

Sigo em frente:
vou devagar,
de vaga em vaga,
qual vagabundo
que não quer chegar.

Se encontrar um riacho
rio de nada
e deixo-me levar
pelas corredeiras
acima ou abaixo.

Acaso elas acabem
num vasto lago,
em largo campo,
nele me arranjo:
ponho-me a nadar.

Assim me faço:
caço um refresco
qual modo mesmo
de me enganar...
viver é fácil!

Limites

 

Faço tudo para ficar,
mas há algo me dizendo
que este não é meu lugar.

Faço um esforço medonho,
mas sinto meu corpo frágil
aos poucos fragmentar

Faço coisas que não quero
tentando me encontrar,
mas é nesse atalho que fico.

Fico para não cair
no abismo dos sentidos
onde a vida já não vale.

Velo um mundo ao meu redor
querendo ser mais que sou
esquecendo meus limites.

Menino rio

 

A mãe sempre dizia
aue aquele menino
nascera água

¬ É igual nascente
vive a jorrar pelos cantos
em fonte de pedrinhas azuis.

¬ Um dia ele vai crescer, mãe?
interrogava a irmã maior...
¬ quando ele for grande
vai virar rio ou mar?

¬ Não sei, filha,
respondia a mãe,
¬ miúdo assim,

não vai passar de riacho.

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