Da política

Rasa Razão


Já era noite
- hora do hush
quando a razão,
trafegando na contramão
da Avenida Episteme,
foi atropelada
por uma vã.

Vieram os jornais,
o rádio e a televisão.
tiraram fotos, fizeram anotações...

No dia seguinte
– pasmem! –
a manchete dizia
que a Filosofia
havia fechado a Razão
e que a vã, na contramão,
sob a direção da menor
CF, além de atropelar,
negara socorro à vítima.

Só esqueceram
de botar uma tarja
na placa de um banco
que existia do outro lado
e na foto, o que se lia,
era nada mais que

Impedimento

 

A noite, vista dessa estreita janela,
é escura, feia e sombria:
não há lua nem luz elétrica
e nas faixadas das casas, já sem brilho,
nenhum pálido lampião,
nenhuma fresta de janela
por onde passe, atrevida,
a claridade de uma lâmpada
mesmo que calma, mesmo que fria;
no céu até as estrelas
silenciam sua mudez
de luz quase apagada.

Dali uma multidão observa,
sobre as sombras obscuras dos muros,
que separam quintas e latifúndios,
ratos a caminharem calmamente,
talvez saídos de algum esgoto fétido,
para roubarem os sonhos dessa gente
num pesadelo não acordado,
que um dia, depois de outro dia,
com eles fez-se lodo, fez-se breu
e apagou o brilho cálido das estrelas.


Nunca mais!

 

Quando as cercas dos quintas
já não puderem mais conter nossos sonhos;

Quando o arame farpado rasgar a pele
nas vertentes desses latifúndios;

Quando asas plainarem sobre o mundo
num canto de liberdade;

Quando as retinas do réu, em paz,
ferirem as pupilas dos carrascos;

Quando centelhas de esperança
incendiarem as nossas almas...

Numa explosão inaudita ouvirás:
nunca, nunca mais!



Questões mercadológicas

 

Eu só queria vender
uma ideia fascinante:
um par de sandálias gregas
de couro de elefante;
uma ilha submersa
com uma cratera vulcânica
tendo, com vista pro Pacífico,
um maravilhoso mirante;
um país, cheio de gente,
embrulhado pra presente;
a magia de um discurso
de interesse evidente;
queria vender umas Minas
num estado interessante
onde a tal da liberdade
é algo que eu mesmo invento;
queria trocar um jumento
por um bebê dinossauro;
um velho de doze anos
por um novo de quinhentos.



Protestos

 

O sol nem sempre reclama,
os rios raramente protestam,
as montanhas não choram,
os esgotos, às vezes fedem.

Os oceanos se revoltam vez em quando,
a brisa brada em vendavais
e no furor de chuvas torrenciais
as geleiras do ártico derretem...

Nem sempre as palavras agridem,
verbos raramente atiram
na cara de predicados fétidos
sua estupidez de rima.



Rimbaudiano

 

Passava distraído pela praça
onde a liberdade outrora fora sonho
quando me detive a reparar
um típico intelectual.

Sentado à sombra, num banco,
tinha um adesivo azul e amarelo
harmoniosamente colocado
do lado esquerdo do peito.

Reparava com ar interrogativo
operários ao sol daquela tarde
montando um gigantesco palco.

Pernas cuidadosamente sobrepostas
e sobre elas um poodle branco
denunciando seu teor e seu quilate.



Titanic

 

Sentado confortavelmente
ao sol matinal da varanda
pensava nas economias
enquanto lia, distraidamente,
um livro de Dostoiévski.

É quando chega o netinho,
transbordo de energia,
e o convida a brincar:
mas o avô, ar pouco, cansado,
recusa-se a aceitar.

- Você sabe muito bem:
não temos brinquedos em casa,
responde o velho ao neto
que propõe vivaz:
- vamos fazer um Titanic!

- Acabaram minhas folhas, diz o velho,
mas, por trás da miopia,
pensa no papel que escondera
à porfia e ao revés
do abuso dos pincéis.

Corre o menino ao terreiro
para pedir socorro à avó;
sabe que ela, mesmo só,
é por duas vezes mãe:
mais que pai, mais que avô.

Ela então lhe oferece
um velho livro de histórias
que, já roído por traças,
havia ali separado
para em breve jogar fora.

Em pouco tempo o menino
estende inocente ao avô
uma folha amarelada
contendo um mapa do mundo,
com a Europa e suas colônias.

Depois de muito insistir
resolve o velho sentar-se
numa mesa e, trêmulo, dobrar
aquele velho papel
dando-lhe a forma de barco.

Já no quintal o netinho
logo providencia um balde
e o enche a transbordar
colocando a navegar
o seu novo Titanic.

Em pouco tempo o papel
encharcado se naufraga:
perde a forma e o equilíbrio
decepcionando o menino
que implorara outro barco.

Mas frente à inércia do avô
resolve que será melhor
pendurá-lo a secar
num varal que ali havia
pra tão pouca utilidade...

O menino vai embora
deixando esquecido seu barco
ao abandono do quintal.
só à tardinha, o avô,
recolhe dali seu papel.

No afã de recuperá-lo
descobre a inutilidade
daquela velha e rota página
cujas legendas, borradas,
já não podiam ser lidas.

À noite, em sonho, o avô,
perdido num mar imenso,
cheio de barcos pequenos,
vê naufragado seu neto
a implorar por socorro.

Se navegar é preciso,
urge rever nossa história
e os mapas geográficos:
a bordo de Titanics
o mundo gira à deriva.



Outubros

 

Um pardal trágico
apanha o gramofone da manhã
e berra impropriedades
em meus ouvidos de aluguel.

Chuto o berço esplêndido e tento acordar outro dia.

Raios de sol trôpegos
rasgam a janela do quarto
e caem fúlgidos pelo chão
de minha pátria outrora amada.

Jogo os restos na lixeira para não rasgar meu título de eleitor.

Nuvens acinzentam o céu
para o espetáculo de outras cores
esquecendo na gaveta da aurora
sua propriedade de fronteiras.

Aperto a descarga e volto a dormir meu sono diurno.



Vigília

 

Na madrugada morna
acordo meus sentidos,
ligo atentos ouvidos
e ouço soprar sons sutis
de toda ordem.

A horda é torta
qual morte escancarada:
bate à nossa entrada
com armas a rugir, hostis,
gritando: calem-se!!!

Esse país tão grande
de gente tão pequena,
de fardas e continências,
de insolentes poderes
e poucos ouvidos atentos.

Noites insones, apreensivas:
sob a vigília de drones,
Ness Zione, calabouços,
cemitérios clandestinos
e tantos destinos incertos.



Não, Vale!

 

Eu não devia,
eu não queria:
sequer tenho direito
de fazer poesia
e de rimar vidas
com rio.

Nessa avalanche de palavras,
embotada de lama e veneno,
estende-se o manto pardo
pobre o cristal Doce
onde as vidas, mínimo detalhe,
não suplantam o vil metal.

Lamento, lamento muito!
essa rima fede,
esse valor não Vale
a História daquele
que te batizou
e que já fora, outrora,
pai de outras rimas:
doces, cristalinas.



Veja, só!

 

Um alce
ou um bisão,
ao olhar do leão,
é banquete.

Uma capivara
tem lá suas esquisitices:
parece um porco
e, em muitos,
desperta o apetite.

Um bando de macacos
é só expertise:
ágeis e curiosos
chamam a atenção
de todos.

Mas Veja,
Essa grande anta
¬ não o animal! ¬
é um bicho que não se explica:
produz estranhos ruídos
e no fim de tudo
pensa que se comunica...

Doe(i)* saber:
o quê?
para quem?

Vai entender esse bicho!

(*) John Doe é o mesmo que fulano, um desconhecido qualquer.



Meu juízo

 

Reuni os melhores ingredientes
na medida justa de cada coisa
segui todo rigor dos pressupostos
misturei, uma a uma, as suas partes
homogeneizando cuidadosamente a massa.

Assim fiz, com todo rigor recomendado,
aquela deliciosa torta
com a intenção e a proposta
de agradar ao paladar
de meus nobres convidados.

Botei a coisa na geladeira
¬ o que é conveniente às tortas ¬
esperei findar a comilança do banquete
mas quando fui servi-la
notei, em desconserto
que ela jazia ali, fria e petrificada.

Embora todas as medidas pareçam justas
e a receita convincentemente formulada
nem sempre podemos garantir
¬ no final dos banquetes ¬
o sucesso de uma boa sobremesa.



Calem-se!

 

Quisera gritar protestos
contra tudo nesse mundo,
mas um embargo infringente
fez-me prisioneiro mudo
nos estreitos de uma concha
e, às margens de mar ou rio,
minhas convicções apressadas
arrastaram-se, vencidas,
pela gosma de meus pântanos.

Fora um número qualquer,
um simples registro em cartório
e nas estatísticas
não passei de margem:
erros prováveis
descartados no rol das variáveis.

Agora esquecido
nem risco, nem gráfico,
nem número estatístico:
sou apenas embargo,
voz calada, mudez de conchas
sem areia, sem rio...
sem mar.



Soneto alado

 

Além das arenas e dos estádios
reinventamos caçadores de dragões:
fiéis servidores em seus ofícios
no fazer passivo e na cega servidão.

Como iscas semeiam omissões, mentiras
no vale dos jornais e da televisão
onde as ralés das redes e dos achismos
em bandos vão tangendo a multidão.

Quando pisarem o animal sacrificado
e tiverem seus retratos publicados
irão brindar sobre as feridas da nação.

E só depois, ao se retirar os caçadores,
hão de ver, em alguma página os refletores
a desvelar seu próprio sopro de dragões.



Duvidar

 

Nunca soube:
se é pastado
ou se pasta,
se é curvo
ou encurvado,
se é rapina
ou rapa-tacho,
se é senador
ou sina e dor,
se é serra
ou serrador,
se é muito,
pouco ou nada,
se é palhaço
ou palhoça,
se falta caráter
ou cabelo,
se é espectro
ou espectador,
se é entreguista
ou entregue,
se é mentecapto
ou mente e capta,
se é pastel
ou pastel mesmo.



A propósito de...

 

Tem gente com tanta luz
capaz de ofuscar talentos,
tem gente que aparenta
mas carece de essência,
tem aquele que se esconde
para nunca ser notado,
tem bobo que se apresenta
como douto ou deputado,
tem gente que se faz de besta
sendo muito inteligente,
tem gente que se faz de sábia
sendo um pouco ou muito rasa,
tem gente que parece mansa
mas por pouco fica brava,
tem gente que parece brava
mas não passa de covarde,
tem gente que é mesmo gente
e tem quem nunca será,
tem paletó e gravata
enfeitando carcará.

Tem operário,
pedreiro,
tem servente
e secretária,
auxiliar de escritório,
escrevente,
e escriturário,
tem acadêmico
e tem técnico,
tem docente,
e tem discente,
indecentes,
recatados.

Tem falso profeta
e discípulo,
tem gente sem faculdade,
advogado de título,
tem médico,
tem senador
e tem também magistrado,
tem poeta,
tem artista,
tem gente com doutorado
¬ bacharel falsificado ¬
tem palhaçada no circo
na câmara e no senado,
tem caminho,
tem estrada,
tem trilha
e também atalhos.

Tem gramática,
enciclopédia,
tem pilha de dicionários,
tem também palavra escrita
que até parece colada,
ideia que faz sentido
e aquela que nada diz,
tem cara de pau e de pedra,
tem muita cor de verniz,
tem verdade de palhaço
que justifica o nariz,
tem gente de toda laia
tem escorpião, tem lacraia,
tem lobo, vespa e zangão,
tem pastor e tem ovelha,
boi em pasto e matadouro,
tem até bicho de pé
e tem carrapato
que não desgruda da gente...

Tem lucidez
e demência,
tem merda
que se apresenta
com ar de aristocracia,
tem corruptor,
tem corrupto,
tem os dois na mesma cia,
tem merece
e merecer,
quem não é
nem pode ser
coisa que nunca foi dita
e que acabo de dizer.



Efêmeros trópicos... 

(além do olhar de Lévi-Strauss)


Dizem que montanhas choram,
que o vento uiva,
que cachoeiras cantam,
que telhados assobiam,
que bambuzais gemem
e que são nobres as saúvas.

Por esse alento
espero que flores brotem,
com toda promessa de frutos,
dessa absurda tempestade:
mesmo que, embora belas,
sejam elas, como sempre,
tão tropicais e efêmeras.



Coisificância 

(Aualquer coincidência é mera)


Uma pedra navegante
adiciona uma rocha mansa
no perfil do Facebook
e a mutamba, seca e áspera,
bloqueia, sem motivo algum,
o inconveniente carcará.

Na complexidade das redes
pacientemente trançadas
por preguiçosos riachos,
um caititu deixava rastos
curtindo os posts macabros
de soberbos urubus.

Um escaravelho besouroso
achando tudo monótono
fez morada sob a pedra,
mas em heppy hour de algum tronco
encontrava-se com a amante,
recatada mariposa.

Mas eis que um temporal
debruçado sobre o campo
arrastou besouro e amante,
arrancou pedras e troncos,
varreu dos altos rochedos
urubus e carcarás.

Só restou, ainda que manca,
uma rocha e seu barranco
que de toda enxurrada
guardou esparsas lembranças
e, cravado em suas entranhas,
o velho pé de mutamba.



Fosso filosófico

 

Pedras, cascalhos, pedreiras,
caminho áspero, escorregos,
espinhos na pele, arremedos,
clamor de desassossego
que aqui dentro grita
por socorro e, num apelo,
pede perdão pelo que não fez.

Territórios mínimos,
frágeis e indivisíveis fronteiras,
púrpura trincheira,
sobre a qual se trava a luta.

Seu fosso cava o passado,
suas barricadas são memórias
e sobre seu ponto mais alto,
quando a noite é vinda,
aves noturnas, minervas,
observam os monstros-ratos,
que em suas obscuras cavernas,
qual vermes devoram,
vidas e memórias.



De hoje! E nem...

 

¬ Abrem-se as cortinas!
¬Cortinas existem?

¬ Caem as máscaras!
¬ Que máscaras?

¬ Gritam os loucos!
¬ Quem são os loucos?

¬ Atiram-se pedras!
¬ Que pedras?

¬ Rasgam-se as roupas!
¬ Que roupas?... O rei está nu!

¬ O rei está nu?

¬ Éh, o rei está nu!...



IraDo

 

Rumino sobre a sombra do desprezo
insossas monotonias da cidade:
abdico do que nela há de pudores,
rasgo e lanço ao vento estas palavras.

Não creio nos indubitáveis signos
pois neles nunca consegui ser brisa,
muito menos muro de concreto...
Cético, nego o teto que me abriga!

Já farto desse doce açúcar
vomito estupidez pela cidade!
Não há grades de aço, não há portas
que possam aprisionar a minha fúria.

Quero chão para meus desequilíbrios!
Não preciso ostentar nenhum bandido
¬ nem a mim mesmo! ¬
mas quando o chão me escapa
na beira desse abismo
grito e faço eco descabido,
desnudo a cidade e as palavras...
subtraio dos signos os seus sentidos.



Desmedida

 

Neste universo de palavras curtas,
mirradas,
¬ signos incompreendidos ¬
nesse jeito novo de dizer
por meio de migalhas,
rearranjos sem palavras,
gestos sem estilo
e versos mal rimados.

Nesses murais de frases curtas,
sem nexo,
colhidas na rede, qual descuido
de tartaruga que flutua
nas enseadas dos mares...
esse excesso de fagulhas
de tão pouca claridade.

Na rede eu me desarranjo
todo torto:
no emaranhado das palavras,
nas curvas confusas da escrita,
na informação desmensurada,
nas muitas páginas não lidas,
ao som de primordial apelo.



Penso, logo desisto

 

Em que estou pensando?

Em nada!
pensar dói
e de dor
transbordo.

Prefiro
navegar na rede
e no ócio do comando
individual do navio,
pescar imagens
slogans,
fotografias grotescas
para justificar meu juízo
sobre tudo que acontece.

Prefiro assim,
ter de sobra
opiniões sobre tudo
e em textos
econômicos
comentar, julgar
fazer valer
minha ira sobre os outros.

Que seria de Zola,
muito mais do que Dreyfus,
de caísse a inocentar
qualquer réu
já condenado?

Ainda acho “bacana”
a Revolução Francesa,
ainda banco de herói
e afirmo ter certeza
de que o outro é culpado.

Releiam o que escrevi,
façam já o seu juízo:
curtam, compartilhem,
reúnam já seus amigos!
Vamos sair por aí
a jogar bosta na Geni!



Templos modernos


Querem que sejamos eternamente bois por isso nos ferroam e nos confinam...

Queremos ser cavaleiros!

Por que só alguns podem montar?

O estouro da bomba
o fogo incendiando os corações dessa gente jovem:
almas inquietas à busca de sentido pra viver.

Mundo sem lógica
cultos estranhos
templos de shoppings, de deuses insaciáveis
exigindo o sacrifício de milhões.

Confusa veneração,
cultura de massa,
mídias que apelam à passividade de rebanhos,
batismo de submissão ao consumo.

Anjos rebeldes
bíblicos instrumentos
de oração em tempo real, dessa adoração ao capital
desse basta! já estou cansado!

Prefiro a invisibilidade dos anjos caídos!



Desalentos!

 

Queria cantar um canto assim.
Ter a coragem de morrer por uma causa justa.
Sei que poderia incluir o nome de muitos facínoras e canalhas
na lista daqueles que assassinaram nosso maior sonho:
o de sermos livres e viver em paz.

Meu amor,
perdoe a minha fraqueza e meus medos.
perdi o encanto, você bem sabe:
meu próprio corpo já não nega o desalento...

Estou cansado de procurar a paz que nunca encontro!



Liberdade, óh Minas!


O que é a liberdade?
ainda que tardia?
ainda que breve?

Liberdade, óh Minas!
é o direito de dizer
o que não está direito
a quem é pago para ouvir.

Liberdade não existe
onde reina o silêncio
porque mudo
ninguém tem paz!
tem conformismo
e dor.

Por isso, meu amor,
quando a bala dilacerar tua carne frágil
e teus olhos vermelhos já não puderem ver
a branca nuvem de gás...

Quando já não sentires mais
a força de tua luta
saiba que morre contigo toda uma nação
e no meu coração,
já sem calor,
morrerei também de tua dor
sem ver a paz que buscamos juntos.



Palco


Deste mundo de espetáculos
temo as máscaras, temo as luzes,
e as sombras atrás dos palcos;
temo as farsas dos palhaços
e aquelas, nas quais disfarço,
em plágio, à sombra do outro,
ao adorar, nas estátuas,
falsos bezerros de ouro.

Não temo aquilo que falo,
o que creio ou o que faço,
pois sei que cada pedaço,
cada minúsculo átomo
das coisas que me rodeiam
são, do universo, apenas parte:
não há pois nenhum filósofo
que negligencie este fato.

Só após cair o pano,
no foyer, nos cumprimentos,
vês que lhe furtara, em engano,
os aparentes sentidos:
desconfiar, por princípio,
do tal do senso comum
pode poupar-nos o vexame
de alguns falsos juízos.

Se tudo aquilo que falo
tornar-se por vezes alvo
de algum juízo ou crítica
não ficarei chateado
nem um tanto aborrecido,
porque também faço parte
daquele já referido
senso comum populacho.



Justificativas

 

A noite era apenas pretexto
de luz, de estrelas e de sóis,
que no colo dourado da aurora
gestavam as cores de outro dia.

Um pássaro voava leve
sobre o leito prata do rio
enquanto a brisa fresca embalava
uma canoa e solitário guia.

Homens de si esquecidos,
juntos, alheios e às sós,
em aviões rebrilhavam ao sol.

E o poeta, sem pressa ou apego,
banhado pelas cores de arrebol,
versejava à mudez de sua voz.



Corpóreo


O meu avesso
é o verso que escrevo
quando o lado de fora
grita, implora
flores de primavera
e só obtém, por resposta,
triste solidão de grotas.

Reviro-me por dentro
e só encontro
resquícios de velhos tempos
em que, mesmo sozinho,
mesmo longe desta gente
tinha sempre por perto
certo e seguro alento.

Sou sim esse deserto,
esse grito que não se escuta:
martelo, rabisco à margem,
escrevo para um leitor que desconheço,
mas que fala fora de mim
tudo que no seu avesso
é sentido por dentro.



Lugar de menino

 

Menino, saia daí!
depois que inventaram a máquina,
menino,
ela roubou teu lugar!

Crê, menino,
que o mundo é teu?
engana-te!

O mundo, menino,
é esse absurdo
que te cobre de coisas
sem sentido,
vomitadas pelas máquinas do mundo.

Queres te salvar, menino!
então, saía daí!



Lições

 

A velha subia a ladeira,
ladeira velha,
velha lavadeira
levando sonhos
de roupas limpas
ainda úmidas.

Ela entrevia
que o menino atrás de si
molhava de ternura
a rota blusa
de tergal.

Ela sabia,
pela escola de mãe
e de vó,
que o menino haveria
de aprender
que é pra frente
que se anda.



Avesso

 

O manto da tarde
é cinza, triste e frio:
sugere cobertor,
abraços e arrepios.

O tédio invade
meu humilde escritório
e traz saudade e dor;
sal de mar, água de rio.

Ainda assim, não reclamo:
ao mar enxugo,
aqueço o frio.

Quanto ao rio
nada pergunto:
nele entornarei meu pranto.



Apelo

 

Dispa-me,
liberte-me dessa roupagem tosca
de ridículo colorido.

Retire essas horríveis cintas
que me abraçam colantes, pegajosas.

Espie-me, longamente
e tente decifrar meus signos
não antes de me livrar de tudo isso
e postar os restos numa lata de lixo.

Mais tarde,
quando sentir-se preparada,
sente-se confortavelmente no sofá,
acaricie minha pele lisa e colorida,
sinta-me o cheiro
invada-me o corpo inteiro.

À noite, sem culpa e sem pecado,
leia-me!



Pertinência

 

Que sou, senão eu mesmo!
alguma coisa quase espectral:
informe,
incolor,
insossa
e inodora!

Sou dor
fora de mim!
amor
em desafeto;
sou embrião
sem feto,
relento!

Do convento, a paz,
o nada e seu movimento.

Sou lento como a brisa
que vibra no veludo liso
de tua pele e, leve,
faz dançar
um fino fio de teu cabelo.



Fins

 

Marcas na areia molhada:
risco, traço, onda, rasto
ritmo, compasso
ee pés descalços
dêbados e inconstantes
de algum andante.

O homem deixa marcas
por todo lagar onde passa:
um meio,
indício de destinos,
buscando no escuro incerto
inalcançável fim.



Eugênico

 

Aos filhos de Nina Rodrigues

Não sei se foi por amor,
por ciúmes ou dissabores;
se por falta de afeto,
por um ninho ou por um teto
o certo é que vi,
segunda pela manhã,
os dois a brigar
na calçada à minha frente.

Não tinham armas
¬ nem sangue havia! ¬
sequer percebi hematomas,
não escutei palavrões
ou gestos mal educados,
mas vi que ao findar a briga,
bem ao contrário dos homens,
cada um foi pro seu lado
talvez à busca de um amor
ou do mel de alguma flor.

Não sei se Nina Rodrigues,
na sua ciência eugenista,
aceito o ponto de vista,
afeito ao pilar do empírico
teria mudado ao propor,
na conclusão de sua tese,
que é o homem, não o beija-flor,
o tal animal superior.


Leveza

 

Banhado pelo frescor dos ipês
que ornam a Bernardo Monteiro
um ousado sabiá,
alheio ao reboliço da feira,
cantava lindamente
e ninguém o percebia.

Até que um poeta,
a caminho do trabalho,
ao ouvir aquela música
despe o peso da semana
e veste de leveza
aquela sexta-feira.



Saudação

 

Ave! Ave!...
àvé!

Ave que canta e encanta
outros ouvidos que se dobram
Aos sons suaves
de seu divino canto!

Ave que, mansa,
pousa elegante
no quintal da casa
De um poeta que anda,
mas não voa,
ouve,
mas não canta.



Eu, rio

 

Nasceste pequeno,
transparente, esperto,
descendo as encostas
por campos e relvas...

Quiseste ribeiras
ribeirões e rios,
por fim, já desperto,
procuraste o mar...

Viveste nas eras
quase eternidade,
nesse ir e vir
de louca deriva.

Às vezes pergunto
ao imponderável:
acaso entre nós
ecoa um riacho?



Cuidar

 

Sabia-se flor
pelo perfume e delicadeza.

Enfeitava ramos
caules e espinhos.

Trazia um pequenino
a quem dera colo
oferecendo, a seu lado,
o assento.

Contara um sonho
tão perfeito
capaz até de sonhar
outros tantos sonhos
igualmente primorosos.

Alguns meses mais tarde,
envolta em pétalas,
viu-se que trazia,
ao colo,
uma menina.



Chuva de agosto

 

Chuva mansa,
chuva fina,
gotas macias caindo
nas folhas de meu quintal
é canção na madrugada
e uma vontade de dormir
mais que o tempo da agenda.


Devir


Embora só
o menino era muito:
muito mais que macambiras,
mais até que vassourinha
ou casa de marimbondos...
era uma solidão de trilhas,
quase essência de chapadas,
sumiço de voçorocas,
um pouquinho ausência
de mar em sequidão de grotas...

Sonhos, apenas sonhos:
uma espécie de vazio
no oco ranger do vento,
assobio medonho
nas moitas do bambual.

Até que uma voz, lá dentro,
remexendo mar sonhado
colocou o mundo num bornal
e, cheio de coragem,
lançou na vastidão do mundo
aquele pobre menino.



Ignorância


Uma formiga, um caracol,
um fio de água em riacho
serpenteando entre barrancos e pedras
uma pequena queda
em ensaio de cascata,
o assoviar do vento
nas folhas secas das matas
inverno, céus, rumo incerto
e o sentido de viver
sem saber de nada.



Crono(in)lógico

 

Embora quinta
o dia começou sonho:
sair mais cedo,
almoçar no mercado
saboreando uma Original.

Subir preguiçosamente a Bias Fortes
e nela ver um pouco dos serrados
em ressequidos galhos;
mais acima,
onde a liberdade outrora fora,
ver os ipês com suas flores rosa
desafiando o machismo azul do céu.

Na Major,
que me fez lembrar um primo
¬ que é Lopes, mas não Major ¬
ouvi os sons Maristas
de um piano mal tocado,
em marcha lenta
¬ até descompassada ¬
e quase confessional.

Logo à frente,
o inesperado primeiro lugar
no segundo título
de gestão de pessoas.

Depois disso só a alegria
no percurso para o trabalho,
com direito a um e cinquenta do bombom
para ajudar a moça a se casar...

Um dia pode ser muitas coisas
além das vinte e quatro horas
desse tempo cronológico.



Viajante

 

A Mia Couto pelo chão que me sobra

Deitado sobre a terra
esse mundo espreita
a mais estreita janela:
pequena fresta aberta
ao imponderável

A lua zomba estrelas
mas são elas que brilham
¬ mesmo em mínimo fulgor ¬
sobre o que sobrou de outras
tantas noites sem luar

Os rios cantam cascatas
e para o mar se desmancham,
mas nunca conjecturam
sobre areias, sobre o sal,
sobre a deriva dos ventos



Coisas mínimas

 

A palavra escorregava
pelo extenso lajeado
e o menino iluminado:
adjetivava gravetos
inventava predicados
verbos e substantivos
e, cheio de preposições,
numa oração de fim de tarde,
conjugava seus brinquedos
numa imensa interjeição:

Obá!



À margem do beija-flor tinha uma pedra

 

Pedras choravam caminhos
e ninguém percebia ainda
que ali à margem havia
pequeno pé de vassourinha
onde um beija-flor fez um ninho.

No meio da mutamba
havia um doce efêmero
e na aspereza da pedra
um menino, sem margem,
distraiu-se pelo centro.

O beija-flor beijou a pedra,
ignorou flor de mutamba
¬ talvez por ser tão pequena! ¬
e teve pena do centro
onde a pedra fez caminho.

O menino distraído
tropeçou, sem ter caído,
e viu, no pé de vassourinha,
o beija-flor em seu canto,
qual uma pedra no centro.



Paço

 

Ao poeta e prosador Ariano Suassuna

No terreiro da palhoça
o menino anda descalço,
chapinha em alguma poça,
canta, dança e, no espaço,
com invisíveis compassos
risca mundos, arma laços...

Atira pedras num pássaro
e com graciosos passos,
nos salões de seu palácio,
rodopia em linda valsa
pensando que o mundo não passa
de um brincar de faz-de-conta.



Refletindo

 

Tive uma velha tia
que se evaporou:
não sei se era uma poça,
se sempre estava na fossa
ou lá no fundo do poço.

Um sapo morava
dentro de um barril:
olhava por cima e nada via
só quando a noite vinha
eu ouvia um apertado,
oco e distante coaxar.

Um gavião fez seu ninho
numa árvore cheia de espinhos:
quando nascido os filhotes
piavam a noite inteirinha
e eu pensava que sentiam
o desconforto do ninho.

Um dia acordei crescido
e muito desconfiado:
pensei que tias não evaporam,
que sapos não se abrigam em barris
e que gaviões só piam
porque não sabem cantar.



Ser-em-si bemol

 

Não queria arrastar assim,
às sombras do corretor,
numa escorregada ou outra,
mas o fez de propósito
¬ depois confessou ¬
para um leitor que não lê,
raramente escreve
mas aponta o dedo e justifica:
¬ olha só!... e se diz poeta!

Mergulhar fundo demais
provoca um efeito estranho,
feito coágulo ou embolia,
quando o lapso desmemoriado
acorda, ao arfar de pesadelos,
um fugaz espanto.



Impessoal

 

Via-se uma só saída:
estreito caminho,
secos açudes,
fruto da mutamba
cujo néctar encolheu
num doce suave
e sentimento áspero.

Bia era uma moça viçosa:
hoje é só filamento,
sombra pequena e lenta
que se aquietou
nas mornas tardes
de chapadas vastas,
de ar pouco e vácuo.

Ele se perdeu na rima:
fora um dia poeta,
mas os sentidos,
sem que percebesse,
deitaram-lhe, aos olhos,
areia mínima
de açude seco e raso.

Esqueceu o outono
que no fresco das manhãs
traz lento o inverno,
consome folhas secas,
apaga miúdas sombras
e assombra poetas,
areias, açudes e Bias.



Serenata

 

Ao grande poeta Manoel Bandeira

 

Uma curva de rio
dormia em seu leito de pedras
sua doce calmaria
até que um sapo
¬ ou teria sido uma jia? ¬
bem debaixo da janela
num coaxar quase poético
resolveu lhe declarar
sua saudade de lua:

Oh!

lua!

lu!

ah!

lu!

ah!...

luar!...



Sob o céu da Bernardo Monteiro

 

Árvores nuas com seus longos galhos
estendidos ao azul líquido do céu
barracas coloridas brilhando ao sol do meio-dia
um bem-te-vi a saltitar à busca de verde
e lá no alto, a balançar
¬ corda bamba entre dois galhos ¬
um filamento de linha
lembrando ausentes papagaios
e a leveza de menino
a correr contra o vento.



Depois...

A Roland Barthes


Às vezes consigo escrever o antes:
as reminiscências, os acalentos...

O depois é só o silêncio do sentir
que ainda não tenho coragem de escrever:
falta-me aquela sangria da palavra não dita;
vazante para romper, nas tempestades,
as brutas enxurradas de ausência,
qual açudes secos que transbordam seus vazios.

Ainda vejo no branco da parede
o retrato que já não está lá
como um lençol que balançava no varal
antes que alguém o recolhesse
à fria brisa da tarde.

Tenho comigo essa presença tênue
que traz na memória a calma de um amor reprimido
fugindo pelos atalhos dos campos
em busca de trabalho nunca findo.

A escrita é só uma forma
de trazer de volta a parede branca,
o retrato pendurado
e um lençol a balançar no varal.

Espero, quem sabe um dia,
poder entornar nas grotas as palavras ausentes,
encher de sentido os açudes secos
numa vazante de grito sem eco.

Nada me nega a palavra
enquanto o antes balança no varal,
mas o vazio do depois
ainda foge na tênue luz de fins de tardes
numa ausência vaga de lençóis já recolhidos.



Memórias vagas

 

A palavra me rouba o instante
quando o ônibus balança
e quebra a ponta do lápis.

Transeuntes me roubam o olhar
quando, ao virar a esquina,
paro a reparar a tarde.

Um pássaro pousa ao meu lado
ignorando a importância
das folhas brancas de meu diário.

Lanço uma folha ao vento
esperando que ela volte
com a epígrafe de um romance.

As folhas marrons no asfalto
refletem, qual uma miragem,
os meus cabelos já brancos.

Abro um livro muito antigo
e dele leio um capítulo
como se nunca o tivesse lido.

Meu branco lençol no varal
deixa passar a luz do sol
por entre as linhas do tecido.



Breves


Entre o meio-fio e o asfalto
óh delicadeza
uma flor

Regá-la, que gesto,
colhê-la, que dó
óh flor

...

Na beira da estrada
jogado ali
um pássaro morto

...

Cai a tarde:
a chuva lembra
um acalento

...

Chão estéreo de agosto
óh uma flor
insetos
...

Luz difusa
rasga o kanion
óh Lua

...

Noite morna,
brilho de lua,
pio de coruja.

...

Crepúsculo
canto de seriema
rósea lua nascendo

Boas tardes
disse o homem sem dentes
descalço

...

Pé de serras
pio de coruja
brisa de inverno

...

O sol risca o muro
garrinchas piam na horta
óh, triste frio

...

Tinha olhos verdes
mas as folhas eram secas
e a tarde fria

...

Tarde morna
rolinhas pousadas num fio
quietude.

...

O vento dança
numa folha seca
nova estação

...

Um canto longe
cai feito pedra
dentro da noite.

...

A menina olha
nuvens distantes
sentimentos íntimos

...

Um gato se lambe
sobre a luz do sol
frescor de outono

...

No azul fundo
voa um pássaro
e o olhar se perde

...

Tinha a leveza de pluma
e um olhar de lua
nascida

...

O fio rompido
marcava o passo
no frio inverno.




Mergulho

 

Os olhos dela
qual folha de lírio
tinham o verde de vitral
e a distância de um amor
ausente.

Fingi não perceber
a solidão de uma lágrima
que daquela face muda
caíra funda nos lábios:
amargo sal.



Previsões

 

Os meus primitivos instintos
quase nunca falham:
o calor, as formigas ocupadas,
o brilho das folhas de lírios
e o canto de um passarinho
¬ ensaio em preto e branco ¬
eram sinais claros
de noite fresca e chuvosa.

Às vezes esqueço as chapadas
e tento cultivar no asfalto
alguma esperança de rio.



Naturalmente

 

O verde não sabe de si:
no espelho da natureza
não há imagem prévia.
acaso a flor convida insetos
para sua festa de pólen em cio?

Aprecio a vida
pelo que ela me doa
sem cobrar nada!



Lençóis

 

Folheio a vida
como se lê um livro:
cada dia é uma página virada
acrescentando mais um fio
no emaranhado da memória.

Assim vou tecendo
os caminhos que trilho
e que me levam a escolher,
entre as páginas lidas,
os livros que folheio,
amores e amizades que tenho
e um jeito especial de estender
os meus lençóis no varal.



Armadilha

 

Numa curva qualquer
de um caminho incerto
andava desatento, olhando as pedras,
colhendo flores e pétalas,
quando, num espanto desmedido,
fui colhido, frágil e desarmado,
pelo laço de teu lindo olhar.

Depois daquele dia,
mesmo fugindo pelos atalhos da escrita,
mesmo buscando caminhos desertos
sem flores, sem horizontes de pétalas,
mesmo perdido no desassossego,
frágil, vencido e cansado,
nunca mais me libertei
das amarras de teu laço.



Recuos

 

Invento um verso,
arrisco um passo
mas na ribanceira
não piso em falso.

Esqueço o cálculo
mas na hora do salto
recuo medroso,
fujo do abismo.



Evanescente

 

Brisa breve que sopra tua pele
e faz vibrar os fios de teus cabelos;
brisa que valsa no azul cristalino
em roupagem de nuvens brancas
e, em voo de pássaros,
esvanecem na transparência
deste céu de outono.

Óh brisa leve e fresca
que toca tua pele lisa
e sopra nuvens errantes!...
em instantes de beleza plena
e de espetáculo efêmero
ressumbras desta evanescência
toda fugacidade do eterno.



Releituras


Na cobra de vidro que enroscava
a nossa casa de menino
saltei em mergulho e nadei
antes que alguém me convencesse
que ela era uma enseada
e algum esgoto fétido
turvasse sua pele prata.

Descendo e subindo ladeiras
só vi pedras nas laterais
e, por cima delas, sem muito reclame,
sentava-me, quando doíam as pernas
contemplando a mãe das pedras
que a gente chamava pedreira
onde à sombra me deitava
sob o pé da gameleira.

Numa planície relvada
vi caído, morto, um soldado:
colhi um ramo de flores
e coloquei-lhe sobre o peito;
plantei uma ramo de rosas
no buraco de seu lado esquerdo
e antes de me despedir
dei-lhe um terno e longo beijo.

Pelos becos da Goiás Velho
viajei nos sonhos lindos
de uma menina feia
e nos serões eu me cansei
de esperar uma fatia
do bolo feito em panela
que só descia do alto
do armário inacessível
para a vovó e suas visitas.

Numa manhã, em lote ao lado,
vi um bicho revirando o lixo:
fiquei triste e me afetei tanto
que fiz servir do cardápio
a mais fina refeição
e levei para o bicho visto
que não era rato, nem gato ou cão,
mas, ao que se sabe, era um homem.

Finda a vida, o que resta?
A porta só existe para ser fechada!
Que bom seria se ela ficasse
como um beco com entrada e saída
sem chave e sem taramela
sempre escancarada pra vida!

Um redemoinho pequeno
dançou no terreiro do destino
e a menina, sobre a ponta dos pés,
quisera ser, quem sabe um dia,
uma famosa bailarina,
mas o tempo consumiu seus sonhos
e ela nunca mais dançou
penando os secos caminhos
sobre os calos da vida.

Eu que não sou atleta
nadei e fiz muita festa
nos rios de outros poetas,
mas não decifrei o texto
do vidro do restaurante
nem reconheci nele
minha tênue e baça imagem.



Metades


Os dois ali:
um de lá
outro de cá;
no meio
o rio,
pequena ilha
e uma flor.

Os dois,
tão só:
braços,
abraços
de ilha,
de flor
e de rio.

O céu,
tão fundo:
de véu
de estrelas;
de vão,
vazio;
de lua
cheia...

Silêncio
de noite
pedindo
enlace.



Encontros


O poeta anda tonto
de tanto bebericar
nos encantos da cidade
e assim, de andar bambo,
vive sempre a tropeçar
nos pombos e nas calçadas,
entornando no asfalto
fragmentos de palavras.

Eu que não sou poeta
deito meu olhar ao chão
catando, aqui e acolá,
algumas palavras caídas,
mas só muito raramente
vejo traído um olhar
e dele bebo os encantos
refletidos nas calçadas.



Basta


Um canto me acordou sumido
e no açoite da noite
pensei ter entendido:
que o rio corria para cima
que a cachoeira descantava
qual passarinho escondendo em seu ventre
todo o assobio do vento.

Afaste do rio essa solidão de barco!

Basta-lhe o olhar do pescador
procurando, no embalo de seu corpo
nas curvas e nos movimentos
todo mistério escondido em seus segredos.

Basta-lhe a espera do brilho do dourado
em salto sobre a roupagem azul
a escapar-lhe do tecido em despudor
revelando o sublime de sua intimidade.

Basta-lhe o roçar suave do pássaro
de delicadas asas a lhe acariciar
úmida face ¬ espelho d´água ¬
ternura de encontro entre a terra e o ar.

Basta-lhe refletir o azul do céu
ser espelho de estrelas vaidosas
salão onde a lua baila em noites belas
ao som da brisa e balançar de ondas.

Basta-lhe a alegria das pequenas índias
que em suas águas mergulham
e se entregam, cheias de fé e amor,
a seu toque, suas peles, suas flores.

Por favor,
afaste do rio essa solidão de barco!


Sobras

 

Nada me interessa agora
se no cômputo das horas
o meu crédito se esgotou:
sou devedor!

O que mais tenho de mim
se tudo que guardo aqui
e o resto que sobrou
de nosso estranho amor?



Metáfora

 

Quantas cores rebrilhariam em meu vitral
não fosse essa eterna solidão de noites!

Quando, num lampejo efêmero,
miro algum espelho de cristal
só vejo nele meus pequenos cacos:
retalhos de vidro remendados
nas possíveis cores desbotadas
de meu existir imaginário.

Mães... mulheres!

 

Às vezes confundo as flores
e os nomes das mulheres,
talvez porque elas
em quase nada se diferem:
na beleza, no perfume,
nos encantos e delicadezas
e, mais ainda,
nesse dom muito mais divino,
que é o de trazer ao mundo,
sobre a imensidão inerte,
o grande milagre da vida.

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