Rasa Razão
Já era noite
- hora do hush –
quando a razão,
trafegando na
contramão
da Avenida
Episteme,
foi atropelada
por uma vã.
Vieram os jornais,
o rádio e a
televisão.
tiraram fotos,
fizeram anotações...
No dia seguinte
– pasmem! –
a manchete dizia
que a Filosofia
havia fechado a
Razão
e que a vã, na
contramão,
sob a direção da
menor
CF, além de
atropelar,
negara socorro à
vítima.
Só esqueceram
de botar uma tarja
na placa de um
banco
que existia do
outro lado
e na foto, o que se
lia,
era nada mais que
Impedimento
A
noite, vista dessa estreita janela,
é
escura, feia e sombria:
não
há lua nem luz elétrica
e
nas faixadas das casas, já sem brilho,
nenhum
pálido lampião,
nenhuma
fresta de janela
por
onde passe, atrevida,
a
claridade de uma lâmpada
mesmo
que calma, mesmo que fria;
no
céu até as estrelas
silenciam
sua mudez
de
luz quase apagada.
Dali
uma multidão observa,
sobre
as sombras obscuras dos muros,
que
separam quintas e latifúndios,
ratos
a caminharem calmamente,
talvez
saídos de algum esgoto fétido,
para
roubarem os sonhos dessa gente
num
pesadelo não acordado,
que
um dia, depois de outro dia,
com
eles fez-se lodo, fez-se breu
e
apagou o brilho cálido das estrelas.
Nunca
mais!
Quando
as cercas dos quintas
já
não puderem mais conter nossos sonhos;
Quando
o arame farpado rasgar a pele
nas
vertentes desses latifúndios;
Quando
asas plainarem sobre o mundo
num
canto de liberdade;
Quando
as retinas do réu, em paz,
ferirem
as pupilas dos carrascos;
Quando
centelhas de esperança
incendiarem
as nossas almas...
Numa
explosão inaudita ouvirás:
nunca,
nunca mais!
Questões mercadológicas
Eu só queria vender
uma
ideia fascinante:
um
par de sandálias gregas
de
couro de elefante;
uma
ilha submersa
com
uma cratera vulcânica
tendo,
com vista pro Pacífico,
um
maravilhoso mirante;
um
país, cheio de gente,
embrulhado
pra presente;
a
magia de um discurso
de
interesse evidente;
queria
vender umas Minas
num
estado interessante
onde
a tal da liberdade
é
algo que eu mesmo invento;
queria
trocar um jumento
por
um bebê dinossauro;
um
velho de doze anos
por um novo de quinhentos.
Protestos
O sol nem sempre reclama,
os
rios raramente protestam,
as
montanhas não choram,
os
esgotos, às vezes fedem.
Os
oceanos se revoltam vez em quando,
a
brisa brada em vendavais
e no
furor de chuvas torrenciais
as
geleiras do ártico derretem...
Nem
sempre as palavras agridem,
verbos
raramente atiram
na
cara de predicados fétidos
sua estupidez de rima.
Rimbaudiano
Passava distraído pela praça
onde
a liberdade outrora fora sonho
quando
me detive a reparar
um
típico intelectual.
Sentado
à sombra, num banco,
tinha
um adesivo azul e amarelo
harmoniosamente
colocado
do
lado esquerdo do peito.
Reparava
com ar interrogativo
operários
ao sol daquela tarde
montando
um gigantesco palco.
Pernas
cuidadosamente sobrepostas
e
sobre elas um poodle branco
denunciando
seu teor e seu quilate.
Titanic
Sentado
confortavelmente
ao
sol matinal da varanda
pensava
nas economias
enquanto
lia, distraidamente,
um
livro de Dostoiévski.
É
quando chega o netinho,
transbordo
de energia,
e o
convida a brincar:
mas
o avô, ar pouco, cansado,
recusa-se
a aceitar.
-
Você sabe muito bem:
não
temos brinquedos em casa,
responde
o velho ao neto
que
propõe vivaz:
-
vamos fazer um Titanic!
-
Acabaram minhas folhas, diz o velho,
mas,
por trás da miopia,
pensa
no papel que escondera
à
porfia e ao revés
do
abuso dos pincéis.
Corre
o menino ao terreiro
para
pedir socorro à avó;
sabe
que ela, mesmo só,
é
por duas vezes mãe:
mais
que pai, mais que avô.
Ela
então lhe oferece
um
velho livro de histórias
que,
já roído por traças,
havia
ali separado
para
em breve jogar fora.
Em
pouco tempo o menino
estende
inocente ao avô
uma
folha amarelada
contendo
um mapa do mundo,
com
a Europa e suas colônias.
Depois
de muito insistir
resolve
o velho sentar-se
numa
mesa e, trêmulo, dobrar
aquele
velho papel
dando-lhe
a forma de barco.
Já
no quintal o netinho
logo
providencia um balde
e o
enche a transbordar
colocando
a navegar
o
seu novo Titanic.
Em
pouco tempo o papel
encharcado
se naufraga:
perde
a forma e o equilíbrio
decepcionando
o menino
que
implorara outro barco.
Mas
frente à inércia do avô
resolve
que será melhor
pendurá-lo
a secar
num
varal que ali havia
pra
tão pouca utilidade...
O
menino vai embora
deixando
esquecido seu barco
ao
abandono do quintal.
só à
tardinha, o avô,
recolhe
dali seu papel.
No
afã de recuperá-lo
descobre
a inutilidade
daquela
velha e rota página
cujas
legendas, borradas,
já
não podiam ser lidas.
À
noite, em sonho, o avô,
perdido
num mar imenso,
cheio
de barcos pequenos,
vê
naufragado seu neto
a
implorar por socorro.
Se
navegar é preciso,
urge
rever nossa história
e os
mapas geográficos:
a
bordo de Titanics
o
mundo gira à deriva.
Outubros
Um pardal trágico
apanha
o gramofone da manhã
e
berra impropriedades
em
meus ouvidos de aluguel.
Chuto
o berço esplêndido e tento acordar outro dia.
Raios
de sol trôpegos
rasgam
a janela do quarto
e
caem fúlgidos pelo chão
de
minha pátria outrora amada.
Jogo
os restos na lixeira para não rasgar meu título de eleitor.
Nuvens
acinzentam o céu
para
o espetáculo de outras cores
esquecendo
na gaveta da aurora
sua
propriedade de fronteiras.
Aperto
a descarga e volto a dormir meu sono diurno.
Vigília
Na madrugada morna
acordo
meus sentidos,
ligo
atentos ouvidos
e
ouço soprar sons sutis
de
toda ordem.
A
horda é torta
qual
morte escancarada:
bate
à nossa entrada
com
armas a rugir, hostis,
gritando:
calem-se!!!
Esse
país tão grande
de
gente tão pequena,
de
fardas e continências,
de
insolentes poderes
e
poucos ouvidos atentos.
Noites
insones, apreensivas:
sob
a vigília de drones,
Ness Zione,
calabouços,
cemitérios
clandestinos
e tantos destinos incertos.
Não,
Vale!
Eu
não devia,
eu
não queria:
sequer
tenho direito
de
fazer poesia
e de
rimar vidas
com
rio.
Nessa
avalanche de palavras,
embotada
de lama e veneno,
estende-se
o manto pardo
pobre
o cristal Doce
onde
as vidas, mínimo detalhe,
não
suplantam o vil metal.
Lamento,
lamento muito!
essa
rima fede,
esse
valor não Vale
a
História daquele
que
te batizou
e
que já fora, outrora,
pai
de outras rimas:
doces,
cristalinas.
Veja,
só!
Um
alce
ou
um bisão,
ao
olhar do leão,
é
banquete.
Uma
capivara
tem
lá suas esquisitices:
parece
um porco
e,
em muitos,
desperta
o apetite.
Um
bando de macacos
é só
expertise:
ágeis
e curiosos
chamam
a atenção
de
todos.
Mas
Veja,
Essa
grande anta
¬
não o animal! ¬
é um
bicho que não se explica:
produz
estranhos ruídos
e no
fim de tudo
pensa
que se comunica...
Doe(i)*
saber:
o
quê?
para
quem?
Vai
entender esse bicho!
(*) John Doe é o mesmo
que fulano, um desconhecido qualquer.
Meu
juízo
Reuni
os melhores ingredientes
na
medida justa de cada coisa
segui
todo rigor dos pressupostos
misturei,
uma a uma, as suas partes
homogeneizando
cuidadosamente a massa.
Assim
fiz, com todo rigor recomendado,
aquela
deliciosa torta
com
a intenção e a proposta
de
agradar ao paladar
de
meus nobres convidados.
Botei
a coisa na geladeira
¬ o
que é conveniente às tortas ¬
esperei
findar a comilança do banquete
mas
quando fui servi-la
notei,
em desconserto
que
ela jazia ali, fria e petrificada.
Embora
todas as medidas pareçam justas
e a
receita convincentemente formulada
nem
sempre podemos garantir
¬ no
final dos banquetes ¬
o
sucesso de uma boa sobremesa.
Calem-se!
Quisera
gritar protestos
contra
tudo nesse mundo,
mas
um embargo infringente
fez-me
prisioneiro mudo
nos
estreitos de uma concha
e,
às margens de mar ou rio,
minhas
convicções apressadas
arrastaram-se,
vencidas,
pela
gosma de meus pântanos.
Fora
um número qualquer,
um
simples registro em cartório
e
nas estatísticas
não
passei de margem:
erros
prováveis
descartados
no rol das variáveis.
Agora
esquecido
nem
risco, nem gráfico,
nem
número estatístico:
sou
apenas embargo,
voz
calada, mudez de conchas
sem
areia, sem rio...
sem
mar.
Soneto
alado
Além
das arenas e dos estádios
reinventamos
caçadores de dragões:
fiéis
servidores em seus ofícios
no
fazer passivo e na cega servidão.
Como
iscas semeiam omissões, mentiras
no
vale dos jornais e da televisão
onde
as ralés das redes e dos achismos
em
bandos vão tangendo a multidão.
Quando
pisarem o animal sacrificado
e
tiverem seus retratos publicados
irão
brindar sobre as feridas da nação.
E só
depois, ao se retirar os caçadores,
hão
de ver, em alguma página os refletores
a
desvelar seu próprio sopro de dragões.
Duvidar
Nunca
soube:
se é
pastado
ou
se pasta,
se é
curvo
ou
encurvado,
se é
rapina
ou
rapa-tacho,
se é
senador
ou
sina e dor,
se é
serra
ou
serrador,
se é
muito,
pouco
ou nada,
se é
palhaço
ou
palhoça,
se
falta caráter
ou
cabelo,
se é
espectro
ou
espectador,
se é
entreguista
ou
entregue,
se é
mentecapto
ou
mente e capta,
se é
pastel
ou
pastel mesmo.
A
propósito de...
Tem
gente com tanta luz
capaz
de ofuscar talentos,
tem
gente que aparenta
mas
carece de essência,
tem
aquele que se esconde
para
nunca ser notado,
tem
bobo que se apresenta
como
douto ou deputado,
tem
gente que se faz de besta
sendo
muito inteligente,
tem
gente que se faz de sábia
sendo
um pouco ou muito rasa,
tem
gente que parece mansa
mas
por pouco fica brava,
tem
gente que parece brava
mas
não passa de covarde,
tem
gente que é mesmo gente
e
tem quem nunca será,
tem
paletó e gravata
enfeitando
carcará.
Tem
operário,
pedreiro,
tem
servente
e
secretária,
auxiliar
de escritório,
escrevente,
e
escriturário,
tem
acadêmico
e
tem técnico,
tem
docente,
e
tem discente,
indecentes,
recatados.
Tem
falso profeta
e
discípulo,
tem
gente sem faculdade,
advogado
de título,
tem
médico,
tem
senador
e tem
também magistrado,
tem
poeta,
tem
artista,
tem
gente com doutorado
¬
bacharel falsificado ¬
tem
palhaçada no circo
na
câmara e no senado,
tem
caminho,
tem
estrada,
tem
trilha
e
também atalhos.
Tem
gramática,
enciclopédia,
tem
pilha de dicionários,
tem
também palavra escrita
que
até parece colada,
ideia
que faz sentido
e
aquela que nada diz,
tem
cara de pau e de pedra,
tem
muita cor de verniz,
tem
verdade de palhaço
que
justifica o nariz,
tem
gente de toda laia
tem
escorpião, tem lacraia,
tem
lobo, vespa e zangão,
tem
pastor e tem ovelha,
boi
em pasto e matadouro,
tem
até bicho de pé
e
tem carrapato
que
não desgruda da gente...
Tem
lucidez
e
demência,
tem
merda
que
se apresenta
com
ar de aristocracia,
tem
corruptor,
tem
corrupto,
tem
os dois na mesma cia,
tem
merece
e
merecer,
quem
não é
nem
pode ser
coisa
que nunca foi dita
e
que acabo de dizer.
Efêmeros trópicos...
(além
do olhar de Lévi-Strauss)
Dizem
que montanhas choram,
que
o vento uiva,
que
cachoeiras cantam,
que
telhados assobiam,
que bambuzais
gemem
e
que são nobres as saúvas.
Por
esse alento
espero
que flores brotem,
com
toda promessa de frutos,
dessa
absurda tempestade:
mesmo
que, embora belas,
sejam
elas, como sempre,
tão
tropicais e efêmeras.
Coisificância
(Aualquer
coincidência é mera)
Uma
pedra navegante
adiciona
uma rocha mansa
no
perfil do Facebook
e a
mutamba, seca e áspera,
bloqueia,
sem motivo algum,
o
inconveniente carcará.
Na
complexidade das redes
pacientemente
trançadas
por
preguiçosos riachos,
um
caititu deixava rastos
curtindo
os posts macabros
de
soberbos urubus.
Um
escaravelho besouroso
achando
tudo monótono
fez
morada sob a pedra,
mas
em heppy hour de algum tronco
encontrava-se
com a amante,
recatada
mariposa.
Mas
eis que um temporal
debruçado
sobre o campo
arrastou
besouro e amante,
arrancou
pedras e troncos,
varreu
dos altos rochedos
urubus
e carcarás.
Só
restou, ainda que manca,
uma
rocha e seu barranco
que
de toda enxurrada
guardou
esparsas lembranças
e,
cravado em suas entranhas,
o
velho pé de mutamba.
Fosso
filosófico
Pedras,
cascalhos, pedreiras,
caminho
áspero, escorregos,
espinhos
na pele, arremedos,
clamor
de desassossego
que
aqui dentro grita
por
socorro e, num apelo,
pede
perdão pelo que não fez.
Territórios
mínimos,
frágeis
e indivisíveis fronteiras,
púrpura
trincheira,
sobre
a qual se trava a luta.
Seu
fosso cava o passado,
suas
barricadas são memórias
e
sobre seu ponto mais alto,
quando
a noite é vinda,
aves
noturnas, minervas,
observam
os monstros-ratos,
que
em suas obscuras cavernas,
qual
vermes devoram,
vidas
e memórias.
De
hoje! E nem...
¬
Abrem-se as cortinas!
¬Cortinas
existem?
¬
Caem as máscaras!
¬
Que máscaras?
¬
Gritam os loucos!
¬
Quem são os loucos?
¬
Atiram-se pedras!
¬
Que pedras?
¬
Rasgam-se as roupas!
¬
Que roupas?... O rei está nu!
¬ O
rei está nu?
¬
Éh, o rei está nu!...
IraDo
Rumino
sobre a sombra do desprezo
insossas
monotonias da cidade:
abdico
do que nela há de pudores,
rasgo
e lanço ao vento estas palavras.
Não
creio nos indubitáveis signos
pois
neles nunca consegui ser brisa,
muito
menos muro de concreto...
Cético,
nego o teto que me abriga!
Já
farto desse doce açúcar
vomito
estupidez pela cidade!
Não
há grades de aço, não há portas
que
possam aprisionar a minha fúria.
Quero
chão para meus desequilíbrios!
Não preciso
ostentar nenhum bandido
¬
nem a mim mesmo! ¬
mas
quando o chão me escapa
na
beira desse abismo
grito
e faço eco descabido,
desnudo
a cidade e as palavras...
subtraio
dos signos os seus sentidos.
Desmedida
Neste
universo de palavras curtas,
mirradas,
¬
signos incompreendidos ¬
nesse
jeito novo de dizer
por
meio de migalhas,
rearranjos
sem palavras,
gestos
sem estilo
e
versos mal rimados.
Nesses
murais de frases curtas,
sem
nexo,
colhidas
na rede, qual descuido
de
tartaruga que flutua
nas
enseadas dos mares...
esse
excesso de fagulhas
de
tão pouca claridade.
Na
rede eu me desarranjo
todo
torto:
no
emaranhado das palavras,
nas
curvas confusas da escrita,
na
informação desmensurada,
nas
muitas páginas não lidas,
ao
som de primordial apelo.
Penso,
logo desisto
Em
que estou pensando?
Em
nada!
pensar
dói
e de dor
transbordo.
Prefiro
navegar na rede
e no ócio do comando
individual do navio,
pescar imagens
slogans,
fotografias grotescas
para justificar meu juízo
sobre tudo que acontece.
Prefiro assim,
ter de sobra
opiniões sobre tudo
e em textos
econômicos
comentar, julgar
fazer valer
minha ira sobre os outros.
Que seria de Zola,
muito mais do que Dreyfus,
de caísse a inocentar
qualquer réu
já condenado?
Ainda acho “bacana”
a Revolução Francesa,
ainda banco de herói
e afirmo ter certeza
de que o outro é culpado.
Releiam o que escrevi,
façam já o seu juízo:
curtam, compartilhem,
reúnam já seus amigos!
Vamos sair por aí
a jogar bosta na Geni!
Templos
modernos
Querem
que sejamos eternamente bois por isso nos ferroam e nos confinam...
Queremos
ser cavaleiros!
Por
que só alguns podem montar?
O
estouro da bomba
o
fogo incendiando os corações dessa gente jovem:
almas
inquietas à busca de sentido pra viver.
Mundo
sem lógica
cultos
estranhos
templos
de shoppings, de deuses
insaciáveis
exigindo
o sacrifício de milhões.
Confusa
veneração,
cultura
de massa,
mídias
que apelam à passividade de rebanhos,
batismo
de submissão ao consumo.
Anjos
rebeldes
bíblicos
instrumentos
de
oração em tempo real, dessa adoração ao capital
desse
basta! já estou cansado!
Prefiro
a invisibilidade dos anjos caídos!
Desalentos!
Queria cantar um canto assim.
Ter a coragem de morrer por uma causa justa.
Sei que poderia incluir o nome de muitos facínoras
e canalhas
na lista daqueles que assassinaram nosso maior
sonho:
o de sermos livres e viver em paz.
Meu amor,
perdoe a minha fraqueza e meus medos.
perdi o encanto, você bem sabe:
meu próprio corpo já não nega o desalento...
Estou cansado de procurar a paz que nunca encontro!
Liberdade,
óh Minas!
O
que é a liberdade?
ainda
que tardia?
ainda
que breve?
Liberdade,
óh Minas!
é o
direito de dizer
o
que não está direito
a
quem é pago para ouvir.
Liberdade
não existe
onde
reina o silêncio
porque
mudo
ninguém
tem paz!
tem conformismo
e
dor.
Por
isso, meu amor,
quando
a bala dilacerar tua carne frágil
e
teus olhos vermelhos já não puderem ver
a
branca nuvem de gás...
Quando
já não sentires mais
a
força de tua luta
saiba
que morre contigo toda uma nação
e no
meu coração,
já
sem calor,
morrerei
também de tua dor
sem
ver a paz que buscamos juntos.
Palco
Deste mundo de
espetáculos
temo as máscaras,
temo as luzes,
e as sombras atrás
dos palcos;
temo as farsas dos
palhaços
e aquelas, nas
quais disfarço,
em plágio, à sombra
do outro,
ao adorar, nas
estátuas,
falsos bezerros de
ouro.
Não temo aquilo que
falo,
o que creio ou o
que faço,
pois sei que cada
pedaço,
cada minúsculo
átomo
das coisas que me
rodeiam
são, do universo,
apenas parte:
não há pois nenhum
filósofo
que negligencie
este fato.
Só após cair o
pano,
no foyer,
nos cumprimentos,
vês que lhe
furtara, em engano,
os aparentes
sentidos:
desconfiar, por
princípio,
do tal do senso
comum
pode poupar-nos o
vexame
de alguns falsos
juízos.
Se tudo aquilo que
falo
tornar-se por vezes
alvo
de algum juízo ou
crítica
não ficarei
chateado
nem um tanto
aborrecido,
porque também faço
parte
daquele já referido
senso comum
populacho.
Justificativas
A
noite era apenas pretexto
de
luz, de estrelas e de sóis,
que
no colo dourado da aurora
gestavam
as cores de outro dia.
Um
pássaro voava leve
sobre
o leito prata do rio
enquanto
a brisa fresca embalava
uma
canoa e solitário guia.
Homens
de si esquecidos,
juntos,
alheios e às sós,
em
aviões rebrilhavam ao sol.
E o
poeta, sem pressa ou apego,
banhado
pelas cores de arrebol,
versejava
à mudez de sua voz.
Corpóreo
O meu avesso
é o verso que escrevo
quando o lado de fora
grita, implora
flores de primavera
e só obtém, por resposta,
triste solidão de grotas.
Reviro-me por dentro
e só encontro
resquícios de velhos
tempos
em que, mesmo sozinho,
mesmo longe desta gente
tinha sempre por perto
certo e seguro alento.
Sou sim esse deserto,
esse grito que não se
escuta:
martelo, rabisco à
margem,
escrevo para um leitor
que desconheço,
mas que fala fora de mim
tudo que no seu avesso
é sentido por dentro.
Lugar
de menino
Menino,
saia daí!
depois
que inventaram a máquina,
menino,
ela
roubou teu lugar!
Crê,
menino,
que
o mundo é teu?
engana-te!
O
mundo, menino,
é
esse absurdo
que
te cobre de coisas
sem
sentido,
vomitadas
pelas máquinas do mundo.
Queres
te salvar, menino!
então,
saía daí!
Lições
A
velha subia a ladeira,
ladeira
velha,
velha
lavadeira
levando
sonhos
de
roupas limpas
ainda
úmidas.
Ela
entrevia
que
o menino atrás de si
molhava
de ternura
a
rota blusa
de
tergal.
Ela
sabia,
pela
escola de mãe
e de
vó,
que
o menino haveria
de
aprender
que
é pra frente
que
se anda.
Avesso
O
manto da tarde
é
cinza, triste e frio:
sugere
cobertor,
abraços
e arrepios.
O
tédio invade
meu
humilde escritório
e
traz saudade e dor;
sal
de mar, água de rio.
Ainda
assim, não reclamo:
ao
mar enxugo,
aqueço
o frio.
Quanto
ao rio
nada
pergunto:
nele
entornarei meu pranto.
Apelo
Dispa-me,
liberte-me
dessa roupagem tosca
de
ridículo colorido.
Retire
essas horríveis cintas
que
me abraçam colantes, pegajosas.
Espie-me,
longamente
e
tente decifrar meus signos
não
antes de me livrar de tudo isso
e
postar os restos numa lata de lixo.
Mais
tarde,
quando
sentir-se preparada,
sente-se
confortavelmente no sofá,
acaricie
minha pele lisa e colorida,
sinta-me
o cheiro
invada-me
o corpo inteiro.
À
noite, sem culpa e sem pecado,
leia-me!
Pertinência
Que
sou, senão eu mesmo!
alguma
coisa quase espectral:
informe,
incolor,
insossa
e
inodora!
Sou
dor
fora
de mim!
amor
em
desafeto;
sou
embrião
sem
feto,
relento!
Do
convento, a paz,
o
nada e seu movimento.
Sou
lento como a brisa
que
vibra no veludo liso
de
tua pele e, leve,
faz
dançar
um
fino fio de teu cabelo.
Fins
Marcas
na areia molhada:
risco,
traço, onda, rasto
ritmo,
compasso
ee
pés descalços
dêbados
e inconstantes
de
algum andante.
O
homem deixa marcas
por
todo lagar onde passa:
um
meio,
indício
de destinos,
buscando
no escuro incerto
inalcançável
fim.
Eugênico
Aos filhos de Nina Rodrigues
Não
sei se foi por amor,
por
ciúmes ou dissabores;
se
por falta de afeto,
por
um ninho ou por um teto
o
certo é que vi,
segunda
pela manhã,
os
dois a brigar
na
calçada à minha frente.
Não
tinham armas
¬
nem sangue havia! ¬
sequer
percebi hematomas,
não
escutei palavrões
ou
gestos mal educados,
mas
vi que ao findar a briga,
bem
ao contrário dos homens,
cada
um foi pro seu lado
talvez
à busca de um amor
ou
do mel de alguma flor.
Não
sei se Nina Rodrigues,
na
sua ciência eugenista,
aceito
o ponto de vista,
afeito
ao pilar do empírico
teria
mudado ao propor,
na
conclusão de sua tese,
que
é o homem, não o beija-flor,
o
tal animal superior.
Leveza
Banhado
pelo frescor dos ipês
que
ornam a Bernardo Monteiro
um
ousado sabiá,
alheio
ao reboliço da feira,
cantava
lindamente
e
ninguém o percebia.
Até
que um poeta,
a
caminho do trabalho,
ao
ouvir aquela música
despe
o peso da semana
e
veste de leveza
aquela
sexta-feira.
Saudação
Ave!
Ave!...
àvé!
Ave
que canta e encanta
outros
ouvidos que se dobram
Aos
sons suaves
de
seu divino canto!
Ave
que, mansa,
pousa
elegante
no
quintal da casa
De
um poeta que anda,
mas
não voa,
ouve,
mas
não canta.
Eu,
rio
Nasceste
pequeno,
transparente,
esperto,
descendo
as encostas
por
campos e relvas...
Quiseste
ribeiras
ribeirões
e rios,
por
fim, já desperto,
procuraste
o mar...
Viveste
nas eras
quase
eternidade,
nesse
ir e vir
de
louca deriva.
Às
vezes pergunto
ao
imponderável:
acaso
entre nós
ecoa
um riacho?
Cuidar
Sabia-se
flor
pelo
perfume e delicadeza.
Enfeitava
ramos
caules
e espinhos.
Trazia
um pequenino
a
quem dera colo
oferecendo,
a seu lado,
o
assento.
Contara
um sonho
tão
perfeito
capaz
até de sonhar
outros
tantos sonhos
igualmente
primorosos.
Alguns
meses mais tarde,
envolta
em pétalas,
viu-se
que trazia,
ao
colo,
uma
menina.
Chuva
de agosto
Chuva
mansa,
chuva
fina,
gotas
macias caindo
nas
folhas de meu quintal
é
canção na madrugada
e
uma vontade de dormir
mais
que o tempo da agenda.
Devir
Embora
só
o
menino era muito:
muito
mais que macambiras,
mais
até que vassourinha
ou
casa de marimbondos...
era
uma solidão de trilhas,
quase
essência de chapadas,
sumiço
de voçorocas,
um
pouquinho ausência
de
mar em sequidão de grotas...
Sonhos,
apenas sonhos:
uma
espécie de vazio
no
oco ranger do vento,
assobio
medonho
nas
moitas do bambual.
Até
que uma voz, lá dentro,
remexendo
mar sonhado
colocou
o mundo num bornal
e,
cheio de coragem,
lançou
na vastidão do mundo
aquele
pobre menino.
Ignorância
Uma formiga, um caracol,
um fio de água em riacho
serpenteando entre barrancos e pedras
uma pequena queda
em ensaio de cascata,
o assoviar do vento
nas folhas secas das matas
inverno, céus, rumo incerto
e o sentido de viver
sem saber de nada.
Crono(in)lógico
Embora
quinta
o
dia começou sonho:
sair
mais cedo,
almoçar
no mercado
saboreando
uma Original.
Subir
preguiçosamente a Bias Fortes
e
nela ver um pouco dos serrados
em ressequidos
galhos;
mais
acima,
onde
a liberdade outrora fora,
ver
os ipês com suas flores rosa
desafiando
o machismo azul do céu.
Na
Major,
que
me fez lembrar um primo
¬
que é Lopes, mas não Major ¬
ouvi
os sons Maristas
de
um piano mal tocado,
em
marcha lenta
¬
até descompassada ¬
e
quase confessional.
Logo
à frente,
o
inesperado primeiro lugar
no
segundo título
de
gestão de pessoas.
Depois
disso só a alegria
no
percurso para o trabalho,
com
direito a um e cinquenta do bombom
para
ajudar a moça a se casar...
Um
dia pode ser muitas coisas
além
das vinte e quatro horas
desse
tempo cronológico.
Viajante
A Mia Couto pelo chão que me sobra
Deitado
sobre a terra
esse
mundo espreita
a
mais estreita janela:
pequena
fresta aberta
ao
imponderável
A
lua zomba estrelas
mas
são elas que brilham
¬
mesmo em mínimo fulgor ¬
sobre
o que sobrou de outras
tantas
noites sem luar
Os
rios cantam cascatas
e
para o mar se desmancham,
mas
nunca conjecturam
sobre
areias, sobre o sal,
sobre
a deriva dos ventos
Coisas
mínimas
A
palavra escorregava
pelo
extenso lajeado
e o
menino iluminado:
adjetivava
gravetos
inventava
predicados
verbos
e substantivos
e,
cheio de preposições,
numa
oração de fim de tarde,
conjugava
seus brinquedos
numa
imensa interjeição:
Obá!
À
margem do beija-flor tinha uma pedra
Pedras
choravam caminhos
e
ninguém percebia ainda
que
ali à margem havia
pequeno
pé de vassourinha
onde
um beija-flor fez um ninho.
No
meio da mutamba
havia
um doce efêmero
e na
aspereza da pedra
um
menino, sem margem,
distraiu-se
pelo centro.
O
beija-flor beijou a pedra,
ignorou
flor de mutamba
¬
talvez por ser tão pequena! ¬
e
teve pena do centro
onde
a pedra fez caminho.
O
menino distraído
tropeçou,
sem ter caído,
e
viu, no pé de vassourinha,
o
beija-flor em seu canto,
qual
uma pedra no centro.
Paço
Ao poeta e prosador Ariano Suassuna
No
terreiro da palhoça
o
menino anda descalço,
chapinha
em alguma poça,
canta,
dança e, no espaço,
com
invisíveis compassos
risca
mundos, arma laços...
Atira
pedras num pássaro
e
com graciosos passos,
nos
salões de seu palácio,
rodopia
em linda valsa
pensando
que o mundo não passa
de
um brincar de faz-de-conta.
Refletindo
Tive
uma velha tia
que
se evaporou:
não
sei se era uma poça,
se
sempre estava na fossa
ou
lá no fundo do poço.
Um
sapo morava
dentro
de um barril:
olhava
por cima e nada via
só
quando a noite vinha
eu
ouvia um apertado,
oco
e distante coaxar.
Um
gavião fez seu ninho
numa
árvore cheia de espinhos:
quando
nascido os filhotes
piavam
a noite inteirinha
e eu
pensava que sentiam
o
desconforto do ninho.
Um
dia acordei crescido
e
muito desconfiado:
pensei
que tias não evaporam,
que
sapos não se abrigam em barris
e
que gaviões só piam
porque
não sabem cantar.
Ser-em-si
bemol
Não
queria arrastar assim,
às
sombras do corretor,
numa
escorregada ou outra,
mas
o fez de propósito
¬
depois confessou ¬
para
um leitor que não lê,
raramente
escreve
mas
aponta o dedo e justifica:
¬
olha só!... e se diz poeta!
Mergulhar
fundo demais
provoca
um efeito estranho,
feito
coágulo ou embolia,
quando
o lapso desmemoriado
acorda,
ao arfar de pesadelos,
um
fugaz espanto.
Impessoal
Via-se
uma só saída:
estreito
caminho,
secos
açudes,
fruto
da mutamba
cujo
néctar encolheu
num
doce suave
e
sentimento áspero.
Bia
era uma moça viçosa:
hoje
é só filamento,
sombra
pequena e lenta
que
se aquietou
nas
mornas tardes
de
chapadas vastas,
de
ar pouco e vácuo.
Ele
se perdeu na rima:
fora
um dia poeta,
mas
os sentidos,
sem
que percebesse,
deitaram-lhe,
aos olhos,
areia
mínima
de
açude seco e raso.
Esqueceu
o outono
que
no fresco das manhãs
traz
lento o inverno,
consome
folhas secas,
apaga
miúdas sombras
e
assombra poetas,
areias,
açudes e Bias.
Serenata
Ao grande poeta
Manoel Bandeira
Uma
curva de rio
dormia
em seu leito de pedras
sua
doce calmaria
até
que um sapo
¬ ou
teria sido uma jia? ¬
bem
debaixo da janela
num
coaxar quase poético
resolveu
lhe declarar
sua
saudade de lua:
Oh!
lua!
lu!
ah!
lu!
ah!...
luar!...
Sob o céu da
Bernardo Monteiro
Árvores nuas com seus
longos galhos
estendidos ao azul
líquido do céu
barracas coloridas
brilhando ao sol do meio-dia
um bem-te-vi a saltitar à
busca de verde
e lá no alto, a balançar
¬ corda bamba entre dois
galhos ¬
um filamento de linha
lembrando ausentes
papagaios
e a leveza de menino
a correr contra o vento.
Depois...
A Roland
Barthes
Às vezes consigo escrever
o antes:
as reminiscências, os
acalentos...
O depois é só o silêncio
do sentir
que ainda não tenho
coragem de escrever:
falta-me aquela sangria
da palavra não dita;
vazante para romper, nas
tempestades,
as brutas enxurradas de
ausência,
qual açudes secos que
transbordam seus vazios.
Ainda vejo no branco da
parede
o retrato que já não está
lá
como um lençol que
balançava no varal
antes que alguém o
recolhesse
à fria brisa da tarde.
Tenho comigo essa
presença tênue
que traz na memória a
calma de um amor reprimido
fugindo pelos atalhos dos
campos
em busca de trabalho
nunca findo.
A escrita é só uma forma
de trazer de volta a
parede branca,
o retrato pendurado
e um lençol a balançar no
varal.
Espero, quem sabe um dia,
poder entornar nas grotas
as palavras ausentes,
encher de sentido os
açudes secos
numa vazante de grito sem
eco.
Nada me nega a palavra
enquanto o antes balança
no varal,
mas o vazio do depois
ainda foge na tênue luz
de fins de tardes
numa ausência vaga de
lençóis já recolhidos.
Memórias vagas
A palavra me rouba o
instante
quando o ônibus balança
e quebra a ponta do
lápis.
Transeuntes me roubam o
olhar
quando, ao virar a
esquina,
paro a reparar a tarde.
Um pássaro pousa ao meu
lado
ignorando a importância
das folhas brancas de meu
diário.
Lanço uma folha ao vento
esperando que ela volte
com a epígrafe de um
romance.
As folhas marrons no
asfalto
refletem, qual uma
miragem,
os meus cabelos já
brancos.
Abro um livro muito
antigo
e dele leio um capítulo
como se nunca o tivesse
lido.
Meu branco lençol no
varal
deixa passar a luz do sol
por entre as linhas do
tecido.
Breves
Entre o meio-fio e o
asfalto
óh delicadeza
uma flor
Regá-la, que gesto,
colhê-la, que dó
óh flor
...
Na beira da estrada
jogado ali
um pássaro morto
...
Cai a tarde:
a chuva lembra
um acalento
...
Chão estéreo de agosto
óh uma flor
insetos
...
Luz difusa
rasga o kanion
óh Lua
...
Noite morna,
brilho de lua,
pio de coruja.
...
Crepúsculo
canto de seriema
rósea lua nascendo
Boas tardes
disse o homem sem dentes
descalço
...
Pé de serras
pio de coruja
brisa de inverno
...
O sol risca o muro
garrinchas piam na horta
óh, triste frio
...
Tinha olhos verdes
mas as folhas eram secas
e a tarde fria
...
Tarde morna
rolinhas pousadas num fio
quietude.
...
O vento dança
numa folha seca
nova estação
...
Um canto longe
cai feito pedra
dentro da noite.
...
A menina olha
nuvens distantes
sentimentos íntimos
...
Um gato se lambe
sobre a luz do sol
frescor de outono
...
No azul fundo
voa um pássaro
e o olhar se perde
...
Tinha a leveza de pluma
e um olhar de lua
nascida
...
O fio rompido
marcava o passo
no frio inverno.
Mergulho
Os olhos dela
qual folha de lírio
tinham o verde de vitral
e a distância de um amor
ausente.
Fingi não perceber
a solidão de uma lágrima
que daquela face muda
caíra funda nos lábios:
amargo sal.
Previsões
Os meus primitivos
instintos
quase nunca falham:
o calor, as formigas
ocupadas,
o brilho das folhas de
lírios
e o canto de um
passarinho
¬ ensaio em preto e
branco ¬
eram sinais claros
de noite fresca e
chuvosa.
Às vezes esqueço as
chapadas
e tento cultivar no
asfalto
alguma esperança de rio.
Naturalmente
O verde não sabe de si:
no espelho da natureza
não há imagem prévia.
acaso a flor convida
insetos
para sua festa de pólen
em cio?
Aprecio a vida
pelo que ela me doa
sem cobrar nada!
Lençóis
Folheio a vida
como se lê um livro:
cada dia é uma página
virada
acrescentando mais um fio
no emaranhado da memória.
Assim vou tecendo
os caminhos que trilho
e que me levam a
escolher,
entre as páginas lidas,
os livros que folheio,
amores e amizades que
tenho
e um jeito especial de
estender
os meus lençóis no varal.
Armadilha
Numa curva qualquer
de um caminho incerto
andava desatento, olhando
as pedras,
colhendo flores e
pétalas,
quando, num espanto
desmedido,
fui colhido, frágil e
desarmado,
pelo laço de teu lindo
olhar.
Depois daquele dia,
mesmo fugindo pelos
atalhos da escrita,
mesmo buscando caminhos
desertos
sem flores, sem
horizontes de pétalas,
mesmo perdido no
desassossego,
frágil, vencido e
cansado,
nunca mais me libertei
das amarras de teu laço.
Recuos
Invento um verso,
arrisco um passo
mas na ribanceira
não piso em falso.
Esqueço o cálculo
mas na hora do salto
recuo medroso,
fujo do abismo.
Evanescente
Brisa breve que sopra tua
pele
e faz vibrar os fios de
teus cabelos;
brisa que valsa no azul cristalino
em roupagem de nuvens
brancas
e, em voo de pássaros,
esvanecem na
transparência
deste céu de outono.
Óh brisa leve e fresca
que toca tua pele lisa
e sopra nuvens
errantes!...
em instantes de beleza
plena
e de espetáculo efêmero
ressumbras desta
evanescência
toda fugacidade do
eterno.
Releituras
Na cobra de vidro
que enroscava
a nossa casa de
menino
saltei em mergulho
e nadei
antes que alguém me
convencesse
que ela era uma
enseada
e algum esgoto
fétido
turvasse sua pele
prata.
Descendo e subindo
ladeiras
só vi pedras nas
laterais
e, por cima delas,
sem muito reclame,
sentava-me, quando
doíam as pernas
contemplando a mãe
das pedras
que a gente chamava
pedreira
onde à sombra me
deitava
sob o pé da
gameleira.
Numa planície
relvada
vi caído, morto, um
soldado:
colhi um ramo de
flores
e coloquei-lhe
sobre o peito;
plantei uma ramo de
rosas
no buraco de seu
lado esquerdo
e antes de me
despedir
dei-lhe um terno e
longo beijo.
Pelos becos da
Goiás Velho
viajei nos sonhos
lindos
de uma menina feia
e nos serões eu me
cansei
de esperar uma
fatia
do bolo feito em
panela
que só descia do
alto
do armário
inacessível
para a vovó e suas
visitas.
Numa manhã, em lote
ao lado,
vi um bicho
revirando o lixo:
fiquei triste e me
afetei tanto
que fiz servir do cardápio
a mais fina
refeição
e levei para o
bicho visto
que não era rato,
nem gato ou cão,
mas, ao que se
sabe, era um homem.
Finda a vida, o que
resta?
A porta só existe
para ser fechada!
Que bom seria se
ela ficasse
como um beco com
entrada e saída
sem chave e sem
taramela
sempre escancarada
pra vida!
Um redemoinho
pequeno
dançou no terreiro
do destino
e a menina, sobre a
ponta dos pés,
quisera ser, quem
sabe um dia,
uma famosa
bailarina,
mas o tempo
consumiu seus sonhos
e ela nunca mais
dançou
penando os secos
caminhos
sobre os calos da
vida.
Eu que não sou
atleta
nadei e fiz muita
festa
nos rios de outros
poetas,
mas não decifrei o
texto
do vidro do
restaurante
nem reconheci nele
minha tênue e baça
imagem.
Metades
Os dois ali:
um de lá
outro de cá;
no meio
o rio,
pequena ilha
e uma flor.
Os dois,
tão só:
braços,
abraços
de ilha,
de flor
e de rio.
O céu,
tão fundo:
de véu
de estrelas;
de vão,
vazio;
de lua
cheia...
Silêncio
de noite
pedindo
enlace.
Encontros
O poeta anda tonto
de tanto bebericar
nos encantos da
cidade
e assim, de andar
bambo,
vive sempre a
tropeçar
nos pombos e nas
calçadas,
entornando no
asfalto
fragmentos de
palavras.
Eu que não sou
poeta
deito meu olhar ao
chão
catando, aqui e
acolá,
algumas palavras
caídas,
mas só muito
raramente
vejo traído um
olhar
e dele bebo os
encantos
refletidos nas
calçadas.
Basta
Um canto me acordou sumido
e no açoite da noite
pensei ter entendido:
que o rio corria para cima
que a cachoeira descantava
qual passarinho escondendo em seu ventre
todo o assobio do vento.
Afaste
do rio essa solidão de barco!
Basta-lhe
o olhar do pescador
procurando,
no embalo de seu corpo
nas
curvas e nos movimentos
todo
mistério escondido em seus segredos.
Basta-lhe
a espera do brilho do dourado
em
salto sobre a roupagem azul
a
escapar-lhe do tecido em despudor
revelando
o sublime de sua intimidade.
Basta-lhe
o roçar suave do pássaro
de
delicadas asas a lhe acariciar
úmida
face ¬ espelho d´água ¬
ternura
de encontro entre a terra e o ar.
Basta-lhe
refletir o azul do céu
ser
espelho de estrelas vaidosas
salão
onde a lua baila em noites belas
ao
som da brisa e balançar de ondas.
Basta-lhe
a alegria das pequenas índias
que
em suas águas mergulham
e se
entregam, cheias de fé e amor,
a
seu toque, suas peles, suas flores.
Por
favor,
afaste
do rio essa solidão de barco!
Sobras
Nada
me interessa agora
se
no cômputo das horas
o
meu crédito se esgotou:
sou
devedor!
O
que mais tenho de mim
se
tudo que guardo aqui
e o
resto que sobrou
de
nosso estranho amor?
Metáfora
Quantas
cores rebrilhariam em meu vitral
não
fosse essa eterna solidão de noites!
Quando,
num lampejo efêmero,
miro
algum espelho de cristal
só
vejo nele meus pequenos cacos:
retalhos
de vidro remendados
nas
possíveis cores desbotadas
de
meu existir imaginário.
Mães...
mulheres!
Às
vezes confundo as flores
e os
nomes das mulheres,
talvez
porque elas
em
quase nada se diferem:
na
beleza, no perfume,
nos
encantos e delicadezas
e,
mais ainda,
nesse
dom muito mais divino,
que
é o de trazer ao mundo,
sobre
a imensidão inerte,
o grande milagre da vida.
o grande milagre da vida.

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